quarta-feira, 27 de abril de 2016

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE >> Carla Dias >>


Mundo é vastidão além da sua compreensão. Por que pediram que falasse sobre sua visão do mundo, quando ele vive há trinta e sete anos na mesma cidade? Claro, conhece outros lugares, já saiu de férias algumas vezes.  Mas MUNDO? Como escrever eloquentemente sobre um lugar que não se conhece inteiro e que, por onde se esteve, foi de passagem?

Lembra-se de estar de passagem por muitos lugares. Mais do que por lugares, por pessoas. Esteve de passagem pela vida de muitas pessoas. Nenhuma o fez sentir vontade de ficar. Para muitas, ele até conseguiu fazer algo positivo, banalidades que ganham importância quando se visita lugares onde a violência é amplificada pela pobreza. Fez algo de bom às pessoas que esperavam nada dele. Algo de bom que ele nem sabia que era algo de bom. Banalidades, como o dia em que caminhava pela praia, lugar belíssimo que servia de cenário para suas férias, que pagou em dez parcelas de mais dinheiros do que deveria gastar com prazer. Encontrou lá um menino e sentado na areia, de cara para o mar, ali pelos cinco anos de idade. Perguntou se ele estava perdido, e ele disse que estava cansado. Perguntou a ele do quê? O menino olhou para ele com olhar opaco: de fome. Pagou almoço para o menino, um lanche gigante, que o moleque engoliu numa tacada só. Daí, o olhar dele já não estava mais opaco. Daí, o menino sorriu e saiu correndo pela praia. Não estava mais cansado. Foi bonito vê-lo chutando areia.

Depois disso, ele deu de pagar comida pra tudo quanto é pessoa que dizia ter fome. Nem sempre era algo agradável, que nem todos são meninos como aquele da praia. Houve quem agradecesse, assim, com olhar marejado e bucho cheio. Houve quem menosprezasse o feito, como se ele estivesse fazendo nada mais que a obrigação. Houve quem, depois de bem servido, desse chute na canela dele, para pegar o dinheiro de sua carteira.

O que ele aprendeu é que, independente se pagava comida para quem não tinha como comprá-la ou para quem tinha, mas não gostava de gastar seus trocos, cada um reagia de uma forma. Será que isso tem a ver com o lugar no mundo de cada um ou o quê?

Não entende por que pediram para ele falar sobre o mundo. Ele não conhece o mundo, só algumas partes dele, não há como dizê-lo inteiro. Mas pessoas, aí sim, ele pode falar sobre algumas pelas quais passou. Mesmo que seja breve essa passagem, ele tem a capacidade e de sabê-las e repertório para falar sobre elas.

Pensar o mundo lhe custou noites de sono. Quem diria que sua decisão de alimentar pessoas o traria a este momento. Mas a verdade é que ele não se dedicou ao mundo, sabe que não conseguirá fazê-lo. Dedicou-se às pessoas que foi encontrando pelo caminho.

Para um auditório lotado e silencioso, ele fala sobre como tudo começou. Conta sobre o menino na praia e seu olhar opaco. Sobre como olhares opacos o deixam triste e vazio, feito o estômago das pessoas que alimentou. Confessa que não tem muito a dizer sobre o mundo, que tentar fazê-lo com propriedade seria ir contra o fato de que conhece pouco dele. Mas se quiserem saber, ele pode contar a história de cada uma das pessoas que alimentou, das que agradeceram e das que desdenharam do gesto.

Sabe que o que dizem por aí sobre ele ser um visionário. Acha tudo isso uma grande bobagem. Continua a passar pelas pessoas e isso é solitário. Seu sonho é um dia encontrar alguém que lhe peça para ficar. Alimentar quem precisa de alimento, se ele pode, por que não o faria? Se isso se tornou algo maior do que ele, ótimo. Se outras pessoas desejam seguir o exemplo, boa sorte para cada uma delas.

O que ele sabe é que o mundo é enorme, mas, às vezes, ele encolhe até caber na necessidade de quem está ao nosso lado, a quem podemos socorrer. Distrair-se com a grandiosidade é menosprezar as mudanças possíveis.

Aplaudido de pé, ele só consegue pensar que tentar explicar o mundo é uma distração. Falar sobre aqueles que ajudou diretamente é realização.

Distrações o inquietam.

Imagem © Francis Picabia

carladias.com

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Me tocou aqui, Carla: "tentar explicar o mundo é uma distração". :)

Carla Dias disse...

Tenho me pegado realmente pensando assim, Eduardo. Acho que há momentos em que devemos deixar de tentar explicar para que o mundo nos surpreenda. Para que possamos surpreender a nós mesmos.