quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SORVETE NO ESTÔMAGO >> Fernanda Pinho



Hoje me aconteceu uma coisa terrível! Meu celular tocou e eu adivinhei que era você. Foi a primeira vez que eu adivinhei que era você. Tive um clique, sei lá. Coisa de mulher. E olha que eu nem sou o tipo de mulher que tem “coisa de mulher”. Revirei a bolsa. Chave. Escova. Agenda. Livro de autoajuda. Revista do mês passado. Carteira. Portamoeda. Batom. Creme para as mãos. Outro creme que eu não lembro mais pra que que serve, mas tenho usado no rosto. Absorvente. Um recorte de jornal que eu recortei sei lá por quê. Perfume. Pacotinho de sal (vai que a pressão cai). Fone de ouvido. Enfim. Celular. Era você. E quando li o seu nome, piscando, meu estômago gelou. Foi a primeira vez que meu estômago gelou por você.

Droga! O que foi isso? Não sei, só sei que foi desconcertante a ponto de eu deixar meu celular ser tragado novamente para o buraco negro que é a minha bolsa. Ou melhor. Sei sim. Claro que sei. Já tive isso antes. Mas não quero aceitar. Estava indo tudo tão bem. Eu tinha tudo sob controle. Eu vinha me divertindo tanto. Agora vem meu estômago gelar por conta de um telefonema besta no meio da tarde. Não há de ser nada. Pode ter sido o sorvete que eu tomei agora há pouco. Desde que mundo é mundo as pessoas sentem o estômago gelar quando tomam sorvete. Ou ao menos deveriam sentir. Faz todo sentido.

Não! Não! Não! Mil vezes não! Não é o que eu estou pensando. Acabou a minha serenidade para olhar as menininhas te chamando de “gatinhu” no Orkut e achar graça. Já estou me vendo amanhã conferindo o Orkut de todas elas. Uma por uma. Acabou minha autonomia para recusar um convite seu porque estou cansada. Já estou me vendo cruzando a cidade, às nove da noite, depois de um exaustivo dia de trabalho. Acabou minha paz de espírito. Já estou me vendo grudada no telefone o dia todo, e atualizando a caixa de e-mails a cada vinte segundos, esperando por um sinal seu.

Música romântica, nem pensar. Estou terminantemente proibida de ouvir qualquer coisa que tenha menção ao amor. Amor? Eu disse amor? Disse! Por que tantas músicas têm que falar de amor? Falta de originalidade. Com tanto assunto no mundo. Ninguém quer saber de cantar os hipopótamos albinos do Zimbábue. Aliás, imagine se 80% das músicas que existem no mundo falassem sobre os hipopótamos albinos do Zimbábue. Ninguém iria suportar. Ninguém iria querer saber de música. Agora, o amor pode ser tema insistentemente repetido. Por quê? Por que o amor é mais importante que os hipopótamos albinos do Zimbábue? (Existem hipopótamos albinos no Zimbábue?).

Vai dar tudo certo. É só eu não ouvir nenhuma música romântica e, assim, não alimentarei o meu cérebro com imagens de nós dois, lindos, dançando, no fim da festa do nosso casamento, após todos os convidados terem ido embora. Eu, com um vestido branco gelo, daqueles que dão até dor na vista. Mas com batom vermelho, para contrastar. Você, com um terno italiano grafite, com riscas de giz. Ai, fodeu. Pensei! Droga. Droga. Droga. Droga. Mil vezes droga! Não aguento mais esse meu cérebro fértil, esse meu estômago gelado e esse meu coração parecendo uma bomba, prestes a explodir.

A culpa é sua. É, não vou suportar esse fardo sozinha. Quem mandou ser tão lindo, inteligente, engraçado, cheiroso, TU-DO-DE-BOM? Simplesmente terrível.

Meu celular tocou e eu adivinhei que era você. Foi a primeira vez que eu adivinhei que era você. E quando li o seu nome, piscando, meu estômago gelou. Foi a primeira vez que meu estômago gelou por você. Foi tão desconcertante que eu nem atendi.

Foto: http://www.sxc.hu/
http://www.blogdaferdi.blogspot.com/

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12 comentários:

Carla Dias disse...

Ok... Achei a crônica fantástica e tal, mas o que está me atazanando é a curiosidade para saber quem é essa pessoa que fez o seu estômago gelar desse jeito! Nada mais romântico do que nosso estômago gelar por alguém... É uma armadilha do amor, experimentada até mesmo pelos sabe-Deus-se-existem hipopótamos albinos do Zimbábue.

vanessa cony disse...

Perder o controle da situação me parece ser um dosprimeiros sinais que as coisas estão acontecendo!Sim ,o amor!!!!
Nesse mundo tão quente,onde vemos tantas coisas que enchem nossa cabeça e esquentam nossas vidas ,nada melhor do que experimentar esse geladinho!
Parabéns,crônica divertida,real e muito próxima de nós!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda, você tem o dom de conduzir o leitor. Eu não li sua crônica, eu a dancei -- esquecido de que nem sei dançar. :)

albir disse...

Da próxima vez atenda, Fernanda, e nos conte na semana que vem.

Fernanda Gonçalves disse...

Ameeeei. Um ritmo muito bom. Realmente você tem o dom de nos conduzir até o final. Muito gostoso de ler.

Parabéns =)
Beijinhos, xará.

Loreyne disse...

rsrs pois eh pq vc nao atendeu???
adoreiii, bjus

Fernanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda disse...

All we need is love!

vanessa cony disse...

Fernanda.Estou seguindo seu blog mas observei que não tem espaço para comentários.De qualquer forma tanto aqui,quanto lá seus textos são muito bons!Bj.

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Ai, só de ler a crônica minha pressão subiu feito a Nasdaq, o gelo do seu estômago passou pro meu - eu nem tomei sorvete - e ouvi meu celular tocar sendo que ele está desligado. Por favor, escreva um texto sobre riqueza!!! kkkkkkkkk... Beijos amorécula!

Jujú disse...

Realmente incrível como embarcamos tão facilmente quando essa mocinha escreve! Tb senti um gelado no estômago...

Lindeza demais, viu?

BEijos, sorrisos e afins...

fernanda disse...

Ô gente, do jeito que eu tô, depois de ler esses comentários, vou sair flutuando.

Mas posso confessar? De repente me bateu uma vergonha de ter postado isso aqui....hahahahaha

Ai, mulheres, que as entende? Nem eu que sou um exemplar da espécie.

Muito obrigada, povo!