sexta-feira, 22 de abril de 2016

A AVENTURA INFLÁVEL DO DR. MÁRCIO >> Zoraya Cesar

Chegara àquela idade em que, pensava ele, deveria aproveitar seus últimos anos de maneira aventureira e libidinosa. Chegara àquela idade em que muitos homens olham a própria mulher como um estorvo à sua liberdade, à última oportunidade de viver la vida loca, de despertar sua latente sexualidade hircina. Depois dos 65 anos, Dr. Márcio voltara a sentir frissons adolescentes.

Ele invejava o irmão de sua esposa. O cunhado solteirão, não mais um playboy, mas um 'playold' que vivia na praia e nos bares, cercado de mulheres mais jovens, frequentador de orgias regadas a scotch, aventureiro dos sete mares. Era também, o cunhado, um falastrão, adorava contar suas proezas com detalhes sórdidos. A irmã o achava adorável. Dr. Márcio o achava um estróina cínico, que vivia lhe pedindo dinheiro emprestado, bebia de seu uísque mais caro e troçava de seus hábitos conservadores. Dr. Márcio invejava e detestava o cunhado tão figadalmente quanto a ideia de se separar. Estava acostumado àquela vida mansa de homem casado que encontra tudo pronto ao chegar em casa, e até gostava da esposa. Não, Dr. Márcio não queria se separar, só queria uma aventura digna das do cunhado odiado.

Não estava preparado para grandes voos, porém. Resolveu começar comprando uma boneca inflável, dessas importadas, japonesas, tão reais que só faltavam casar — Dr. Márcio não quis economizar em sua primeira ousadia extraconjugal. 

Encomendou, pois, a bendita boneca, modelo enfermeira, sua fantasia preferida. Seria entregue no escritório, sábado pela manhã, sem testemunhas. Seu plano era estrear a boneca lá mesmo e depois guardá-la no armário trancado à chave. 

A partir desse momento, Dr. Márcio adolesceu. Até espinhas apareceram em seu rosto. Sentia-se temerário, arrojado, imaginando as peripécias sexuais que faria com a boneca. Trazia nos lábios um sorriso monalisa de quem escondia o segredo mais picante do mundo. 

Infelizmente, a administração do escritório marcou dedetização nas salas exatamente para aquele sábado; gavetas, armários e caixas deveriam ser deixados abertos após o expediente. Dr. Marcio puxou os poucos cabelos que lhe restavam e remarcou a entrega, frustrado, num mau humor absurdo.

Pior, esquecera, no seu afã, que o sábado seguinte seria feriado, o prédio não abriria. Teve de ligar de novo, desmarcando. E ficando no limiar do irascível. Sua esposa, coitada, farta de aguentar o humor bilioso de um marido que, até há algumas semanas era indiferente, ausente até, mas jamais agressivo, resolveu passar o final de semana na casa dos pais. 

Foi a glória! Dr. Márcio imediatamente ligou para a fornecedora e marcou o dia da entrega para o sábado em que sua esposa não estaria em casa. Pronto! Estrearia seu brinquedo lúbrica e tranquilamente e, antes de a mulher voltar, ele o esconderia na mala do carro. 

Sábado, pois, lá estava ele, sozinho, indócil, à espera de seu tão ansiado pacote. Viu alguns filmes pornôs, tomou umas doses de uísque, sentindo-se o próprio transgressor, um James Dean da terceira idade. Bateu, de repente, uma preocupação: ele já não ‘cumpria a missão’ há tanto tempo que se sentiu meio inseguro. Depois, relaxou; provavelmente o artefato vinha com manual de sugestões; afinal, os japoneses eram ‘profissas’, não iam fazer serviço pela metade.

Tais devaneios foram interrompidos pela chave da porta girando, sua mulher, o detestado cunhado, os sogros adentrando barulhentamente. Por quê, perguntou, num pânico de suar as calças. Porque uma obra emergencial no prédio deixara sem gás e sem luz o apartamento dos sogros. Iriam todos ficar ali o final de semana. Afinal, a mulher olhou para ele, desafiadoramente, essa casa é minha também, certo? 

Trancou-se no banheiro de serviço e ligou, desesperado, para a empresa:

 Recuerdos de Ipacaraí Exportações, Janaína falando, bom dia.

 Aqui é o Dr. Márcio — sussurrava, olhando para os lados. — É que encomendei uma boneca inflável e...

 Qual o número do pedido?

 Não sei! Mas é uma boneca inflável tamanho natural vestida de enfermeira e preciso trocar o endereço da entrega, urgente — as mãos tremiam.

 Qual o CPF, por favor?

 222.000.222.00.

 Achei. É a terceira vez que o senhor desfaz a entrega — a voz dela era petulante.

 Eu sei, eu sei, mas minha mulher voltou pra casa com a familiarada toda nojenta dela, entende? A entrega não pode ser feita aqui de jeito nenhum, pelamordedeus, eu faço qualquer coisa!

 Sinto muito, mas a encomenda já foi despachada, não tem como interceptarmos o transportador, tem uma multa e...

 Eu pago. Eu pago, pago em dobro, em triplo, mas..., meu Deus, o interfone, devem ser eles, ai...

Eram mesmo. Quem atendeu a porta foi o cunhado, que, não por acaso, conhecia a loja. E aproveitou a oportunidade para humilhar Dr. Márcio, revelando seu segredo inflável para a família ali reunida. Nosso desventurado herói não aguentou a vergonha. Saiu correndo, ainda vestido com as calças do pijama que, frouxas, escorregaram pelas pernas, fazendo-o tropeçar e rolar alguns degraus.

Calma. Ele não sofreu nada pior que um braço quebrado, um corte na testa e uma profunda mossa na sua já combalida autoestima.  

Saiu do hospital e encontrou suas coisas na portaria. Não adiantou ligar, implorar, chorar para a mulher — teve de dormir num hotel. 

Na segunda-feira, levou o atestado médico ao escritório. Preparara uma história mirabolante para explicar o acidente, mas perdeu tempo. O cunhado ligara antes, contando todo o episódio, às gargalhadas. 

Termina, assim, a primeira incursão de Dr. Márcio no mundo das aventuras extraconjugais. A mulher deixou-o voltar para casa, afinal, a estripulia do marido tinha sido tão infantil e ridícula que era digna de lástima. Deixou-o voltar, sim, mas sob uma condição: o cunhado iria morar com eles...

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8 comentários:

Erica disse...

Putz... Tinha castigo pior do que trazer o cunhado maldito pra morar com eles? Coitado.. Fiquei com pena do Dr. Márcio... Será que não seria melhor ele ir morar com a boneca? Com certeza ela não tinha cunhado kkk

Anônimo disse...

É um mané mesmo, que leva propagandas à sério!

Pior foi o bêbado, que comprou uma boneca dessas, mordeu a bunda dela, que saiu voando pela janela, e ainda reclamou sobre a garantia, visto que não falaram para ele, que a boneca peidava, hahaha...

Carla Dias disse...

Tudo bem eu ficar com certa pena do Dr. Márcio? Porque fiquei com a impressão de que ele é atrapalhado e azarado assim em todos os departamentos de sua vida.

Anônimo disse...

Ah, que triste! pensei que ele ficaria com a boneca e seriam felizes para sempre. Ou pelo menos durante a garantia de fábrica. HAHAHA

Zoraya disse...

Oi Pessoal:

Erica: morri de rir com seu comentário. Pois é, acho q valeria qq coisa pra nao morar com o cunhado, mas aí o casamento acabava e cadê a boa vida de encontrar tudo prontinho por uma esposa amorosa? kkk

Anônimo 1 - o produto era bom. Dr. Márcio é que era inexperiente em aventuras extraconjugais

Carla - pode sentir pena do coitado sim. Até eu fiquei com pena dele hahahah. E vc intuiu certo, ele é atrapalhado pra tudo. Talvez ele apareça em outras aventuras. ou desventuras.

Anônimo 2 - haha, finais felizes são para os corajosos. Dr. Márcio era meio medroso,sabe.

Valeu, todos!

Ana Luzia disse...

Recuerdos de Ipacaraí Exportações?!?!?!?!

até onde vai a sua imaginação, minha querida? kkkkk

Essa é quase uma história de horror, homens transgressores nunca se dão bem por aqui, rs...

bjos!

albir silva disse...

Coitado, nenhum crime, punição tão dura...

albir silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.