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Mostrando postagens de Abril, 2016

ENTRE PALAVRAS E CAFÉS — para Márcio Arthoni
>> Cristiana Moura

Ele não dispensa um café. Essa pausa em meio à tarde e aos afazeres. Para os dias de mente inquieta tecida de perguntas aguardamos as respostas do café. Um gole, uma respiração, um pensamento vão ou não. Vez por outra me pego num sorriso que nem sei do quê. Nasce no segundo seguinte ao café escorregar entre a saliva e o céu da boca aquecendo o corpo no dia que já é quente.

Um expresso simples, um café com tapioca, um livro. Esse é lugar onde pensamento e sentimento são um só. Que assim seja. Mas há noites em que seu café dá lugar a um vinho com poesia. O aroma e as notas das uvas fermentadas parecem lhe acordar as palavras das sensações. Para mim, vinho e noite por vezes têm gosto de solidão. Para ele não. Se for solidão é logo acompanhada do tal vinho, de queijos, e do poema nascido ali, fruto da orgia dos sabores e das mãos que escrevem: "Metade sozinha é sempre metade. Faz lembrar de um todo, Faz pensar em algo que a metade não é. Então, existiria a metade?"

Eu, de fato,…

LAVANDO AS LETRAS >> Paulo Meireles Barguil

Na crônica passada, discorri sobre a relação entre a felicidade masculina e o ato de lavar louças.
As manifestações advindas da leitura da mesma foram surpreendentes, seja pela quantidade, seja pela patia.
No que se refere ao primeiro aspecto, recebemos, eu e o Editor Chefe, dezenas de e-mails, com conteúdos bastante antagônicos.
Em relação ao segundo aspecto, elas se dividiram entre os indivíduos contrários e as pessoas favoráveis ao seu conteúdo.
Aqueles, além questionarem as pesquisas citadas — quantidade de sujeitos e de louças lavadas, período de observação, quantidade de sujeira das louças, temperatura da cozinha, cheiro do sabão, uso ou não de luvas... — sugeriram que eu voltasse à pia e me afastasse do teclado.
Aquelas, por sua vez, foram unânimes em elogiar a minha coragem de abordar uma temática tão sensível ao cotidiano familiar e pediram para que eu também escrevesse sobre a lavagem de roupas, bem como sobre a limpeza e a organização da casa.
Para aqueles, declaro, surpre…

INSPIRAÇÃO REAL >> Mariana Scherma

No meu caminho de toda manhã — manhã bem cedo vale ressaltar — passo pela casa de um casal que acorda mais cedo que eu. Ele vai trabalhar e ela fica no abre e fecha de portão, mas o tchau não vem antes de um beijo apaixonado, desses bem dados, logo cedinho. Confesso que quando passo por eles ainda estou em semi-sonolência, mas acordo com essa cena. Eles não me conhecem, não sabem meu nome, nem eu o deles, mas ela já me cumprimenta com o maior sorrisão. Acho que o amor é combustível necessário para o bom humor.

Quando comecei a reparar no casal, estava calor e, vamos combinar, não é nenhuma grande dificuldade abrir o portão e tomar um ventinho fresco da manhã, certo? Mas ontem estava chovendo e ela estava lá de guarda-chuva. Mesmo sorriso. Mesmo beijo bem dado no marido. Mesmo cumprimento simpático pra mim. Mas hoje foi a prova de amor cabal: estava frio. Aquele frio que faz a gente querer mais cinco ou dez minutos de edredom e aconchego. Aquele frio que gera desculpas do trânsito ao d…

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE >> Carla Dias >>

Mundo é vastidão além da sua compreensão. Por que pediram que falasse sobre sua visão do mundo, quando ele vive há trinta e sete anos na mesma cidade? Claro, conhece outros lugares, já saiu de férias algumas vezes.  Mas MUNDO? Como escrever eloquentemente sobre um lugar que não se conhece inteiro e que, por onde se esteve, foi de passagem?

Lembra-se de estar de passagem por muitos lugares. Mais do que por lugares, por pessoas. Esteve de passagem pela vida de muitas pessoas. Nenhuma o fez sentir vontade de ficar. Para muitas, ele até conseguiu fazer algo positivo, banalidades que ganham importância quando se visita lugares onde a violência é amplificada pela pobreza. Fez algo de bom às pessoas que esperavam nada dele. Algo de bom que ele nem sabia que era algo de bom. Banalidades, como o dia em que caminhava pela praia, lugar belíssimo que servia de cenário para suas férias, que pagou em dez parcelas de mais dinheiros do que deveria gastar com prazer. Encontrou lá um menino e sentado …

OS PINGOS E OS "IS" >> Clara Braga

Como de costume, ela acordou por volta das 6h com seu filho chamando.

Levantou, deu comida pro filho, deu banho, pegou os brinquedos dele e começaram a brincar.

Depois de um tempo foi olhar seu celular e conferir as redes sociais para ver o que estava rolando, e foi nesse momento que ela deu de cara com a notícia que deu o que falar: a bela recatada e do lar vice-primeira-dama. Ficou inconformada com a notícia, foi atrás daquelas fotos do último fim de semana, no qual ela saiu com as amigas para dançar usando aquele vestido justo e acima do joelho, depois procurou aquela outra na qual ela e outras duas amigas estão tomando cerveja em uma mesa de bar e usando um belo batom vermelho e postou com a legenda mais usada do dia: belas, recatadas e do lar.

Não tinha mais muito tempo para procurar outras fotos, tinha que terminar de arrumar a casa, passar roupa, fazer o almoço, dar almoço pro filho, vestir sua roupa até o joelho, deixar o filho com a avó e ir trabalhar.

Nesse momento, se senti…

HERÓIS E NABABOS >> André Ferrer

O esporte que faz a cabeça de crianças e jovens, o nosso esporte nacional, tem os dois pés na malandragem. Exemplos contraindicados à formação cidadã fatalmente constituem a alma brasileira. Muito da nossa concepção de mundo fica, portanto, reduzida em termos de símbolos botequinescos.

O futebol e a sua cultura da malemolência ilustram os mais variados discursos, da sala de estar aos palanques oficiais. Tanta informalidade, assim, torna quase impossível não considerar o futebol como algo à parte nos Jogos Olímpicos.

Aliás, o que de fato maravilha nas Olimpíadas é a característica de alto rendimento presente em quase todas as modalidades. No meio de tantos milésimos de segundo, concentração e disciplina, o futebol parece mais um objeto estranho. Não há termos plausíveis de comparação e, neste aspecto, os jogadores de futebol são verdadeiros nababos ao lado dos atletas.

O primeiro medalhista dourado da natação brasileira está fora das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Uma segunda medalha de…

ACHADO DE SI >> Eduardo Loureiro Jr.

Poema feito sobre crônica "Primas de Sapucaia!" de Machado de Assis. Para compor o poema foi usada a técnica de blackout, pintando um texto existente com um marcador preto e deixando visíveis algumas poucas palavras.



Você pode ler a crônica original de Machado de Assis neste fac-símile do jornal Gazeta de Notícias de 24 de outubro de 1883.

O SAXOFONISTA >> Sergio Geia

Era uma crônica sobre patos; na verdade, sobre um programa que assisti hoje na televisão: a senhora numa casa aprazível cuidando de patos. A reportagem mostrava patos selvagens; por lá apareceram e por lá ficaram. A proprietária tratou de aprender a cuidar, consultou veterinário e autoridades. Alimenta o amor até quando resolverem bater asas. Mas eis que no meio de uma introdução que estava a rascunhar, chega até mim a melodia arrastada de um saxofonista.

Tenho conhecimento de que ele se instala na praça todo sábado, com sua tralha e seu instrumento; fica lá o dia inteiro, lutando dignamente pelo seu ganha-pão. Ao que parece é um bom músico. Tem repertório, maneja bem o instrumento. Executa diversas notas com boa técnica. Ao seu redor as pessoas se achegam; timidamente, um ou outro deixa uma moeda.

A música chega suavemente aqui. No barulho da casa quase não a ouço. Quando tudo para, aí sim a percebo. Tenho certeza que muitos gostariam de usufruir desse privilégio: deitar-se, ter às …

A AVENTURA INFLÁVEL DO DR. MÁRCIO >> Zoraya Cesar

Chegara àquela idade em que, pensava ele, deveria aproveitar seus últimos anos de maneira aventureira e libidinosa. Chegara àquela idade em que muitos homens olham a própria mulher como um estorvo à sua liberdade, à última oportunidade de viver la vida loca, de despertar sua latente sexualidade hircina. Depois dos 65 anos, Dr. Márcio voltara a sentir frissons adolescentes.
Ele invejava o irmão de sua esposa. O cunhado solteirão, não mais um playboy, mas um 'playold' que vivia na praia e nos bares, cercado de mulheres mais jovens, frequentador de orgias regadas a scotch, aventureiro dos sete mares. Era também, o cunhado, um falastrão, adorava contar suas proezas com detalhes sórdidos. A irmã o achava adorável. Dr. Márcio o achava um estróina cínico, que vivia lhe pedindo dinheiro emprestado, bebia de seu uísque mais caro e troçava de seus hábitos conservadores. Dr. Márcio invejava e detestava o cunhado tão figadalmente quanto a ideia de se separar. Estava acostumado àquela vida …

PEREGRINAÇÃO>>Analu Faria

Já fui a muitas igrejas e seitas. Era só alguém me contar sobre o quão interessante era o culto/sessão/reunião do lugar, que meu coração pisciano se sentia atraído e levava meu corpo e mente para o templo/casa/salão etc. Piscianos adoram uma macumbinha, um tarô, um mapa astral. E eu obedecia ao meu signo e vivia procurando um meio de fazer de Deus meu “chegado”. Cada denominação religiosa, contudo, parecia ter um defeito que me incomodava tanto que parecia impossível permanecer naquela fé. Há pouco tempo, porém, decidi que talvez devesse voltar às origens e, como fui criada no catolicismo, voltar a frequentar as igrejas católicas. Era Páscoa e eu achava que fosse uma época boa para isso.

Encontrar uma espiritualidade acolhedora é das coisas mais bacanas que podem acontecer a uma adulta buscadora como eu. Experimento, muito no comecinho, essa sensação deliciosa de encontro. Mas o caminho para isso tem suas presepadas.

A primeira igreja a que fui não era grande nem imponente, mas ficava…

BOLETIM: AMO >> Carla Dias >>

Calou-se ao encará-la. Ela a quem ele corteja com o olhar. Pensou que daria o próximo passo, que diria a ela o verbo conjugado em declaração do que ele traz no engasgo: amo.

Pensou que renunciaria à condição de companheiro de trabalho, conquistando um espaço afetivo nessa jornada comercial que dividem com devoção.

Ausente da companhia dela, ele que é moço que não desvela emoções que nele latejam, permite-se ser tomado pela provocação desses sentimentos. Senta-se na confortável poltrona da varanda. Observa árvores e pássaros e ventos e silêncios. Encanta-se com a lua e imagina coisas.

Não gosta de pensar que imaginar coisas seja o mesmo que sonhar acordado. Sabe que imaginar coisas é o mesmo que sonhar acordado ao imaginar coisas sobre ela.

Imaginou uma viagem por todas as capitais do mundo. Ela sorrindo com os lábios e os olhos. Ele sentindo o corpo dela estremecer ao observar a paisagem cobiçada pelo antigo desejo de conhecê-la. Refestelando-se um na carne do outro. Comprazendo-se u…

PELA ATENÇÃO, OBRIGADA >> Clara Braga

Antes de começar essa crônica, eu queria agradecer as minhas professoras da alfabetização, sem elas eu não seria capaz de escrever essas crônicas. Quero agradecer em especial a Tia Luiza, que foi quem descobriu que eu era dislexa e me encaminhou para a fonoaudióloga, facilitando meu aprendizado.

E claro que não posso deixar as fonoaudiólogas de fora, por vezes me ajudavam até a fazer dever de casa. Foi uma fase complicada, mas fui bem assistida e por isso agradeço a essas pessoas.

Porém, se tive fonoaudiólogas e Tias Luizas foi porque meus pais sempre acompanharam meu desenvolvimento de perto. Sempre fizeram de tudo para que eu tivesse as melhores oportunidades e tiveram a maior paciência com as minhas dificuldades que me deixavam um tanto irritada.

Aliás, não posso deixar meu irmão de fora disso tudo, afinal, além dos meus pais era ele quem me aguentava perturbando a vida dele diariamente. E era ele que aguentava meus choros durante a noite também. Mas essa do choro eu nem me sinto t…

HISTÓRIA OU PIADA, SR. DEPUTADO?
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tem aquela história do médico que dizia para os pais gestantes que o bebê seria menino, mas anotava em sua agenda a previsão de que seria menina. Se, após o parto, os pais reclamassem que não foi menino, ele abriria a agenda e provaria que tinha dito que seria menina.

Tem aquela história de Deus criar o Brasil sem desastres naturais e, diante da reclamação de injustiça de um anjo, responder: "Espere até ver que tipo de pessoa eu vou colocar lá."

Tem aquela história da estrangeira que, após alguns dias no Brasil, comentou o que tinha achado mais interessante: "Aqui o sinal verde quer dizer siga. O vermelho, olhe para os lados e siga. E o amarelo quer dizer acelere."

Aquelas histórias se juntam na história de hoje: a da votação da admissibilidade de impeachment da presidente Dilma pelos deputados da Câmara...

Minha previsão é de que pessoas "daquele tipo" vão "acelerar". Mas registro aqui, em minha crônica agenda, a esperança de que a história de …

SOBRE A MORTE DE UM HERÓI >> Cristiana Moura

Era outubro de dois mil e quatro. Eu estava sentada à mesa da cozinha em casa de minha mãe. Foi quando soube da notícia pelo telejornal: ele havia morrido. Sempre senti-me estranha diante do falecimento de ídolos ou pessoas públicas. Não me era conferida nenhuma especial emoção pela partida de um desconhecido. Mas naquele dia foi diferente. Uma lágrima escapou-me escorregando pela face como em que câmera lenta. Suspirei. Abandonei o lanche que perdia o sentido naquele momento. Só queria nutrir-me das suas palavras. Fernando Sabino havia morrido.

Foi tamanho o susto. Talvez eu pensasse que ele fosse eterno. Sofri. Era tamanha a revolução que ele havia feito em minha vida, a forma com a qual me tocou com suas palavras, que sofri por não ter-lhe dito, porque eu sabia dele o que ele não sabia de mim. Ele me disse:

"Para testar, coloco a mão direita espalmada sobre o espelho. Como era de esperar, ele ao mesmo tempo vem com a sua mão esquerda, encostando-a na minha. Sorrio para ele e e…

LAVAR LOUÇAS: O SEGREDO DA FELICIDADE MASCULINA >> Paulo Meireles Barguil

E o caos aconteceu: a diarista não veio.  O pior: o xexo foi premeditado!  Ela tinha decidido há vários dias que não iria mais trabalhar naquele local, mas resolveu destilar gotas de maldade na sua ação e não avisou ao ex-patrão, que só soube do veredito no final da manhã, quando ligou para saber o que tinha acontecido com ela.  — Vida que segue — bradou, sem muita convicção, o rapaz, enquanto olhava para as pilhas de louças que, agora, o aguardavam.  Ele acolheu aquela nova situação, tal como lhe ensinara o seu guru, embora em nível abaixo do indicado.

Aos poucos, ele foi aceitando sem resistência e ressentimento o ocorrido e, durante dias, semanas, meses e anos, foi lavando as louças que sujava.

Uma amiga sua, vendo-o, cada dia mais alegre, perguntou:

— O que está acontecendo para você estar tão feliz?

— Estou lavando louças!

— Deixa de me enrolar e diz logo quem é ela!

— Estou sem faxineira há anos.

— Eu sei disso. Eu quero saber o nome da sua namorada!

— Você guarda segredo?

— Cl…

SER OU ESTAR FELIZ, EIS A QUESTÃO!
>> Mariana Scherma

A gente vive nessa de somos ou não somos felizes. Hoje somos. Amanhã tem trânsito e tchau, felicidade. A gente é feliz quando troca o celular, daqui a pouco ele fica lento e somos tudo, menos felizes. Saímos saltitante de alegria para as férias, voltamos todos irritadinhos. Esse sentimento é bem difícil de trancafiar numa gaiola, não? Pode ser um sentimento difícil de ser alcançado quando você transforma a vida numa equação ou numa busca tipo caçada do Indiana Jones. Não acredito na felicidade como um todo. Ela vive nos pequenos momentos. Você pode ser feliz várias vezes ao dia, mas tem gente que quer a felicidade num troféu. Aí fica complicado e você não percebe a alegria das pequenas coisas...

O café da manhã pós-academia. Você malhou e ganhou aquela sensação de dever cumprido logo no começo do manhã. Tem um dia inteiro de deveres, óbvio. Mas aqueles minutinhos com café, banana com iogurte, canela e mel e um pedaço gordo de queijo branco... Senhor! Isso é capaz de me manter feliz po…

IMAGINATIVAMENTE ROUBADO >> Carla Dias >>

Quando no corpo tudo acontece à mercê das surpresas.

Mãos tremem. Coração dispara feito cavalo em dia de corrida. Hoje parece um ontem debruçado em devaneios, feito quarta que se mistura aos compromissos de sexta, e que tropeça na melancolia de quinta, reverberando na maresia do domingo. Quando calendário se torna temporariamente obsoleto, porque o tempo se curva, feito esse corpo onde tudo acontece à mercê do desalinho.

Desassossega-se o corpo por tantos pensamentos que uivam simultaneamente. Desentende-se o corpo com o sentimento, que a mornidão da lógica e o usufruto dos hábitos foram nocauteados pela imensidão das emoções que chegaram sem prelúdio. Nem orientação. Tampouco pistas.

Pernas bambeiam como se dançassem uma coreografia primeira, criada nesse momento, apenas para provocar movimento. Mãos se agarram a qualquer móvel, para evitar queda. Coração ainda toca sua música psicodélica, tendo a taquicardia como louvável maestrina.

Vertigens convencem ao corpo a deitar-se no chão …

NA HORA >> Clara Braga

Esses dias estava lembrando do período que passei na Austrália. Foi uma época tão boa, mas tão rápida, que às vezes parece que nem aconteceu de verdade.

Lá eu conheci gente de tudo quanto é lugar do mundo, e se teve uma pergunta que eu sempre tinha que responder mas nunca conseguia: Por que os brasileiros estão sempre 15 minutos atrasados? Não adianta marcar uma hora, vocês nunca chegam! Ou então ouvia o seguinte comentário: vocês não deveriam se surpreender com ônibus que chega na hora, esse é o correto, vocês estão errados em atrasar.

Justiça seja feita, eles têm razão. Errados estamos nós, que estamos sempre atrasados. Outro dia fui a uma sessão de cinema que atrasou, isso nunca tinha me acontecido. A ginecologista que eu ia já troquei. Ela é ótima, mas no dia em que cheguei para a consulta das 15h e fui atendida às 18h, eu precisei cortar relações. Não se pode trabalhar no dia da consulta, você tem que parar a vida e ficar lá esperando.

Aliás, falando em esperar, como pode todo mu…

POKER NA ESCOLA >> André Ferrer

A polarização da sociedade em relação à política tem levado grupos e indivíduos ao embate. Algumas vozes, emitidas de setores diversos, já clamam pela moderação entre governistas e opositores. O perigo de confrontos é uma realidade; não obstante, depois da instalação de uma Comissão de Impeachment em Brasília.

No diálogo, a posição clara de cada um é fundamental. Sem isso, não se tem um diálogo, mas um jogo em que o blefe é livre. Por exemplo, a Ordem dos Advogados do Brasil se manifestou a favor do afastamento da Presidente da República. Todos os dias, a imprensa divulga a tomada de posição de algum setor importante da sociedade, sendo contra ou a favor, o que é extremamente democrático, promove a transparência e previne atos criminosos; inclusive, possíveis atos “anônimos” que, a exemplo de inúmeros ocorridos nas décadas de 1960 e 70, apenas serviriam para aumentar a tensão social e atirar uns contra os outros. Na política brasileira atual, jogar poker é o mesmo que fazer terrorismo…

BICICLETA >> Sergio Geia

Olha aquele homem cortando a Professor Moreira. Ele desliza suavemente pelo asfalto guiando a bicicleta. Lembra céu azul, montanhas banhadas de sol, fim de tarde. A mesma paz que eu enxergo no voo sereno da gaivota. A gaivota e o homem. Ele voa pelo asfalto. Suas asas? A bicicleta.

É um homem pobre. Um pobre homem voador. Roupas velhas e puídas, pele enegrecida de sol. Tem bigode grosso e boné na cabeça. Seu voo é calmo e regular. Devagar ele vai, talvez sonhando com dias melhores, talvez sonhando com o dia em que vai dar mais conforto para a família, talvez sonhando com o mar. Devagar e constante ele vai, num pedalar macio, como se a bicicleta estivesse a flutuar, e não dependesse de suas pernas para andar.

O homem me ignora solenemente. Como uma autoridade, segue adiante sem olhar dos lados, elegante, cabeça erguida, olhar no horizonte. Me sinto um asno parado na calçada, olhando não uma bela mulher, mas um homem simples andando de bicicleta. Ah, mas a imagem é inspiradora e me de…

POR UM ESQUELETO APENAS >> Zoraya Cesar

Faltava somente um período, um mísero período, um mísero e mesquinho período para o maldito curso de técnico em enfermagem da Turma 05 terminar. Um curso que teria duração regulamentar de dois anos e já chegava a quase três. Tudo por causa do ominoso e execrável novo diretor, um ególatra ensandecido que se achava o maior administrador da história desde Dario I (ele ouvira falar, em algum lugar, que o imperador havia sido um grande administrador). Ele mesmo, porém, era menos que um papalvo, incompetente para gerenciar um carrinho de pipoca que fosse. Só estava no cargo porque seu cunhado era influente na política, vocês sabem como são essas coisas.
De forma que, em menos de um ano, o que era uma escola de alto nível estava rapidamente decaindo, ameaçada de perder qualificação no MEC e ser rebaixada à lama.
Dentre os vários problemas apontados, dentre as diversas deficiências relatadas, a que mais se sobressaía, por risível e absurda, era a falta da peça principal do laboratório de anatom…

HISTÓRIAS>>Analu Faria

Uma das minhas grandes curiosidades é saber como as pessoas me veem. Nunca vou saber completamente, é claro, mas queria que elas me vissem não como um corte temporal de mulher, baixinha, loira, servidora pública, fã de livros. Mas como alguém que já morou fora, se lascou, amou, foi feliz, terminou com aquele namorado, levou um pé na bunda daquele outro, luta contra a ansiedade, perdeu o irmão num acidente de carro, fez teatro e dança contemporânea, é vegetariana, quer ter um filho adotivo, brigou com a mãe, já foi gorda, brigou com o pai, perdeu a avó que tinha Alzheimer, sonha em visitar uma praia da Grécia, descobriu o sexo no meio da adolescência, morre de medo de ficar sozinha, tinha medo do escuro quando criança…

Hoje, minhas amigas mais “chegadas” no trabalho são totalmente diferentes de mim. Fico me perguntando por que eu acabo me tornando amiga de gente que não tem a minha idade, não mora perto, não tem os mesmos gostos que eu. Será que é porque essas pessoas enxergam o meu mo…

PASSOS >> Carla Dias >>

Há muitas coisas acontecendo. Há muitas pessoas circulando por aí. Há milhões e milhões de histórias se desenrolando nesse agora, enquanto pensamos nas muitas coisas que acontecem — com um alcance que inclui somente aqueles sobre os quais temos conhecimento — e nas pessoas à nossa volta. E os milhões de histórias, das quais sabemos tão pouco, que esse pouco se torna um parente direto do quase nada.

Assim seguimos: minimalistas flertando com superlativos.

Há o que acontece enquanto caminhamos, alheados, rumo aos lugares aos quais decidimos pertencer para sempre, amém. Ao meu lado, você caminha com mais pressa. Incomoda-me essa urgência, que sou dos contemplativos, gosto de botar reparo na rotina, de gastar tempo a apreciá-la. Já você... Ah, você...

Às vezes, seguro sua mão e puxo o freio. Você me encara como se quisesse me fuzilar por tirá-la do seu ritmo. Depois, desvia o olhar de mim, e em vez de se adequar ao meu ritmo, como metaforicamente eu pedi, ou que cheguemos a um acordo e a…

AUTO DA REPETIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

Natimorto estaria mais certo, mas viveu, o embaraço. Escapou de outras mortes por fome, por sede e por decreto.

Sem teto, sem água, sem pão nem pedra pra recostar a cabeça, foi pra Capital. Alimentou multidões com quase nada — cinco pães e dois peixes.

Sem ter estudado, deu lições aos doutores e escolas aos gentios. Distribuiu milagres como não ousaram ou não puderam fazer os santos e sábios. Atraiu multidões, invejas e ódios.

Abominou as ordálias, as fogueiras, as cruzadas. Combateu o quinto, o dízimo, a derrama e as capitanias hereditárias.

Lutou contra a escravidão, os açoites, a compra de gente e a venda de carne humana.

Brigou por salário-mínimo, carteira, férias. Condenou o trabalho das crianças.

Confortou condenados nas câmaras de gás, fornos crematórios e limpou vômitos no pau-de-arara.

Debaixo de vara, para delírio da platéia, estampou as manchetes.

Diverte-se agora o absoluto julgador:

— Sabes que tenho poder para salvar-te ou condenar-te?

— Todo poder emana do povo.

— Basta…

GIRANDO PRATOS >> Paulo Meireles Barguil

Após ouvir, atentamente, o cliente durante quase 27 minutos, o psicólogo disse que ele estava parecendo  malabarista de circo que gira vários pratos ao mesmo tempo, sem deixá-los cair no chão.

A única diferença, contudo, era que ele não estava conseguindo fazê-lo de modo satisfatório, pois sua vida estava se fragmentando em todas as dimensões.

O analista, inclusive, alertou o paciente sobre os possíveis efeitos daquele frenético ritmo, tanto para o presente, quanto para o futuro, e da necessidade de alterar alguns de seus valores, com o que ele, após relutar um pouco, concordou.

Em casa, após ponderar sobre algumas possibilidades, na qual incluiu um curso de equilibrismo, bem como a permuta do profissional, concluiu que a melhor opção era trocar os pratos de vidro por pratos de madeira.

Ele assim o fez e, ainda, dispensou o terapeuta.