quarta-feira, 13 de abril de 2016

IMAGINATIVAMENTE ROUBADO >> Carla Dias >>


Quando no corpo tudo acontece à mercê das surpresas.

Mãos tremem. Coração dispara feito cavalo em dia de corrida. Hoje parece um ontem debruçado em devaneios, feito quarta que se mistura aos compromissos de sexta, e que tropeça na melancolia de quinta, reverberando na maresia do domingo. Quando calendário se torna temporariamente obsoleto, porque o tempo se curva, feito esse corpo onde tudo acontece à mercê do desalinho.

Desassossega-se o corpo por tantos pensamentos que uivam simultaneamente. Desentende-se o corpo com o sentimento, que a mornidão da lógica e o usufruto dos hábitos foram nocauteados pela imensidão das emoções que chegaram sem prelúdio. Nem orientação. Tampouco pistas.

Pernas bambeiam como se dançassem uma coreografia primeira, criada nesse momento, apenas para provocar movimento. Mãos se agarram a qualquer móvel, para evitar queda. Coração ainda toca sua música psicodélica, tendo a taquicardia como louvável maestrina.

Vertigens convencem ao corpo a deitar-se no chão morno de verão indecente e buscar pela aquietação dos sentidos. Entretanto, tudo acontece à mercê do destrambelho desse corpo que tenta manter-se alinhado aos seus princípios, que foi educado para ser pleno e elegante. Porque a ele foi dito que não se deve perder a pose. Porém, adiantaram nada sobre a possibilidade de ele ser tomado por tal frenesi.

Antes de ontem, esse era um corpo que comportava silêncios. Tudo nele acontecia na cadência certa, seguia o roteiro do esperado, adaptava-se aos planos traçados. Tudo nele era passível de entendimento oferecido por uma ótima educação e um bom plano de saúde. Depois de ontem, de um olhar de soslaio, de uma breve contemplação de quem caminhava ao lado, das palavras que recebeu, elas carregadas de significados inéditos, esse corpo foi invadido pela liberdade do desejo, a velocidade da eletricidade a caminhar por ele, dinâmica e dona de si... E dele, o corpo.

Olhos fechados para escutar a canção da respiração. O corpo se rende aos galanteios da imaginação, trafegando pela realidade e pelo imaginado, criando um roteiro no qual o final reserva a ele, e ao corpo relembrado, um encontro arrebatador entre lábios.

Um beijo imaginativamente roubado.


Imagem © Wojciech Weiss



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2 comentários:

Zoraya disse...

Antes de ontem, esse era um corpo que comportava silêncios.
criando um roteiro no qual o final reserva a ele, e ao corpo relembrado, um encontro arrebatador entre lábios.

Carla Dias, Carla Dias, um dia vou começar a pedir por um livro seu só com essas frases escandalosamente perfeitas que vc faz.

Aliás, já estou pedindo

Carla Dias disse...

Zoraya, você que acaba pinçando essas frases para que eu as perceba assim, fragmentadas. Pensei em fazer camisetas... Adoro camisetas. :) Beijos!