domingo, 7 de novembro de 2010

CRÔNICA DO AVIÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

Hoje foi ontem. Agora será amanhã.

Este domingo, no horário em que estaria escrevendo minha crônica, desembarcarei no Rio de Janeiro, a única cidade do mundo em que a aterrissagem tem fundo musical: "Minha alma canta sobre o Rio de Janeiro. [...] Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão. [...] Aperte o cinto, vamos chegar. Água brilhando, olha a pista chegando. E vamos nós... aterrar."

Na véspera de partir, não hei que arrumar malas — gosto de viajar leve —, mas tenho que aprontar a crônica. Escrever de véspera é morte certa — estão aí para não me deixar mentir os perus e os profetas. Se a escrita é sobre o Rio, a morte pode ser por palavra perdida.

Tem gente que não acredita que existam outros mundos, em outras dimensões, talvez até mesmo dividindo o espaço com esse nosso mundo. Mas o que é o Rio senão um mundo em outra dimensão?

Começando pelo nome que, devido ao costume, tomamos como comum: Rio de Janeiro. Mas que pensaríamos de uma cidade que se chamasse "Lago de Outubro", "Córrego de Agosto", "Regato de Abril"? Muita estranha essa história de combinar águas e meses.

No Rio, paguei meu maior mico: de joelhos no calçadão de Copacabana, com uma rosa numa mão e um anel em formato de infinito na outra, pedi minha mulher em casamento... e ela recusou.

Também no Rio, vivi uma cena digna de Woody Allen com uma namorada — a única fumante com quem me relacionei até hoje. Estávamos conversando, tentando quebrar o gelo após uma discussão típica de início de namoro. Ela me massageava o rosto e dizia "relaxe, relaxe..." Quanto mais ela repetia aquilo, o rosto quase colado no meu, mais eu me contraía. Quanto mais eu me contraía, mais ela dizia "relaxe, relaxe..." Até que explodi numa risada.

— Que foi? — ela perguntou, animada, achando que estava conseguindo alguma coisa.

— Estou sufocando. Sou alérgico a cigarro.

Para vocês verem que nem tudo é romantismo no Rio.

Já que falei em cinema, uma coisa estranha no Rio de Janeiro é dar de cara, num shopping, no meio da rua, com alguém que você só vê na televisão. Estou lá com minha irmã, cunhado e sobrinho e, de repente, vem o Edwin Luisi fazer gracinha com o Luís, que ainda nem tem idade pra ver novela. Me senti um figurante de A Escrava Isaura.

Outra coisa que não dá para entender no Rio é aquele monte de gente na rua, mesmo nos bairros residenciais. Em Fortaleza, por conta da insegurança, em Teresina, por conta do calor, e em Brasília, por conta da arquitetura, é difícil ver muita gente andando na rua. O Rio é uma cidade que não parece feita de concreto, mas de gente. Coisa muito estranha!

Até as mulheres do Rio surpreendem. São lindas, por certo. Mas inatingíveis ao mesmo tempo. Uma espécie de museu de ficção científica em que as esculturas falam e andam, mas não devem ser tocadas porque podem se ofender e agredir o visitante. Garota de Ipanema é um eufemismo. Deveria ser Garota do Rio, porque em todo bairro lá está ela, linda, cheia de graça, but each day when she walks to the sea, she looks straight ahead, not at me.

Não pensem que, por tudo isso, eu não goste do Rio. Eu adoro ficção científica, e bizarrices de um modo geral. Gosto de café, pizza e beijos frios. Leio jornais de trás para diante. Curto as coisas mais doidas do Arnaldo (o Antunes), as breguices do Amado (o Batista) e as presepadas do Tom Zé. Torço pelo time adversário, desde que ele esteja jogando melhor. Prefiro os dias úteis aos finais de semana e feriados. O Rio não foi feito só para o Tom Jobim, foi feito para mim também.

No Rio, sou tratado como rei. Tenho regalias. Nunca fui assaltado, não presenciei sequer um furto. Consigo assento em todos os trajetos de metrô. Encontro nas livrarias os livros que minha alma está procurando. O Cristo me aparece com frequência, entre as brechas dos edifícios. Minha irmã e família me recebem com conforto. E a Claudia Letti me prepara um de seus maravilhosos pratos.

No Rio, não tem jeito, eu rio. Nem que seja de mim mesmo. Porque o mundo que vai reduzir a pó as ilusões da filha de Cartola — e também as minhas ilusões — não é outro que não o Rio de Janeiro, esse mundo à parte, essa quarta, quinta, sexta, sétima dimensão.

Então é isso. Quando você estiver lendo esta crônica, eu estarei no Rio. Ou seja, eu não terei a mínima ideia do que estará acontecendo comigo nessa cidade maravilhosa, estranha e imprevisível. Mas de uma coisa você pode ter certeza: mesmo que ainda seja novembro, eu rio de janeiro, do réveillon, dos fogos de artifício e de todas as nossas resoluções de futuro.

Esta crônica é só porque, Rio, eu gosto de você.

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9 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, que a passagem pelo Rio faça seu coração sorrir muito!
Nunca acreditei naquela tal inveja boa que falam, mas essa sua inspiração quase me faz acreditar...rs
Estou aqui procurando a primeira palavra para começar um texto chato, daqueles bem técnicos. Vou sair por Curitiba tentando enxergar tudo com seus olhos poéticos e, quem sabe, a poesia me traga um pouco de inspiração para a tecnicidade.

Beijos.

KRis disse...

Lindo!Amei!"clap clap clap"
Tenho tantas palavras sobre o Rio!Só que tenho que tomar cuidado com essas palavras pois posso jogar fora tudo que sinto sem conseguir organizá-las(pq não sei "escrever". Mas Marisa resumiu tudo em uma única frase:"enxergar com seus olhos poéticos". Eu sei, enxergar com olhos poéticos esse mundo à parte, mas estaria em outra dimensão se soubesse expor como tu sabes. Parabéns, meu querido!

fernanda disse...

Amo o Rio e todas as suas idiossincrasias. Tenho mil e uma histórias com essa cidade. Há milênios atrás fui fugida pra lá, passar o dia dos namorados com um cidadão que morava lá. Falei pra minha mãe que estava na casa de uma amiga, aqui em BH. Mas não aguentei, liguei aqui pra casa e contei: "Mãe, adivinha onde eu tô? Na praça da Apoteose". Quase mato a mãe qdo expliquei de qual Praça da Apoteose eu estava falando...rs. Eu era jovem....rs

p.s: quero uma cidade chamada Mar de Setembro :)

albir disse...

Edu

Confirma-se uma qualidade do Rio: hospitalidade. Tivemos um sábado com chuva e chuva. Bastou você anunciar na crônica escrita antecipadamente que estaria aqui hoje... e olha o céu que o Rio preparou para recebê-lo. Além da comida da Claudia Letti, claro. A propósito, beijo nela.

Bem-vindo, Eduardo Loureiro Jr.

Marilza disse...

Eduardo, realmente o Rio é uma cidade ímpar. Agora, vc dizer que o Rio "é aquele monte de gente na rua", vem pra SP, na R 25 de Março - em especial- ai sim vc saberá o que é uma multidão..rsrsrs

Como sempre adorei....

Kika disse...

eu, que nao tenho lá as melhores recordações do Rio, até me senti afeiçoada a cidade, de tão bem escrita e sensível que está a crônica. Quase pude ouvir uma bossa nova no fundo...Parabéns pelo texto!

vanessa cony disse...

Caro Eduardo!!!Que bom que está por aqui.Engraçado nós cariocas nem sempre nos damos conta dessa graça que o Rio tem.Talvez seja o costume,talvez...
De qualquer forma concordo contigo.O Rio é lindo!
Beijo e seja bem vindo.

Claudia Letti disse...

Ah, e seu tivesse lido antes, teria preparado "o" prato (Albir será convocado na próxima. É importante que se diga que se o Rio merece essa sua poesia em prosa, também merece(mos) receber a sua pessoa sempre carregada de amizade da boa. E de que valeria essa beleza carioca se não fosse ela catalizadora de abraços amigos? Só porque gostamos de você, ora. Nós e o Rio. :)
Beijo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gente querida, vontade de responder um por um, mas há alguns dias, entre Rio e retorno, que as horas parecem estar evaporando. Tenho tempo suficiente para dizer que o Rio continua lindo... e vocês, também. :)