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BICICLETA >> Sergio Geia





Olha aquele homem cortando a Professor Moreira. Ele desliza suavemente pelo asfalto guiando a bicicleta. Lembra céu azul, montanhas banhadas de sol, fim de tarde. A mesma paz que eu enxergo no voo sereno da gaivota. A gaivota e o homem. Ele voa pelo asfalto. Suas asas? A bicicleta.

É um homem pobre. Um pobre homem voador. Roupas velhas e puídas, pele enegrecida de sol. Tem bigode grosso e boné na cabeça. Seu voo é calmo e regular. Devagar ele vai, talvez sonhando com dias melhores, talvez sonhando com o dia em que vai dar mais conforto para a família, talvez sonhando com o mar. Devagar e constante ele vai, num pedalar macio, como se a bicicleta estivesse a flutuar, e não dependesse de suas pernas para andar.

O homem me ignora solenemente. Como uma autoridade, segue adiante sem olhar dos lados, elegante, cabeça erguida, olhar no horizonte. Me sinto um asno parado na calçada, olhando não uma bela mulher, mas um homem simples andando de bicicleta. Ah, mas a imagem é inspiradora e me desperta um conjunto de emoções. Como tenho saudades de andar de bicicleta!

Na nossa casa, na Avenida Desembargador, eu ficava na janela do quarto de minha mãe espiando a rua. Devia ter uns quatro ou cinco anos. A rua não tinha asfalto. Chovia e se formavam grandes poças de água. Eu torcia para chover. E aí vinha ela, grandona, bonita, pedalando por entre as poças. Ia e voltava várias vezes. Os homens a olhavam. De vez em quando ela olhava pra mim, sorria, dava um tchau.

Minha primeira bicicleta foi uma Monark. Roxa. Eu sonhava com uma Caloi. Vermelha. Sempre que ia ao médico, minha mãe passava comigo na volta, no Jumbo Eletro, na Monsenhor Silva Barros. Eu paquerava a Caloi. Era do tipo berlineta, linda, cheirosa, formas arredondadas, guidão comprido. Sabia que mais dia menos dia ela seria minha. E eu dela. Sabia que iria andar por entre poças e asfalto com a minha Caloi. Era perto do Natal. Eu pedi uma Caloi. Ganhei uma Monark. Roxa. Na certa foi o que puderam me dar.

De bicicleta andei pra lá e pra cá nessa vida. Era o meu meio de transporte. Fazia tudo de bicicleta: escola, ginástica, passeios, viagens, trilhas. Até namorar a gente ia de bicicleta. E andar em dia de chuva também.

Confesso que tenho saudades desse tempo, do tempo de poucos compromissos e vadiagem. A vida andava mais devagar. Era um tempo de brincar na rua, de olhar o céu, de ter animais em casa, de juntar o pessoal para um futebol, rodar pião, encaçapar bolinha de gude ou simplesmente andar de bicicleta. Era um tempo de coisas mais simples e mais humanas.

Vejo um pontinho preto longe. Ele vai indo com sua bicicleta e me deixou aqui, um bobalhão na calçada ruminando lembranças.

Comentários

Wilson disse…
Sérgio Géia. Como sempre escrevendo suas "coisinhas", e como escreve esse garoto! Devo dizer que estava inspirado quando escreveu isso. Inspirado não!É pouco, iluminado soa bem melhor.
Algumas pessoas chamam isso de saudade, outras de lembranças, costumo usar bittersweet. Sei! Sei que é uma palavra americanizada, mas agridoce (bittertsweet) é uma bela palavra.
Pela vida perseguimos nossa subexistência, brindamos com vinho nossas vitória, bebemos em cristais o fel das derrotas, e por qual motivo vamos em frente? Deve ser porque sabemos qque em algum lugar encontraremos uma caloi vermelha, mas ainda não sabemos onde.
Anônimo disse…
Me emocionei lendo este texto. Lembra o meu pai, na sua monark vermelha, pedalando leve e alegremente. É o retrato do cidadão que sonha com dias melhores, que trabalha o dia inteiro pra garantir que os filhos tenham o que comer...Parabéns pelas palavras.
Bela crônica, Sergio!
Me fez lembrar da minha Monark e dos primeiros arranhões. :)
sergio geia disse…
Obrigado, Wilson. Pois é, amigo, essas "coisinhas" são banalidades. Minhas crônicas estão repletas delas. E a vida também. Acho que crônica é isso: uma lente de aumento nas banalidades. Grato, Eduardo, espero que boas lembranças rsrs. Amigo anônimo, obrigado pelo seu comentário. Fico feliz pelas boas lembranças e boas emoções.
Zoraya disse…
Sergio, vc está se especializando em transformar 'coisinhas' em grandes crônicas. Obrigada por compartilhar! E como vai a tartaruguinha? kkk
sergio geia disse…
Grato, Zoraya. A tartaruguinha vai bem; prometo enviar uma foto via facebook; verás que é uma graça kkkkkkkk

Sérgio, sua luta foi sempre entre uma Caloi e uma Monark. Imagina em casa com 5 irmãos, a briga que existia para escolher entre uma Rudge (é esse nome mesmo)e uma Monark daquelas com breque ainda no pedal. Quando era sorteado, eu e meu irmão mais novo chocávamos um caminhão e íamos desde as Perdizes(S.P.) até o clube Pinheiros,(mais ou menos uma hora),nadávamos e depois a mesma façanha.Nossa volta era mais rápida.Chegávamos mais pra lá do que pra cá. A janta nos esperava. depois que fazer??? Direto para a cama! Até amanhã!
Um abraço José Olavo

sergio geia disse…
Grato, amigo José Olavo, pela leitura, por participar, mas principalmente por partilhar conosco de suas lembranças. Gde abraço!

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