sábado, 30 de abril de 2016

ENTRE PALAVRAS E CAFÉS — para Márcio Arthoni
>> Cristiana Moura



Ele não dispensa um café. Essa pausa em meio à tarde e aos afazeres. Para os dias de mente inquieta tecida de perguntas aguardamos as respostas do café. Um gole, uma respiração, um pensamento vão ou não. Vez por outra me pego num sorriso que nem sei do quê. Nasce no segundo seguinte ao café escorregar entre a saliva e o céu da boca aquecendo o corpo no dia que já é quente.

Um expresso simples, um café com tapioca, um livro. Esse é lugar onde pensamento e sentimento são um só. Que assim seja. Mas há noites em que seu café dá lugar a um vinho com poesia. O aroma e as notas das uvas fermentadas parecem lhe acordar as palavras das sensações. Para mim, vinho e noite por vezes têm gosto de solidão. Para ele não. Se for solidão é logo acompanhada do tal vinho, de queijos, e do poema nascido ali, fruto da orgia dos sabores e das mãos que escrevem: "Metade sozinha é sempre metade. Faz lembrar de um todo, Faz pensar em algo que a metade não é. Então, existiria a metade?"

Eu, de fato, não o conheço. Apenas tenho notícias cotidianas sobre pensamentos, posicionamentos políticos, palavras e cafés. Assim um tanto de pessoas que, via redes sociais, conheço pela metade. Existiria a metade? Bem, não sei ao certo quem é, mas sei que, como eu, não dispensa um café e o momento em que o tempo cessa café-corpo-a-dentro.

Ainda ontem soube que ele tomava um café com "as lembranças do que ainda vai acontecer".

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Cris, sinto que suas crônicas também são esse "lugar onde pensamento e sentimento são um só". :)

Cristiana Moura disse...

Parece que sim Edu