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GIRAFICES >> Fernanda Pinho



Ela saiu do Quênia e veio parar aqui em casa, em Belo Horizonte, na manhã de ontem, quando um funcionário dos Correios tocou o interfone e anunciou ter uma encomenda para mim. Rasguei a caixa naquele desespero que me é característico, mesmo já pressentindo o que havia ali dentro. A verdade é que toda vez que abro um embrulho eu suponho – ou desejo, talvez – que de lá de dentro saia uma girafa. Dessa vez, deu certo. Lá estava uma linda girafinha que, em sua conexão Quênia-BH, fez uma escala em Sorocaba, onde foi adquirida pela minha amiga Fabiana Yoko. Fabi fez a gentileza de me enviá-la de presente e mandar junto uma fofíssima carta onde escreveu uma frase que tenho ouvido com certa frequência quando sou presenteada com girafa: vi e me lembrei de você. A mesma carta trazia também uma novidade: a girafa, no Quênia, simboliza a felicidade.

Seria um bom argumento para justificar minha girafilia e, pensando bem, talvez eu o adote daqui pra frente, posto que, não raramente, sou questionada sobre por que girafa. E, devo dizer, às vezes sou questionada até com uma certa indignação. Cachorros são tão amigos, gatos são tão lindos, porcos são tão fofos, vacas são tão divertidas. Que fissura é essa por esse bicho que você nunca vai poder ter em casa? Uai. Também nunca poderei ter o Johnny Depp em casa, no entanto... Vamos nos ater à questão girafesca, que é um pouco longa – o que acho bastante apropriado se o assunto é girafa.

Começou na infância quando o Jardim onde eu estudava realizou uma excursão ao zoológico. Foi a primeira vez que eu fui ao zoológico e teria sido maravilhoso se meus colegas – crianças e sua sinceridade cruel – não tivessem estragado meu dia, justo quando passamos na frente da jaula das girafas. Acontece que um engraçadinho – um engraçadinho perspicaz, hoje reconheço – soltou que a girafa era igualzinha minha mãe. O comentário lastrou e, de repente, estavam todos a gargalhar, chamando nossa querida ruminante africana de “a mãe da Fernanda”. E que criança vai achar bonito ver sua mãe sendo comparada com um bicho? Cheguei em casa aos prantos e coube à própria, do alto de seu quase 1.80m e de sua sabedoria materna, me fazer entender que aquilo era um elogio. Ok. Sei que não era bem essa a intenção dos colegas mas, na ocasião, minha mãe me convenceu argumentando comigo sobre como a girafa era linda, alta, elegante, cheia de movimentos leves e sutis, bem diferente da maioria de seus companheiros de zoológico.

Poderia ter sido só mais uma conversa entre mãe e filha, mas acontece que desde aquele dia – ocorrido há mais de vinte anos – nunca mais consegui me desapegar das girafas. A coleção iniciou com os amigos que, diante da minha comoção cada vez que via uma foto de girafa que fosse, começaram a tentar suprir meu sonho impossível de ter uma verdadeira em casa, me presenteando com objetos girafísticos. Hoje tenho no meu quarto uma pequena sucursal da Savana Africana, com girafinhas e coisas de girafinhas ganhadas, compradas e, todas, devidamente batizadas. A queniana recebeu o nome de Kênia Yoko, em homenagem ao seu país de origem e à amiga que me deu. Kênia Yoko se juntou a Kirin, Florbela, Clarice, Cecília, Fofy, Fyfo, Valesca, Ginga e a todos as minhas outras princesas pescoçudas.

Elas me inspiram, sempre me inspiraram e só há pouco tempo entendi o porquê. Estava catando fotos de girafas na Internet – sim, também tenho uma savaninha virtual – quando, analisando meticulosamente cada detalhe de uma dessas fotografias, tive um estalo e, enfim, entendi de onde vem essa minha identificação. Como fui lenta, como demorei a compreender o que estava óbvio o tempo todo. Girafas são como eu: pés no chão e cabeça nas nuvens.

Comentários

Fabiana Yoko disse…
Já disse zilhões de vezes que seus textos são lindos. Já disse também que você é uma das minhas jornalistas prediletas. E por várias vezes, de quinta-feira, passo aqui para ler seus textos pra lá de inspiradores...

Mas ao ler um texto "girafesco" sabendo que a inspiração foi a Kênia Yoko, você tirou lágrima dos meus olhos.

Agradeço aos velhotes por ter colocado, em minha vida, alguém tão especial como você!

Adoro-te!
Beijos!

Fabi.
Carla Dias disse…
Ah, Fernanda... Que bela crônica.
Sabe que, começando a ler o texto, pensei de cara "uai, girafa está mais perto do céu, vai saber se não consegue tocar estrelas com o nariz". E a sua razão para a tal 'girafilia' é das que fazem textos bacanas feito este chegarem a pessoas como eu: partidária de quem tem os pés no chão e a cabeça nas nuvens.
Jaque disse…
Adorei as girafices...fez-me lembrar da quarta série, quando o meu apelido era "girafa", na época tbm não gostei mto do apelido, mas hj com seuas divertidas palavras descobri em mim uma nova característica...pés no chão e cabeça na nuvens.
Muito bom mesmo!
Lindeza de crônica, Girafinha (afinal, filha de Girafa, ...)!
Marilza disse…
Ai, que bonitinha...amei, como sempre, sua crônica.
Eu acho a girafa tão fofa, com um olharzinho tão meigo e doce.
Bjs
fernanda disse…
Queridos, agradeço pelos comentários e as girafas agradecem pelo carinho.

Já li em algum lugar que tem uma lenda que diz que a girafa era um cavalo que se apaixonou pela lua e de tanto olhar pra ela ficou com aquele pescoção. Gosto dessa história também :)
Jujú disse…
"Girafas são como eu: pés no chão e cabeça nas nuvens."

Lindo, lindo...

Eu tb nunca tinha pensando nisso, mas adorei! E assim te amamos!!!

Beijocas
Claudio disse…
Engraçado como ás vezes nos identificamos com certo animal.. eu sei bem como é, tenho minhas "Ursices" de vez em quando.. rsrsr.

Abraço Madrinha!
fernanda disse…
Afilhadinhos apareceram juntos. Que romântico. Amo vcs, ursinhos carinhosos :)
Entendo, sou assim com sapos. No meu caso, dizem que é pelo tamanho dos olhos, me identifico...rs Talvez, a gente sempre acaba gostando de algo que, de alguma forma, nos revela...
Beijinho
Pés no chão, cabeça nas nuvens... também sou assim mas meu xodó é hipopótamo desde criança. Queria ter um tanque gigantesco com uma família de hipopótamos. Eu tava aqui pensando: se a girafa é o cavalo que esticou o pescoço e o hipopótamo é o cavalo d'água, podemos dizer que somos primas :) kkkkkk... Beijos amorécula!

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