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Mostrando postagens de Outubro, 2010

PÓS-PRODUÇÃO >> Eduardo Loureiro Jr.

Ainda bem que as eleições de 2010 terminam hoje. A campanha eleitoral foi longe demais: invadiu o terreno sagrado de meus sonhos.

Eu, que já tive o privilégio de sonhar namorando a Maitê Proença atrás das cortinas do belíssimo cinema São Luiz, recebi em minha cama, de ontem para hoje, os candidatos à presidência da república. Não conto o sonho inteiro para não aborrecer o leitor, invadindo também seu sacrossanto domingo. Permito-me apenas dizer que não dei mole para eles. Para o Serra, já desconsolado com a iminente derrota, ofereci uma frigideira gigante, dizendo: "Pula aqui que eu vou fritar você". Depois, caminhando na contramão da massa que vinha comemorar a vitória de Dilma, distribuí empurrões e palavrões para a multidão.

Mas esta crônica não é sobre política, e sim sobre o que acontece depois. "Depois de quê?", perguntará o leitor. Depois de tudo. Depois das eleições, depois desta crônica, depois de "foram felizes para sempre", depois do disco, dep…

TECNOLOGIA NA COZINHA [Ana Gonzalez]

Comprei pela internet. O pacote chegou depois da espera convencional. Mas eu estava já contando as horas e os minutos. Comprei porque me prometia maravilhas: um liquidificador e um multiprocessador juntos. O primeiro era velho amigo e foi o grande motivo da minha ansiedade. Forte, novo, lindão. Mas o segundo eu não sabia como usar. Ficou no armário, com as peças todas acondicionadas, depois de verificadas, do jeito que vieram pelo correio. Embora o manual parecesse simples, por precaução deixei o uso da novidade para um momento em que eu pudesse dar conta da tarefa.

Desse mesmo jeito eu lido com as tecnologias todas. Delongando a hora do confronto. Isso nem sempre é bom, claro. Por exemplo, tenho dois endereços no facebook, por inabilidade de me arrumar com um só. Não funcionou o primeiro. Quis consertar o desacerto e arranjei outro endereço.

Assim também tem acontecido em outras situações na internet. Contabilizo um monte de outras tentativas frustradas para entrar em um sem número…

SETE PALMOS MELHOR >> Leonardo Marona

Eram Carlo, Rino e Toupeira no BG Bar, prostrados sobre seus copos, numa daquelas noites entre o céu e o inferno, uma noite comum mas uma cena distinta de todas as outras, porque por mais que fosse sempre a mesma cena, doía de forma diferente a cada vez. Não muito em Toupeira, bem verdade, mas era por isso mesmo que Carlo e Rino, preocupados com a velocidade com que o mundo vinha se tornando um buraco cada vez mais azedo ao mesmo tempo em que tinham que arranjar um jeito de custear os porres por minutos de esquecimento, viviam escorraçando o pobre feliz – é fato que tinha uma tremenda cara de almofada e uns dentes enormes pra fora que o obrigavam a um sorriso constante, mas isso não justifica –, pois era justamente o que invejavam nele: sua felicidade ausente do cotidiano maçante da vida, porque por mais que estivessem cheios das idéias dos outros, de suas leituras e contemplações analíticas, não tinham nada no que encostar a cabeça antes de dormir e nem ao menos umas mãos delicadas q…

SORVETE NO ESTÔMAGO >> Fernanda Pinho

Hoje me aconteceu uma coisa terrível! Meu celular tocou e eu adivinhei que era você. Foi a primeira vez que eu adivinhei que era você. Tive um clique, sei lá. Coisa de mulher. E olha que eu nem sou o tipo de mulher que tem “coisa de mulher”. Revirei a bolsa. Chave. Escova. Agenda. Livro de autoajuda. Revista do mês passado. Carteira. Portamoeda. Batom. Creme para as mãos. Outro creme que eu não lembro mais pra que que serve, mas tenho usado no rosto. Absorvente. Um recorte de jornal que eu recortei sei lá por quê. Perfume. Pacotinho de sal (vai que a pressão cai). Fone de ouvido. Enfim. Celular. Era você. E quando li o seu nome, piscando, meu estômago gelou. Foi a primeira vez que meu estômago gelou por você.
Droga! O que foi isso? Não sei, só sei que foi desconcertante a ponto de eu deixar meu celular ser tragado novamente para o buraco negro que é a minha bolsa. Ou melhor. Sei sim. Claro que sei. Já tive isso antes. Mas não quero aceitar. Estava indo tudo tão bem. Eu tinha tudo sob c…

BALAS, BEIJOS E BILHETES >> Carla Dias >>

Durante a nossa jornada de vida, a vida em si acontece de uma forma inteira. Somos apenas uma mecha dos seus cabelos arrebanhados pelo vento. Um fragmento fundamental para que ela aconteça num todo.
Quem se permite alcançar pelo que acontece a sua volta, que observa o que vai além do universo que criou para si mesmo, está sujeito à inspiração na sua essência.
A nossa existência remete ao aprendizado. Temos de aprender a ser não apenas a pessoa que a geografia, a família e a sociedade nos permitem ser. Temos de ir adiante... Inspirar-nos.
Sim, eu me permito inspirar por balas. As cores dos seus papeis, os formatos, inspiram-me, assim como a curvatura do corpo do menino que pega a bala que caiu no chão, ou o olhar desamparado do dono do bar que vendeu a bala ao menino. O resmungo da mulher que espera para ser atendida.

Inspiram-me também as fotografias que contam histórias. Minha mãe tem algumas delas, tão antigas quanto eu, com pessoas das quais não sei o nome, apesar do parentesco. Ah, q…

CHEGA DE TANTA BESTEIRA
>> Clara Braga

Recentemente meus pais estiveram na Argentina, e quando voltaram comentaram a mesma coisa que eu já tinha ouvido outras pessoas comentarem quando estiveram lá: como eles ficaram impressionados com o quão politizados são os argentinos. Quando meus pais falavam que eram brasileiros, logo a pessoa dava uma aula sobre o que estava acontecendo com a política no Brasil, sabiam tudo mesmo.

Meus pais também conhecem uma pessoa que passou pela mesma situação, ou talvez até pior, porque quando o taxista argentino começou a falar sobre o que ele sabia... eram coisas que nem a própria pessoa sabia que estava acontecendo aqui no Brasil. E eu me atrevo a dizer que isso vai acontecer cada vez mais, já que o brasileiro está perdendo toda a sua esperança em relação à política.

Já disse uma vez aqui que não gosto de falar de política por não entender muito bem, o que é a mais pura verdade, mas esses fatos têm me impressionado tanto que não tem como não escrever sobre. Final de semana passado, eu fui ao…

CARTA PARA QUANDO EU FOR VELHA
>> Kika Coutinho

Um dia, e não deve demorar muito, vou notar fios brancos no meu cabelo. Pior: um dia, vou procurar se restaram alguns fios preto no meu cabelo. Vou sentir algumas dores nas pernas, ou nas costas, ou a carga da vida será pesada para mim.

E, se eu pudesse deixar um recado para essa mulher que eu serei então, eu pediria, talvez, para que ela fosse doce. Quando eu for velha, desejo manter alguma alegria. Ainda que a amargura me seja tentadora, que eu possa ver alguma beleza na vida.

Que eu possa ver beleza em mim mesma, mesmo que meu rosto esteja amassado, os olhos um pouco apagados, que eu me lembre do quanto achava ridículo as mulheres lotadas de botox e não caia na armadilha de esticar-me toda para tentar ser aquilo que não preciso mais ser. Que eu me lembre desse tempo de hoje, e aceite essa outra forma de beleza, senão sem dores, com muita dignidade.

Que eu tenha mãos firmes para passar base e, quiçá, delineador. Que eu saiba o valor e o momento de um bom perfume, de um bom pente…

O JOGO DEMOCRÁTICO
E SUAS FALSAS ESCOLHAS
[Sandra Paes]

Parece que o mundo ocidental está todo debaixo da pressão de escolher alguém para lhe ditar os caminhos. Falo das eleições no Brasil e nos USA.

Por toda parte, propagandas de “vote em mim” e uma série de discussões temporárias sobre o melhor partido. Pela internet, recebo diariamente incontáveis emails na tentativa de ganhar meu voto ou, pelo menos, uma adesão simpática.

Me pergunto: a quem serve tudo isso?

Desde que os gregos inventaram a democracia o mundo vem brincando de escolher representantes. Entre percepção e consciência, escolha sob a égide de tantas dúvidas, fica apenas uma possibilidade: você tem que escolher. Há que apontar alguém. O discurso histórico de que possíveis candidatos a cargos políticos têm que prevalecer para sustentar o Estado e seus poderes de decisões e normas na sociedade vigente nunca foi avaliado.

A crença básica é: o homem precisa de quem lhe aponte o caminho, quem lhe imponha regras e tarifas para justificar seu trabalho, sua produtividade e, por que …

FORTALEZA É UM PÂNCREAS
>> Leonardo Marona

Fortaleza é uma noitada no prostíbulo Blue Angel na zona portuária com uma menina chamada Vitângela. Mas por que Vitângela, querida? Meu pai é Vítor, minha mãe é Ângela. Foi a depressão que me levou até lá. Foi para não estar lá que fui parar lá. Foi para não estar em parte alguma que estive ali. É isso: Fortaleza é não estar em parte alguma.

Não é preciso amar Fortaleza para se estar junto a ela, ou mesmo ela dentro de você. Ela é o morto de Sam Peckinpah, que carregamos pelos desertos até o monte de Sísifo, que são as dunas que aumentam de altura conforme cravamos nelas os pés descalços. Ah, Fortaleza, difícil te separar das ruas horríveis cheirando às entranhas dos bois magros, muito difícil tirar da minha visão aquela prostitutazinha pedindo um boquete toda coberta de feridas abertas, difícil ignorar a corrida pela perimetral com as calças em mijo, ou as pessoas sem alma escoradas nos parapeitos, jogadas nos meios-fios como índios anacrônicos. Eles olham como índio, não é maldade,…

MEMÓRIAS DO DIVÃ >> Fernanda Pinho

Eu estava achando o mundo estranho, as pessoas confusas e os questionamentos insolúveis e, então, por minha conta, decidi que era hora de fazer terapia. Sem referência alguma, procurei um psicólogo na Internet e marquei uma consulta. A experiência foi desastrosa, pois o homem era esquisítissimo, me deixava pouco à vontade, com a sensação de que, a qualquer momento, ele iria tirar uma arma de trás de sua poltrona e me balear. E pior. Ele insistia em me chamar de Flávia. Sorte a minha é que eu nunca tive problemas de identidade, ou teria pirado de vez.
Mesmo assim, cheguei a frequentar umas quatro seções e só desisti quando eu tive a certeza de que não tinha jeito: eu nunca confiaria nele, ele nunca aprenderia meu nome. E foi então que aconteceu o fato mais bizarro dessa experiência pois, estranhando meu sumiço, o homem resolveu me telefonar. - Oi, Flávia, tudo bem? Eu notei que você não veio mais ao consultório. Aconteceu alguma coisa? - Flávia? Quem é Flávia? Você ligou errado, aqui nã…

VILLANI-CÔRTES >> Carla Dias >>

Eu gosto de biografias, tanto quanto aprecio a história de criação das obras de feitores de arte que perpetuam amores e dores, de criadores de indústrias, de engenheiros dedicados a enfrentar os percalços da jornada que é desafiar as leis da física. De cientistas em busca da vida sendo baforada para fora dos tubos de ensaio.
Sou telespectadora do canal Bio, que, infelizmente, é coisa de TV paga... Ao menos por enquanto. Há muito veiculado ali que deveria caber também nas salas de aula.

Se a nós é tão agradável saber da vida alheia, folheando revistas em busca da gafe de celebridades, ou mesmo os jornais, para saber quem está mais bem colocado pelo Ibope, por que não dedicarmos esta curiosidade também aos que constroem a identidade do nosso país?

Em agosto passado, a Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos recebeu um evento muito especial, uma homenagem aos 80 anos de Edmundo Villani-Côrtes, pianista, regente, arranjador e compositor. O evento incluiu uma agenda de apresentações, contand…

VER OU NÃO VER, EIS A QUESTÃO
>> Clara Braga

Recentemente assisti ao filme Janela da Alma pela quarta vez. É, eu sou assim mesmo, quando gosto de um filme assisto até não aguentar mais. E quem já assistiu Janela da Alma sabe que esse é o típico filme que você não só pode como deve assistir várias vezes, pois cada vez que você assiste descobre algo novo e muito interessante. O que chega até a ser meio estranho, já que se trata de uma espécie de documentário. Nada contra, mas documentários normalmente não fazem parte da minha lista de filmes para assistir várias vezes.

Durante o filme várias pessoas, famosas ou não, vão falando como é a vida deles com o chamado "problema" de visão. E os problemas variam do mais grave, no caso a cegueira total, até ao simples fato de ter que usar óculos para ver melhor. Os depoimentos são lindos, muito interessantes mesmo e acho que me identifiquei com vários deles pelo simples fato de também usar óculos, mesmo meu caso não sendo nem de perto um dos mais graves.

Logo que eu comecei a usar…

POBRES LEITORES >> Albir José Inácio da Silva

Em princípio não há por que se ter pena de leitores. Melhor é agradecer-lhes a generosidade de nos ler os textos e parabenizá-los pelo hábito tão saudável. Ninguém discorda que a leitura é uma das atividades humanas mais interessantes. Talvez mais do que heranças inesperadas e prêmios de loterias, que só mudam o exterior, a palavra escrita tem conseguido dar novos rumos a vidas de que não se esperava grande coisa.

Mas o que a leitura tem de prazerosa pode ter de torturante quando obrigatória. Nem falo de alunos que precisam ler muitas páginas para responder a muitas perguntas. São ossos do ofício de estudar, do qual nos desincumbimos da melhor forma possível e vamos adiante.

Também não falo das dezenas de páginas de relatório que somos obrigados a digerir no escritório, porque para tanto temos explicações: é o nosso trabalho, temos de pagar as contas e pior seria estarmos desempregados.

Falo de uns coitados que têm amigos que escrevem coisas na internet ou em outro lugar qualquer, que…

MINHAS CRIANÇAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Minhas crianças não eram minhas originalmente. São filhas de seus pais. Mas quem pode dizer que as crianças são mesmo nossas, originalmente? Não seriam elas um empréstimo, uma delicada encomenda a ser cuidada e entregue no período de uma vida?

Carol nasceu antes, mas a que me chegou primeiro foi Julia, sem acento — sugestão minha. Eu a conheci já no hospital, e não tinha ideia de que a filha da irmã da minha então mulher teria um impacto tão grande na minha existência. A primeira vez que chorei pela dor de alguém foi pela dor da Julia. E a alegria do dia em que Julia me chamou para ler uma história e, de surpresa, leu-a para mim em vez de eu ler para ela, foi uma das maiores alegrias da minha vida. Julia é um dos três melhores seres humanos que conheci até agora. Certa vez, numa praia próxima a Fortaleza, quando íamos quase desistindo de atravessar uma série de dunas para chegar a uma lagoa, Julia, com cinco anos, saiu-se com essa: “Vamos desistir sem nem ao menos tentar?”. E é a voz …

MANHÃ NA RUA OSWALDO CRUZ
>> Leonardo Marona

Arrastava pelo braço um outro senhor um pouco mais senhor e menos digno por isso, ao que me pareceu. Ele era puxado pelo braço de encontro ao vento forte que amassava sua camisa de bolso na altura do peito contra sua ausência de vida em pele. O senhor que puxava era careca. O senhor mais senhor e menos digno, ao que me pareceu, não era careca. Filho da puta, pensei. Filho da puta sortudo de uma figa... Olhei meu reflexo na vidraça da portaria de um prédio um pouco antes do meu. Por que fui raspar a cabeça? Essa cabeça chata de idéias velhas e dramatizações falsas. Pensei em dar minha mão para o senhor mais senhor e menos digno, ao que me pareceu, e ir-me embora com ele até o lugar onde todo mundo tem cabelo e é feliz. Mas o outro senhor, que o arrastava contra o vento, me olhou como se fosse me matar e a toda minha geração. As pessoas precisam se defender delas mesmas o tempo todo. Isso tudo durou um segundo ou dois. Coisa de péssimo escritor. Virei para trás quando passei pelos senho…

GENTILEZA >> Fernanda Pinho

“Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo” – Shakespeare
Fico pensando em como deve estar desgostoso o senhor José Datrino, lá do céu. Ele, que ficou famoso como Profeta Gentileza e foi o propagador da filosofia "gentileza gera gentileza" ,deve estar tendo dificuldade em encontrar os frutos das sementes que plantou. Porque, gente, reconheçamos, ser gentil está mais démodé do que usar pochette.
E eu, graças a Deus, estou por fora, pois acho gentileza o máximo. Não abro mão de desejar feliz aniversário a ninguém - e levo tão a sério que sei de cor as datas de aniversário de todas as pessoas das minhas relações; faço o impossível para comparecer sempre que me convidam (e se não posso ir, nunca deixo de me justificar); não deixo ninguém esperando; não saio discordando só para causar polêmica; respeito os horários dos outros; não deixo ninguém mudar de planos por minha causa; sempre falo "bom dia", "boa tarde", "boa noite" e "…