sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O QUE EU QUERO É SER FELIZ >> Leonardo Marona

Alguns homens sabem que precisam passar pela loucura para conhecer a verdade. São os mais debilitados, histéricos, paranóicos. Os que morrem por último cantando hinos e cagando nas calças. E a loucura é o único canal de que se tem conhecimento para tanto. Mas tudo é apenas para no fim se descobrir que a verdade é como uma fatia minguada de um bolo solado. E se estes pobres homens ainda quiserem entender as mulheres no meio-tempo, você pode ter certeza, vão ficar grudados à primeira etapa da viagem: loucura para eles até o fim dos dias, o que parecerá sempre um novo início para o fim a cada começo.

Eu me lembrava de duas frases que ela tinha me dito na noite anterior, “você pensa muito e não faz nada” e “você se expõe demais”, mais duas caipirinhas de guti-guti, sendo que tinha começado no Guaraná Diet, o que sempre acaba me deixando meio tenso quando se trata de acasalamento ou qualquer tipo de convencimento religioso. Fiquei um tempo só a observando mexer nos cabelos e nos óculos e a deixando falar. Ouvi ela dizer do antigo namorado que, em um ano, só tinha trepado com ela duas vezes. E, palavras dela, “já que estamos falando abertamente aqui, vou te dizer: na primeira vez, assim que sentei em cima dele ele gozou... Imediatamente... Da segunda foi um pouco melhor, durou uns quatro minutos. Mas o problema foi que, assim que tinha terminado, ele apagou e prensou minha perna na parede com o peso da perna dele... Ele é um cara bem pesado, sabe... E eu demorei bastante pra sair daquela posição”. Ali começou o meu encantamento e a minha queda. Uma coisa leva a outra necessariamente. Me senti um pouco mais íntimo. E isso é um passo para o tombo.

- Pra mim chega! – disse ela com um murro na mesa. – Não namoro mais nenhum homem brasileiro – e dá-lhe golada.

- O que você tem contra o homem brasileiro? – eu perguntei.

- Acontece que são todos uns canalhas.

- Acredito que a maioria já não saiba mais o que é ser um canalha. Mas eu acho que você tá se baseando em duas experiências ruins pra resumir um universo de cagadas possíveis.

- Você queria que eu me baseasse no quê? Você, por exemplo: fala do mesmo jeito que o meu primeiro namorado falava. Me elogia. Tenta me agradar. Porque vocês todos querem a mesma coisa... Eu me lembro bem, ele dizia: é claro que eu te amo, você é bonita, rica e inteligente. E como eu não ia te amar? E depois que tinha o que queria, que tinha a segurança, quer dizer, depois que ele achou que tinha algum tipo de segurança comigo... Porque eu vou te dizer: os homens se enganam muito quando pensam que podem ter algum tipo de segurança numa relação com uma mulher. Mas foram vocês que inventaram a ilusão, então que se virem! Se conseguem se contentar com tão pouco... e fez uma pausa – Não sei como conseguem...

- Olha, eu acho que você não deveria perder tempo se castrando e muito menos se preocupando com os homens. Não no teu caso. Seria um desperdício de beleza. Seria descer d’um pedestal pra patinar na lama. Você realmente não precisa se preocupar que sempre vai ter um pra acender o teu cigarro. Um homem de verdade é um simplório... Precisa de pouca coisa. Injustiça é vocês terem tantas e não quererem nos dar nada.

- Aí é que está! Eu acho que me petrifiquei. Me fechei nas minhas idéias. Eu sei que é isso. Não sou maluca... Nem precisa me olhar desse jeito.

- Só consigo te olhar de um jeito...

E a partir daí ficamos desviando olhares, guardando relances. Ela mexia na bolsa para não ter que corroborar com a minha estratégia. Bom, eu enfiava palitos na boca e sacudia as pernas por debaixo da mesa. Uma hora me cansei de brincar com os palitinhos, na mesma hora em que ela pediu sua conta, os outros da mesa começaram a se coçar também, num início de movimento de debandada. Nunca mais a veria. Tentar algo ali só podia dar na mesma ou na sorte. Está certo que nunca tive sorte no jogo. Mas o que se pode dizer a um viciado nos dados? Cobri minha boca com a mão esquerda, pelo lado, para que ninguém pudesse me ouvir além dela. Na hora me pareceu uma boa tentativa. Mas percebi que eu só conseguia murmurar algumas palavras desconexas. Ela franziu a testa.

- Tire essa mão da boca, menino! Não entendo o que você fala.

Falei então um pouco mais alto e imediatamente comecei a suar:

- Eu me interessei muito por você. É isso. Eu tinha que te falar porque você vai embora e não vamos mais nos ver. Então assim você pelo menos fica sabendo...

- Quem disse que não vamos nos ver mais?

- E por que motivo? Você não tem absolutamente nada a ver comigo. E eu acho que o fato de eu saber que sou minha pior companhia faz com que eu procure exatamente isso: algo que não tenha nada a ver comigo. Foi por isso...

- Cara, você pensa demais e não faz nada – ela me cortou e sorriu como uma sacana.

- Você acha que eu deveria fazer o quê? Afastar os copos e te agarrar por cima da mesa?

- Não, por favor, não faça isso – ela disse se segurando na mesa com as duas mãos.

Comecei a afastar copo por copo olhando nos seus pequenos olhos de quatro e setenta e cinco de hipermetropia.

- O seu problema é que você se expõe demais – ela falou. Estava séria de repente.

- É claro que eu me exponho demais. E qual é a graça aceitar as coisas calado? Não vou te dizer que desisti das mulheres brasileiras que nem você disse que desistiu dos homens. Acho isso uma tremenda burrice. Se eu não me expuser não vou ter com quem conversar. E se não tiver com quem conversar vou ter que falar sozinho. Daí só fica faltando a camisa de força e eu já posso me candidatar às próximas eleições.

O riso já não era mais tão entusiasmado. Ela estava intrigada também. Achei que fosse indecisão. Mas no fim o melhor que um homem na minha posição pode fazer é desistir de achar qualquer coisa sobre elas e as suas tramóias e arriscar a pele num mar infestado.

- Tudo bem – eu disse. – E como vamos nos ver de novo então, se eu nem sei o teu nome?

- Clarice.

E então o garçom chegou com a conta e ela tirou uma caneta da bolsa para assinar a nota do cartão. Não conseguia parar de olhar para ela, seus cabelos, suas linhas, mas principalmente os seu pés. Tinha me dito que jamais saía sem salto pra rua. No mesmo embalo em que assinou a nota, pegou o recibo e rabiscou alguma coisa nele. Me deu o recibo e guardou a caneta.

- Olha, você não precisa fazer isso, Clarice... Eu não quero mais sofrer também, então se isso for brincadeira, eu queria que você soubesse.... Você não tem que se sentir obrigada... É isso. Você não precisa fazer nada pra me deixar contente. A menos que também esteja interessada, porque do contrário você não precisa mesmo se incomodar...

- Você pensa demais – ela disse se levantando e puxando a bolsa num sorriso.

Me levantei também, com o papel na mão, e minha cadeira tombou para trás com o peso da mochila, que estava presa nela pelas alças.

- Isso aqui é um onze? – perguntei ainda com o papel na mão.

- Aham.

- Me diz uma coisa: você quer mesmo que eu ligue? Quer dizer: você também tá interessada? Eu preciso saber porque não quero bancar o inconveniente.

- Aí você já tá querendo dica demais... Mas se eu não quisesse mais te ver não tinha te dado o número. Claro, pode ser o número errado também. Você vai ter que ligar pra saber.

Pedi licença pros camaradas. Um deles me piscou e sorriu. Eu estava suando um pouco ainda, principalmente debaixo dos olhos. Malditos hormônios, não me dão trégua. Acompanhei Clarice e a amiga que estava com ela, na verdade ela estava do meu lado na mesa, sendo disputada a tapas pelos outros quatro malandros. Na porta do bar chamei um táxi. Queria esticar o momento até arrebentar. Não queria me despedir e ficava enrolando o quanto podia com as gracinhas mais sórdidas. Expliquei pro taxista o que tinha que fazer e me despedi das meninas com dois beijinhos nas bochechas de cada uma. E a última cena foi Clarice me abanando do táxi e eu sem reação com meu papel na mão.

***

Agora eu tinha infinitas possibilidades de combinação: do “faça de uma vez!” ao “pelo amor de deus, pare de chorar!”. E quem choraria seria eu, logicamente, uma hora ou outra.

A culpa é dele, daquele mau inquilino, do que mora dentro de mim, do que me faz julgar, apontar, errar, sofrer. Ele é bastante claro em suas ações: deixe comigo, ele diz sempre que estou apertado. Deixe comigo que farei a cagada por você. Não precisa se incomodar. Tudo bem, então. Liguei meia hora antes do combinado. Quer dizer, ele ligou por mim, o inquilino barulhento. Deixei com ele e ele tomou a atitude.

- Alô? – a voz do outro lado era ecoada.

- Oi... Bom, sou eu... Leo.

- Hum... Chomp... Chomp... Oi, Leo. – Estava jantando.

- Oi. Queria saber se você tem algum horário pra mim na tua agenda.

- Hoje vai ficar difícil, Leo. Vou sair com uns amigos. Vamos dançar.

- Tudo bem... Hoje não. Eu não sei dançar mesmo... Enfim, bem, ãh, bom...

- Escute aqui. Vamos fazer assim – disse a voz. – Você decide quando quer me ver, onde, que horas, então, quando tiver decidido você me liga, sim?

- Amanhã de noite – o mau inquilino respondeu de dentro da minha boca.

- Tudo bem. Me diz aonde que eu te encontro lá.

- Eu saio do trabalho às nove. Te ligo às nove pra pegar teu endereço. Te busco umas dez.

- Tudo bem: vou esperar então. Um beijo.

- Um beijo.

Ela ter dito “um beijo” antes de mim me pareceu um mau começo. Queria se livrar. Ia dançar. De salto alto. Enfim, liguei meia hora antes no dia seguinte também. Me entreguei. Agora só podia ir em frente até o fim.

- Alô? – dessa vez uma voz apressada atendeu.

- Me dá o endereço – eu disse.

- Nossa! Você é rápido, hein? – Ela estava fazendo gracinhas. A punhalada seria o próximo passo.

- Você disse que eu pensava demais. Bom, estou tentando pensar menos.

- Sim, claro. Olha, você acabou não me dando teu telefone... Precisava falar contigo, mas não sabia como fazer.

- Sei...

- O negócio é o seguinte, Leo: vamos ter que adiar o nosso encontro, tudo bem?

- Devo voltar a pensar, então?

- Não... Não é isso – e riu. – É que umas amigas minhas foram pra Angra... Eu não ia até pouco tempo atrás, mas um amigo me ligou oferecendo carona. Não é nada pessoal...

- É exatamente esse o problema... – murmurei.

- O quê você disse? Você fala muito rápido e baixo...

- Eu disse: anota o telefone então, porque eu não vou te ligar mais.

- Pode falar.

Disse o número, ela fingiu que anotou e então foi um beijo e boa viagem. Me ligue se quiser sair um dia. E voltei pro fim da fila novamente.

Por que ainda me arraso facilmente? Por que me basta uma inclinação de cabeça na hora certa pra me deixar de quatro? Por que fico sentado esperando os outros me tirarem daqui? Não existem mais os outros. Eu sou os outros. Quando penso nisso me enervo. O mundo fica pior.

Não havia o que eu pudesse fazer. Liguei a televisão. Passei pelos piores canais. Tenho um fetiche estranho, que é passar rapidamente pelos piores canais, do tipo rede tv, people and arts e aquele do bispo macedo. Mas quando vi era o Pereio sendo entrevistado pela Luciana Gimenez, e ela era aquela que tinha feito um filho no Mick Jagger, aquela que tem um filho que vai ter que, pra vida toda, se explicar perante os amigos: “como que tu é filho do Mick Jagger, cara!?”. E o Pereio estava de lenço verde no pescoço, meio nouvelle vague, suspensórios pretos esticados, aparecendo um pouco o umbigo, blazer, um pouco surrado propositadamente: era o Pereio, não havia dúvida. E eram débeis mentais fazendo perguntas sem o menor cabimento, elegendo uma nova cruz, e o Pereio como um bobo sendo fuzilado, bom demais pra conseguir se enquadrar, mas tentando se enquadrar, o que o tornava estranhamente frágil e ridículo diante daquela situação. O pobre gritava, ficava vermelho e dizia palavrões. Era o Pereio se esforçando como nunca para pertencer. E eu pensei comigo mesmo: se o Pereio precisa fazer esse esforço todo, imagina eu. Fiquei vendo aquilo o quanto pude. Foi quando o telefone tocou:

- Sim?

- Leozinho?

- Oi, Aninha...

- E aí? E o encontro com a gatinha? Como foi?

- Não foi.

- Sério? Que merda... Eu jurava que tava em cima.

- Eu também.

- Bom... Eu tava te ligando mesmo pra saber como você tinha se saído...

- Só pra isso?

- Se você estiver a fim, podemos ir numa festa. Na verdade é um lugar que me chamaram pra ir. Não conheço ninguém...

- Precisa levar cerveja?

- Acho que não.

- Compramos uma caixa e dividimos, então. Te apanho em trinta minutos.

Não me lembro se me perfumei. Na verdade não tinha motivos para sair à rua. A menos que fosse pular de uma ponte ou me jogar na frente de um carro. Eu era só mais um fugitivo alucinado. Pertencia agora. Queria apenas me mexer, dar a chance ao azar acreditando na sorte. Buzinei, ela desceu. Estava bem perfumada. Me fez lembrar que de fato eu não tinha passado perfume.

- Perfumada... – eu disse. Como disse, estava possesso; fazia o básico.

- Tudo bem? – ela me perguntou, e fez uma cara que só uma pessoa especial faria: meio que uma mistura de pena, tristeza e admiração, o que no fim é um tesão ultra-reprimido.

- Preciso botar gasolina.

- Ih... Não começa de mau humor... Pelo amor de deus – ela me disse, preocupada com meu estado de espírito.

Descemos a perimetral e paramos no primeiro posto. Veio um sujeito cansado de boné, enxugando a testa e colocando o boné de volta. Fez isso duas vezes antes de enxugar o buço com a flanela.

- Bota 50 de comum, por favor.

- Olha, não tem gasolina, não.

- O quê? Como não tem gasolina? Isso aqui não é um posto de gasolina?

Ana me puxou pela camisa e espremeu os lábios em desaprovação.

- Pois tem não – disse o sujeito. Nem mesmo olhava pra mim.

- Bom, cara, então eu vou te dar uma dica: por que você não apaga todas as luzes pra evitar que vários babacas como eu parem aqui pedindo gasolina?

- É... – e ficou olhando pros lados, sorrindo.

Era inútil tentar mudar aquilo. As cobertas, pensei, por que não fiquei com elas? De qualquer forma compramos a caixa de cerveja e partimos com a charrete na reserva mesmo. Assim que chegamos na festa, Ana foi procurar seus amigos e eu fui diretamente até a tina de cerveja, na cozinha. Uns sujeitos brincavam de abrir garrafas com os dentes e riam alto. Claro que só havia homens por ali. Peguei duas latas e voltei pra sala.

Ana estava no meio da pista de dança. Mulheres dançavam funk carioca. Todas cantavam alto uma olhando pra outra com as mãos apontando pra cima. Pra mim aquilo ali era engraçado até a terceira música. Mas no estado em que eu estava não tinha graça nenhuma, fora as mulheres batendo uma com a bunda na outra, felizes por estarem novamente com quinze anos. De repente Ana me puxa pelo braço:

- Leo, essa aqui é a Cecília. Trabalhei muitos anos com o pai dela.

- Oi, Cecília. Prazer – eu disse.

- Ei, foi você que pegou a Letícia, não foi? Não é você? Ex-namorado da Priscila?

- Bom, a Priscila já faz três meses que não vejo. A Letícia, mais de um ano. Espero que daqui a três eu já não seja ex-namorado de ninguém.

Ela riu e voltou a bater bundinha. Fui até a mesa. Havia um pote ali com nozes e um quebra-noz. Comecei a quebrar as nozes por diversão. Uma menina se aproximou em menos de cinco minutos. Era a mesma. Cecília. Vi que ficou me olhando quebrar as nozes. Do jeito que me olhava, de braços cruzados, cara inclinada, me senti um chimpanzé num teste de laboratório. Parei de estourar as nozes e me voltei novamente à latinha. Ela se aproximou com a mão no meu braço. Olhei pra ela. Me senti bem. Era linda no claro.

- Posso pegar uma das suas nozes? – me perguntou.

- Claro. O que quiser.

- Me desculpe por ter falado na tua ex-namorada.

- Não tem nada. Você tinha que dizer alguma coisa afinal.

- Mas você ficou chateado. Eu vi...

- Tive um dia cheio, só isso. Você conhece a Ana há quanto tempo?

- Desde que nasci, eu acho. Ela é muito amiga do meu pai.

- E você?

- E eu o quê?

- É muito amiga do teu pai?

- Ah, sei lá... Por que você tá me perguntando isso?

- Porque ninguém nunca me perguntou isso.

- Você é estranho.

- Você não.

Sorri e baixei a cabeça. Ela começou devagarinho a dançar. “Foi na festa da escola, tudo começoooooooou... Eu olhei pra ela e ela me olhoooooooou (...) Vamu juntá o mulão e botá o pé no baile, DJ!”. E a batucada entrou com tudo. Um grupo de umas cinco meninas veio pra cima de nós aos pulinhos, soltando berros estridentes, queriam fazer tudo ao mesmo tempo: dar a bunda, dançar, beber, fumar, cantar, pular e serem felizes. Dez homens se seguravam pelos ombros num trenzinho e pulavam lançando tronco pra frente e pra trás. Urravam e estufavam o peito, suspendiam os ombros. Olhavam pras meninas como se fossem espancá-las. E elas cantavam entre si e mostravam suas calcinhas. Um cara com a camisa amarrada na cintura já tinha engatado em Ana. Cecília jogava cerveja pro alto abraçada com as amigas. Entornei minha latinha e fui dar uma volta pela casa.

A casa tinha dentro e fora. Do lado de fora havia um jardim muito bem cuidado que tinha sido destruído por guimbas esmagadas e latas entornadas nos canteiros. Um sujeito bêbado beijava uma guria ao mesmo tempo em que mijava num vaso de cerâmica. O pé da guria já estava ensopado. Mas o beijo era bem mais. Passei por outro cara que estava sentado sozinho numa mureta, se balançando pra frente e pra trás, dizendo sem parar, no mesmo tom: linda, linda, linda, linda, linda... Bom, devia já ter se esbarrado com Cecília. Um dos meus. Me encostei na mureta que dava pra rua e fiquei olhando o céu, fingindo que estava meditando. Uma menina de óculos, cintura abaloada, cara de varíola, se aproximou. Senti ela respirando bem atrás de mim.

- Às vezes eu fico pensado... – ela disse.

- Você tá falando comigo? – me virei perguntando.

- Não – ela sorriu. – Estou falando com o céu.

- Ah, sim... Deu sorte. Ele tá de bom humor hoje.

- Queria que ele me dissesse quando começou o tempo.

- Como assim?

- Quando começou! – ela disse mais alto, não tinha olhado pra mim ainda. Estendeu os braços pra cima – Quando se deu o primeiro segundo.

- Depois do último centésimo, imagino.

- Não. Quero dizer: como pode ter havido um primeiro segundo, se antes do primeiro sempre teve um último?

- Você chegou há muito tempo aqui? Quer uma cerveja?

- Sabia que o tempo é a eternidade em movimento?

- Olha, eu vou pegar uma cerveja...

- Eu vou com você – ela disse me apertando o braço. Dava pra ver que tinha chorado.

- Calma. O que houve? – perguntei.

- Nada! – ela gritou. – Não me pergunte. Eu não te conheço!

- Ainda bem que não. Você tá com alguém aí?

- Não tenho ninguém... NÃO TENHO NINGUÉM, ENTENDEU?!

Não havia o que fazer. Me virei e fui pegar minha cerveja. Ela veio correndo e se enfiou na minha frente. Cravou suas unhas novamente nos meus braços. Como eu podia acreditar em deus se era sempre o diabo que me aparecia nas formas mais variadas?

- Espere! – gritou. – Me deixa ir contigo...

- Tudo bem. Mas sem gritar.

Ela passou seu braço por dentro do meu e encostou seu rosto junto ao meu ombro. Antes mesmo de entrarmos de volta pra sala já estava soluçando. Tive que parar. Afastei seus cabelos da frente do seu rosto. Tinha um rosto horrível, bastante maltratado. Mas tinha alguma coisa de doce nele. Tinha a doçura de um maníaco depois de um tratamento de choque. Mas eu estava sensível. Era isso. Passei seus cabelos por detrás das suas orelhas. Enxuguei suas lágrimas.

- Você quer conversar? – perguntei inclinando minha cabeça pra baixo a procura dos seus olhos. Era duas bolotinhas opacas.

Ela não falou nada. Por isso me aproximei mais um pouco do seu rosto, que já escorria catarro pelo queixo. Com uma das mãos trouxe minha camisa até seu nariz para limpá-lo. Queria que se sentisse bem. Queria pra mim a exclusividade da tristeza. Percebi que algumas pessoas me encaravam pelos cantos do quintal. Me senti envergonhado. De fato, a vergonha está onde a tristeza não consegue se esconder. De qualquer modo assoei seu nariz e limpei a gosma nos cantos da sua boca. Talvez tenha sido minha atenção desmedida. Ela começou a chorar e a se debater. Ao mesmo tempo avançou no meu rosto e me beijou, toda trêmula, pálida. Seus lábios gelados, mortos de amor ou pelo amor, me encharcaram a boca. O gosto do seu catarro dava à cena um teor escatológico. Era um gosto de fronha suja de travesseiro. Mesmo assim, eu não poderia tirar a boca. Ali estava uma mulher arrasada. Tentei acalmá-la segurando sua cabeça com força junto ao meu peito e passando a mão por seus cabelos. Quando já estava novamente soluçando, pedi que ela ficasse sentada ali enquanto eu ia buscar mais cerveja. Não só ela não disse nada, como me obedeceu, sentando num banco ao lado como um poodle de circo, mas de um circo sem lonas. Já não me olhava mais.

Quando voltei com as cervejas dei de cara com um marmanjo que estava ao lado da guria. Era um dos caras sem camisa que andava engatado em outro cara sem camisa na pista de dança e estufava o peito e esticava os ombros, fazendo cara de mau. Assim que cheguei percebi que um grupo se juntou ao meu redor, como hienas, na surdina. Passei direto pelo sujeito, que tentava me botar medo levantando as sobrancelhas, e entreguei uma latinha à guria. Foi a primeira vez que pude ver seus olhos olhando pros meus diretamente. Ela segurou a latinha com as duas mãos e articulou: “me desculpa”, mas nenhum ar saiu da sua boca, de modo que só pude ler seus lábios. Foi quando senti uma forte pancada no pé da orelha, uma pancada que não tinha bem sido dada com a mão, mas com o antebraço. Na hora me virei, tonto, e tive que me apoiar no chão com uma das mãos. Eu não sabia brigar. Mas sabia apanhar. A vida tinha me ensinado em pouco tempo. E foi o que aconteceu. Mas antes pude ouvir o sujeito me dizer:

- Isso é pra tu aprender a não mexer com a mulé dos outro, rapá!

E foi isso aí. Linda, linda, lembrei do rapaz zumbinóide de pernas cruzadas sobre a mureta. Pessoas ocas me olhavam baixo, me cuspiam, enxotavam, “o que eu quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é...”, e sacapum! Bicos de sapato, olhos frouxos, bocas mortas, línguas exatas no que sacia o erro fácil. As substâncias... Estão acabando as substâncias! Uma violenta patada no flanco direito. Olhei um dente amarelado sobre a grama verde. A grama estranhamente mais verde do que o comum. Cores! Eu podia ver as cores! Todas elas! Sabia que tinha um dos olhos amassado porque um olho meu via a mim mesmo estirado do outro lado do gramado. O mundo é dos fortes, ele sempre foi. Os fortes matam os fracos e depois matam os fortes menos fortes e então não há mais força, é o fim da comparação. Eu nunca fui nem mundo nem forte. A cada tropeço uma mão que te segura e depois te larga. E depois te empurra. E só então te ama. Cansaço. Sinto alguém enfiando galhos no meu cu. Sinto bocas abertas na minha direção. Vejo línguas mordidas me apontando. Olhos fechados para mim. E as bocas riam. E eu ria porque já não tinha mais direito de chorar. A solidão tinha me levado tudo. Senti o sangue abrindo minha cabeça ao meio. Me dobrei no chão mas rapidamente me esticaram novamente para bater mais. “Bate mais ali na barriga! Mata o cara logo!”. E não deu tempo pra sentir mais nada. Não havia mais tempo pra sentir. E isso não era um privilégio só meu. Tínhamos inventado o tempo para achar alguma coisa a que se render. Era só isso o tempo todo. A cada encontro um resumo entre aquilo que não é e aquilo que jamais deveria ter sido. A cada falta de amor um teto a dois. A cada teto uma nova chance pra mentira e pro amor que dizem os livros. A cada beijo um eco no ouvido. É tudo mentira... É tudo mentira... Não se preocupe, já passa... A vida é linda, linda, linda... E foi quando eu me tornei feliz para sempre.


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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo...
Depois de algum tempo volto a comentar um texto seu. Ler, eu leio sempre!
A dinâmica da sua escrita é mesmo algo ímpar!
Perfeito!

Kris disse...

Viajo quando leio suas histórias loucas, apesar dos momentos em que elas se tornam dramáticas d+ e um pouco suburbanas, não consigo parar de ler. É porque tua escrita é adorável, principalmente quando desenvolves teu lado lúdico(que é o que eu sempre espero ler quando te procuro aqui).