quinta-feira, 21 de abril de 2016

PEREGRINAÇÃO>>Analu Faria

Já fui a muitas igrejas e seitas. Era só alguém me contar sobre o quão interessante era o culto/sessão/reunião do lugar, que meu coração pisciano se sentia atraído e levava meu corpo e mente para o templo/casa/salão etc. Piscianos adoram uma macumbinha, um tarô, um mapa astral. E eu obedecia ao meu signo e vivia procurando um meio de fazer de Deus meu “chegado”. Cada denominação religiosa, contudo, parecia ter um defeito que me incomodava tanto que parecia impossível permanecer naquela fé. Há pouco tempo, porém, decidi que talvez devesse voltar às origens e, como fui criada no catolicismo, voltar a frequentar as igrejas católicas. Era Páscoa e eu achava que fosse uma época boa para isso.

Encontrar uma espiritualidade acolhedora é das coisas mais bacanas que podem acontecer a uma adulta buscadora como eu. Experimento, muito no comecinho, essa sensação deliciosa de encontro. Mas o caminho para isso tem suas presepadas.

A primeira igreja a que fui não era grande nem imponente, mas ficava em um bairro nobre da cidade. Ai, minha cabecinha preconceituosa! Acho que já comecei achando que aquele povo ali era muito coxinha para ser cristão. Estava errada.. Todo mundo muito concentrado. Todo mundo muito atento à homilia. Mas todo mundo muito contrito, muito discreto, apesar do esforço do padre em convidar os fiéis a participarem da igreja, mesmo em gestos banais, como, por exemplo, chamar as pessoas a entrarem sempre pela porta da frente da igreja, porque todos entravam pela lateral. “Por que vocês entram apenas pela entrada lateral da igreja? Entrem pela porta da frente! A Igreja é de vocês!”, ao que todos respondiam com um silêncio intelectual esmaga-espírito. E na hora de cantar as musiquinhas? As palmas relutantes e os folhetos de missa balançados no ar com languidez me davam a certeza de que a festa do Cristo Ressuscitado estava perdendo, em animação, para um encontro da Herbalife ou uma reunião de condomínio. Concluí que não consigo chegar a Deus usando só o meu pobre lado esquerdo do cérebro. Deus não podia ser tão blasé.

Resolvi radicalizar e partir para o oposto — uma igreja “animada”. A estagiária lá do trabalho (que virou amiga) me indicou a igreja católica ortodoxa onde ia e que, segundo a descrição dela, de ortodoxa (no sentido pagão da palavra), não tinha nada. Antes de ir, perguntei: “É tipo renovação carismática? Porque não é muito a minha praia, sabe...” A resposta (guardem isso): “Maaaaais ou menos.” Beleza.

No domingo seguinte, fui até lá. A igreja ficava em Taguatinga, uma cidade-satélite de Brasília. O templo era bem menor que o outro, da semana anterior. “Aqui, sim!”, pensei! Ai, minha cabecinha preconceituosa! Pensei que aquele povo era simples o suficiente para ser cristão. Eu não estava errada, mas…

A igreja estava lotada. Até aí, tudo bem. O que estranhei foi tanta gente no altar: um padre, outro padre, mais outro, um monge, umas freiras. Devia haver umas quarenta pessoas lá. Precisa disso tudo para celebrar uma missa? A primeira música, a de entrada do padre principal e de todos os outros celebrantes, era um axé digno de Ivete Sangalo. Palmas mil. Animação total. O padre (esse, principal) chegou carregando um bebê e rodeado de crianças. Coreô. Carnaval de Deus. Homilia intercalada com leitura de versículos da Bíblia por um padre que simplesmente BERRAVA esses versículos. Mais coreô. Mulheres berravam Aleluia. Homens pulavam. Menções a Satanás. Toalhinhas abençoadas, que o padre usava para enxugar a cabeça e o pescoço, eram jogadas aos fieis. E olha...Padre Ribamar era pop, mais que o papa, pelo menos para a comunidade local. Para coroar a coisa toda, minha amiga me sacudia pelos ombros, dizendo “Miga, por que você tá tão tímidaaaa?. Calmaaaa! Você tem que conhecer o padre, ele é ótimo! E pega aí a coreô! É fácil!” Saí de lá com a certeza de que, usando só o lado direito do cérebro, eu também não conseguiria chegar a Deus. A divindade não podia ser tão micareta.

Como eu sou cabeça dura, prometi a mim mesma que visitaria uma outra igreja católica ortodoxa, que, segundo o que eu sabia, não deveria ser assim tão pentecostal. Curiosa, planejei ir até outra dessas igrejas, no mesmo bairro nobre da primeira. “No outro domingo, eu vou.”

Acontece que acabei por acordar tarde demais no domingo. Fiquei com preguiça de cruzar a cidade para enfrentar o que talvez fosse mais um exotismo (será?). Quase desistindo do plano de voltar a ser católica, decidi, meio desanimada, ir até a igreja mais próxima, uma igreja antiga e sem nada de mais.. “Vai essa mesmo. Se for chata, eu deixo de lado isso de ir a igrejas. Pelo menos tentei três vezes”. E fui, apostando que ia ser chata mesmo.

O Santuário São Francisco de Assis é um templo grande, mas sem pompa. A missa estava cheia, principalmente para o horário: meio dia e quinze (nem sabia que se celebrava missa na hora do almoço). Fui gostando da igreja, aos poucos: quando se cantava, era sem exagero, mas com vigor. Os ritos não eram alongados nem tinham aquele quê de teatralização canastrona. Alguma pessoas elevavam os braços, em adoração, em certos momentos, mas de forma natural, sem parecer que estavam possuídas pelo capeta.O importante era a homilia.

Homilia, em grego, quer dizer 'discurso”. Há muito, muito tempo não vejo discursos religiosos bons. Pelo menos desde o cardeal Hatzinger, o papa Bento XVI, parecia não haver ressonâncias humanas nas palavras dos pregadores. Tudo parecia concentrar-se em purismo, disciplina, depuração de comportamento. Tudo o que, para mim, não é igreja. Só que o padre do Santuário roubou meu coração. Aliás, um salve para o papa Francisco, que encoraja padres como esse! Veja só o que eu consegui, rapidamente, anotar das palavras que ouvia no discurso dele:

"A grande dificuldade, ainda hoje, da nossa Igreja, é o acolhimento, porque somos ainda fundamentalmente preconceituosos, porque somos fundamentalmente elitistas. Jesus conversou com prostitutas, com cobradores de impostos, com soldados do Império, teve paciência com os fariseus. Jesus gostava de " gente que não presta". Assustei vocês? Mas é verdade. Jesus não gostava de perfeição. Cuidado com essa doutrina que diz que nós é que somos os bons. O pastoreio de Deus é o de aceitação das diferenças."

Essas foram apenas algumas das frases sensacionais que ouvi. O padre disse ainda de um Jesus humano, sociológico, histórico. Nada disso de Deus-mágico, solucionador de todos os problemas. Olhava ao meu redor e os rostos pareciam serenos, sinceros, respondiam às provocações do celebrante. Riam, mas não loucamente, emocionavam-se, sem chorar (ou, quando isso acontecia, sem chorar compulsivamente). Acho que a harmonia entre os dois lados do cérebro deve ter algo de tocante ao espírito.

Saí de lá certa de que um caminho possível havia sido posto a minha frente e, quem sabe, um caminho duradouro, sem fanatismos, sem “carolismos”, sem apelos, sem charlatanismo. Deus às vezes pode ser um cara que mora ao lado.

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4 comentários:

Zoraya disse...

Boa sorte Analu! Os Franciscanos são tudo de bom. E seu texto também!

Carla Dias disse...

Que texto bom de se ler. Faz com que a sua experiência chegue ao leitor com a naturalidade que você buscava na igreja. Beijo!

Anônimo disse...

Compartilho da sua eterna busca por ser acolhida religiosamente. Enfim me encontrei, embora distante das tantas restrições de qualquer vertente do cristianismo. Acho-o uma afronta à toda pluralidade do indivíduo. ;)

Ótimo texto! A leitura flui!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa caminhada pra você, Analu!
Gostei da sua "homilia". :)