quinta-feira, 25 de novembro de 2010

VOU ESTAR DESABAFANDO >> Fernanda Pinho




Você passa o dia todo remoendo a questão e, finalmente, decide que, sim, vai convidá-lo para sair. Acha que ficará um pouco nervosa ao telefone, então opta por fazê-lo por mensagem (ou torpedo, como costumam dizer fora de Minas). Escreve, acha que ficou muito melosa. Reescreve, acha que não foi convincente. Escreve de novo e, agora sim, está direta, fofa e irresistível. Selecionar. Enviar. Trinta segundos depois, o toque do celular e a confirmação: 1 Mensagem Recebida. Coração acelerado, mãos suando frio. Você até se olha no espelho para conferir se o visual está ok para o grande momento de ler a respostas. Selecionar. Abrir. “Torpedão Campeão. Adquira seu pacote e concorra a prêmios em dinheiro durante toda a Copa do Mundo”. Misto de decepção com confusão mental. Você tenta entender por que cargas d’água a sua operadora ainda acha que estamos na época da Copa do Mundo. Por que raios a sua operadora envia mensagens em plena sexta-feira à noite? Por que diabos a sua operadora acha que enviar mensagens é uma maneira eficiente de fidelizar o cliente? E então você pensa em mudar de operadora pela milionésima vez na semana, mas se lembra de que todas são iguais. Só mudam o texto da mensagem.

Sério. Embora eu seja da área de comunicação, de marketing eu não entendo nada. Mas de bom senso eu entendo alguma coisa. Sei que as pessoas adoram receber mensagens, que as pessoas ficam emocionadas quando ouvem o toque de mensagem do celular, que as pessoas esperam receber mensagens. Mas de outras pessoas! Não da operadora. Mensagens da operadora só servem pra frustrar, desapontar, decepcionar e, por isso, deveriam ser banidas da face da Terra. Se uma operadora me oferecer um plano isento de mensagens, mudo para ela correndo, preciso nem saber do resto. Mas quem sou eu para fazer as operadoras entenderem que esse tipo de ação mais espanta que atrai.

Sabe outro negócio dessa mesma linhagem de comportamento que me espanta? “Fique à vontade”. Eu sou uma pessoa à vontade no mundo, na vida. Até uma vendedora se aproximar de mim e sugerir que eu fique à vontade. Não há nada que me deixe mais incomodada e, normalmente, me faz sair correndo da loja. Só fico, se eu realmente estou precisando de alguma coisa dali. Sinceramente, eu acho que o “fique à vontade” chega a ser grosseiro. Porque não é segredo para ninguém. Eu sei. Vocês sabem. Todo mundo sabe que, ao verbalizarem a sentença “fique à vontade”, as vendedoras podem estar mentalizando outras sentenças, tais como: “Não ouse encostar em nada”. “Se você experimentar e não levar irei te praguejar até sua quarta geração”. “Você tem cara de pobre. Tá na cara que não tem dinheiro para levar nada daqui. Aposto que vai parcelar no cartão”. Elas querem dizer tudo. Menos “fique à vontade”. Porque se, realmente, fosse para você ficar à vontade, não haveria alguém ali para te sugestionar. Você entraria na loja e escolheria o que estivesse a fim, sem ninguém te observando. Lojas de departamento, enfim. Mas eu não culpo as vendedoras. São trabalhadoras e estão, apenas, cumprindo essa regrinha de etiqueta comercial esdrúxula que alguém inventou e acha que é legal (mas não é).

Como também não culpo as tão temidas vendedoras de telemarketing. Elas não fazem por mal. Elas precisam trabalhar e alguém deve ter dito a elas que estar falando daquele jeito é mais eficiente. E, convenhamos, deve ser mesmo. Se ninguém comprasse nada oferecido por essas pobres telefonistas, essa profissão não existira! Se existe é porque tem alguém comprando! Só queria saber onde estão escondidos esses malditos compradores que alimentam essa atividade. Devem ser as mesmas pessoas que compram livros do Paulo Coelho. Existem aos milhões, mas ninguém assume.
Ok. Eu sou proprietária de um exemplar do livro Veronika Decide Morrer. Mas nunca comprei nada oferecido por vendedora de telemarketing, embora tenha uma certa dó de dispensá-las de cara. Normalmente, engato um papo mas, pensando bem, talvez fosse menos cruel dispensá-las logo de cara. Tipo uma que me ligou em pleno sábado à tarde, enquanto eu, sentada num bar, desfrutava de uma saborosa cerveja. A moça queria apenas me convencer a adquirir o cartão de crédito que havia sido liberado especialmente para mim e eu, analisando friamente, acho que acabei com a vida dela. De início, eu só disse que não tinha interesse, mas diante de sua insistência ferrenha, tive que partir para a argumentação: “Veja bem, eu sei que você não tem nada com isso, mas já que foi você quem me ligou é para você que eu vou dar o meu recado. Não é legal ligar para as pessoas num sábado à tarde, de muito sol e calor, para falar de banco, de cartão. Por favor, já que tem que fazer isso, faça em horário comercial. Eu não gosto de falar sobre esse tipo de coisa quando eu estou sentada num bar, tomando cerveja. É...estou sentada num bar, tomando cerveja e você está trabalhando, né? Que chato...É...desculpa”. Mal ouvi o murmúrio que ela usou para se despedir e desligar. Espero que esteja bem e que consiga um emprego mais legal.

E espero que as empresas, as marcas e seus marqueteiros criem métodos mais elaborados para me atrair. Eu gosto de ser seduzida (pelo capitalismo, que seja). Mas sou difícil.



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7 comentários:

Carla Dias disse...

Sabe, Fernanda, eu também costumava morrer de pena dos operadores de telemarketing, porque é uma profissão que entraria na minha lista na opção "não tem mais jeito, é isso aí". Mas isso até que me ligaram da mesma empresa 12 vezes, no mesmo dia. Fiquei louca da vida como quando ficam comigo no meu trabalho, quando cometo os meus erros. O jeito foi escrever uma história para um personagem que era operador de telemarketing e odiava o trabalho, que encontrou alguém que dissesse a ele, basicamente, o que você disse à moça que te ligou.

Marilza disse...

Fernanda, realmente ficamos com pena, mas convenhamos, eles são um porre. Pra mim ligaram à noite, por volta de 21h; tinha acabado de chegar e casa. Como disse q não poderia atender, me perguntaram qual seria o melhor horário. Diante da insistência, fui taxativa: não ligue, não quero falar sobre algo q não pedi.

Laís Bastos da Silva disse...

Somos difíceis então, pois também não suporto esse povo, que coisa mais irritante, além dos gerundios, a puta insistência. Eu jamais conseguiria trabalhar com isso, deve ser um inferno e de amabas as partes né?convenhamos.

fernanda disse...

Ai, gente, bom saber que eu não vou estar odioando sozinha...rs =)

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Eu sempre me safo com essa: desculpa, estou atendendo um paciente, mão posso falar agora. Agora, os torpedos me irritam bem mais. Tenho vontade de responder mandando para a PQP, com letras maiúsculas.

Vinicius Machado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vinicius Machado disse...

Putz! Eu tenho um ódio especial com isso!
Teve uma época que eu trabalhei em uma gráfica, na parte do atendimento. E nós passávamos(devem passar ainda) fax lá. E sempre, sempre, sempre e sempre, tinha um infeliz que trazia consigo um fax da sky, da net...para cancelamento u.u. Eram horas de tortura.

Ri demais com essa parte:
Sabe outro negócio dessa mesma linhagem de comportamento que me espanta? “Fique à vontade”. Eu sou uma pessoa à vontade no mundo, na vida. Até uma vendedora se aproximar de mim e sugerir que eu fique à vontade.

E é pura verdade. O mesmo vale, para mim, quando alguém pergunta: Gostou?