quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MÁGICA NO ABSURDO >> Fernanda Pinho



A impressão que tenho é a de que os habitantes do planeta Terra estão num processo acelerado e irreversível de envelhecimento. Não falo do envelhecimento biológico, pois este estamos conseguindo driblar com maestria graças aos milagres operados pelos santos Ivos Pintanguis da vida. Falo do envelhecimento de espírito, que é muito mais grave já que não tem botox que dê jeito. Não sei o que deu em nós, mas estamos empenhados em deixar o mundo chato, sem graça, cinza, nublado. Reclamar virou um vício. Criticar virou sinônimo de inteligência. E, de repente, perdemos todo o encantamento pela vida.

Tenho pensado nisso desde o último fim de semana, quando estive com alguns amigos no Hopi Hari, no estado de São Paulo. Passamos o sábado no parque e, no fim do dia, quando nos reencontramos com nossos colegas de excursão, ouvimos um grupo reclamar com veemência dos maus tratos que havia recebido em um dos brinquedos. Diziam os reclamões que era um absurdo pagar caro, viajar 600 quilômetros e terem de aguentar pessoas gritando com eles, exigindo silêncio, fazendo ameaças, insinuando que os expulsariam do brinquedo. Enfim, reclamações que fariam sentido se brinquedo em questão não fosse uma tal catacumba de terror e os berros dos funcionários do parque não fizessem parte de uma encenação teatral. Meus amigos e eu – felizmente ainda providos de algum encantamento – ficamos chocados com os comentários e morrendo de pena daquela gente ignorante e sem graça. Eles não entenderam o espírito da coisa e essa falta de boa vontade para entender o espírito da coisa parece generalizada. As pessoas não conseguem mais aproveitar os momentos diferentes que a vida proporciona simplesmente porque estão obcecadas em achar defeito em tudo.

Quer um outro exemplo? Outro dia li uma crítica sobre a saga Crepúsculo, na qual o autor se dizia indignado com os exageros criados pela escritora Stephenie Meyer. Segundo ele, era um absurdo a autora insinuar ser possível relações sexuais entre humanos e vampiros, porque todos os fluídos do corpo de um vampiro são venenosos, o que torna o sexo improvável. Absurdo é um comentário desses. Critique a falta de experiência da escritora, as adaptações dos livros pro cinema, a falta de consistência do enredo, o fato do Jacob Black só ficar sem camisa, sei lá, qualquer coisa, mas não o que é certo ou errado no mundo dos vampiros. Isso não faz sentido por um motivo muito simples: vampiros não existem! Então se eu quiser inventar um vampiro que curte muito mais caipirinha do que sangue e que, em vez de sugar pescoço, gosta mesmo é morder limão e cana de açúcar eu posso! Porque é fantasia, é ficção, é magia e a vida anda muito carente dessas coisas.

Lá nos anos 80, Lobão cantava em seu famigerado hit que “nem sempre se vê mágica no absurdo”. Eu diria que, hoje, quase 30 anos depois, quase nunca se vê mágica no absurdo. O mundo está ranzinza. E eu vou cuidar de me policiar para não entrar nessa também. Morro de medo de virar uma chata que não sabe brincar. Minha vida é uma aquarela e eu não estou nem um pouco interessada em transformá-la numa planilha de Excel. Vivo muito bem sendo uma pessoa que morreu de medo na catacumba do terror e que suspira quando vê o Jacob Black sem camisa.

Foto: www.sxc.hu
www.blogdaferdi.blogspot.com


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9 comentários:

Carla Dias disse...

Ai, Fernanda... Concordo com você que as pessoas andam preguiçosas quando se trata do outro, das outras coisas que acontecem fora do universo que criam para si mesmas. Estamos na era em que todos podem comentar o que o outro faz, mas a maioria não percebeu que, se comentar é possível, imprimir no outro uma versão de si mesmo é ser limitado.
Vou ficar por aqui, também, pulando amarelinha na vida-aquarela e dando língua para a planilha de Excel. Bjs!

Loreyne disse...

rsrs Nossa, como vc diz tudo em poucas palavras, e nós bem sabemos como eh chato gente reclamando, concordo com tudo! Amei mais uma vez! rsrs
Bjuusss

Anônimo disse...

Mas vcs estavam num parque de diversões? Bem, é natural q muita gente brigasse pelos "brinquedos".

rsrsrs....

Cláudio Vilaça.
BELO HORIZONTE
vilaca228@hotmail.com

Marisa Nascimento disse...

É a primeira vez que comento um texto seu, acho...
Mas alguém assim, que consegue juntar palavras de uma forma significativa, agradável e cheia de percepção, nunca vai se tornar ranzinza, tenho certeza! :)

Jujú disse...

Ai amiga, estou rindo aqui!

Porque é tão verdadeiro o que vc diz...eu passo por isso aqui todos os dias. Tem gente que tem prazer em reclamar, eu tenho alguns clientes aqui, que muitas vezes me irritam, claro, mas às vezes eu caio na risada, de tão absurdo que é! Juro!

Virou mania reclamar por reclamar, e ninguém mais cede ao lúdico, à diversão! Eu tb me recuso ficar rclamando de fila no meio de um parque! Como vc eu me divirto até em fila!

(ok, nos dias de TPM tudo me irrita, até um dia lindo como hoje, mas isso são outros quinhentos!rs)

Beijos, amiga!

Laís Bastos da Silva disse...

Terminei de ler e disse: minha amiga é ótima !
Você é ótima, repito.
Esse texto foi um tiro no pé da Laís, que anda bem idosa e chata...rs

Te amo gata

albir disse...

Pois é, Fernanda, as pessoas chegam a ver absurdo na mágica.

fernanda disse...

Muito obrigada pelos comentários, gente. Quanta gente com olhos encantados!!! O mundo ainda tem jeito. Beijos!

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Minha mágica amiga, você nuuuuunca será ranzinza, pois sabe tirar uma girafa da cartola.