domingo, 3 de outubro de 2010

ESCOLHAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Eleição é escolha. Embora o que você obtenha não seja, necessariamente, aquilo que escolheu. Acontece com frequência de você ficar com algo que foi escolha de outra pessoa. Ironias da democracia — governo do povo.

Para aumentar as chances de sua escolha ser a escolha escolhida, você deve convencer outras pessoas — que não são tão firmes em suas escolhas — a escolherem o mesmo que você. A não ser que você é que não seja tão firme em suas escolhas, nesse caso você será convencido da escolha de outro. Ironias da democracia — governo do povo.

Escolhe-se um representante, uma pessoa que substitui outras, que toma decisões por outras. Escolhemos, então, alguém que fará escolhas por nós. Alguém — que não é a escolha de todos — fará escolhas por todo mundo. Ironias da democracia — governo do povo.

Seria bom se fosse só de dois em dois anos, nas eleições municipais e nas eleições estaduais e federais, mas acontece todo dia. Fazemos várias escolhas diárias e algumas  delas se resumem a escolher alguém que escolherá por nós. Terceirizamos, com frequência, nossas decisões. Não comemos aquilo de que temos fome. Não trabalhamos no que gostamos. Não convivemos com quem queremos. Embora escolhamos — em nossos desejos — determinadas iguarias, artesanias e companhias, parece haver uma outra escolha que prevalece e que nos apresenta e reapresenta comida sem sal, trabalho maçante e pessoas chatas. Ironias da democracia — governo do demo.

Mas nós somos o povo, o demo. Cada um de nós é o próprio demônio. Escolhemos, contra-escolhemos e sobrepomos escolhas. Somos o que é firme e o que é convencido. Fazemos propaganda — por vezes, enganosas — para nós mesmos. Prometemos o que não podemos cumprir. Imprimimos panfletos e damos a impressão de afetos; distribuímos, santos de pau oco que somos, os santinhos — ironias do demo.

Tudo é engodo. Tudo é engano. E nós ainda terceirizamos a carga, assim como terceirizamos o cargo: "Bando de políticos corruptos!". Corruptos somos nós. Corrompidos, rompidos, partidos em nossas escolhas, querendo uma coisa agora, e a coisa oposta cinco minutos depois. Subornamos e pagamos propina a nós mesmos, na forma de salário e lamentos. E concluímos tudo isso em surdina, pois o voto é secreto, apenas de nosso governo — ironias do demo.

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7 comentários:

vanessa cony disse...

Muito corajoso!!
Eu particularmente,que ninguém nos ouça,detesto votar!Sei que isso chega a ser um despropósito já que tanto se lutou por isso.¨Democracia ¨,tsctsc.
Bem, seu texto é corajoso,interessante e reflete toda essa engrenagem a qual estamos submetidos.Realmente é um engano.

Marilza disse...

Eduardo,
como sempre PERFEITO!

albir disse...

Humanos, Edu, humanos! Miseráveis e fascinantes. Talvez fascinantes porque miseráveis.

fernanda disse...

E quando você postou o texto, O Tiririca ainda nem estava eleitíssimo. Ironias da democracia, palhaço do povo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Vanessa, desconfio que nós próprios somos a engrenagem. :)

Tô eleito, Marilza? :) Brigadim.

Humilde humo humano, Albir. A terra fascina mesmo. :)

É, Fernanda... foram 1.353.820 escolhas. Ironia milionária.

Dennison Iris disse...

Oi, Euardo! Belo Texto! Lembra de mim? Nossa o tmpo muda tudo de um geito q a gente num espera, eu q queria ser escritor, hoje estudo engenharia eletrônica, mas continuo gostando de crônicas, inclusive das suas. Um abraço!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Brigadim, Dennison. Há quanto tempo! Que surpresa boa! Quer dizer que você fez praticamente o percurso oposto ao meu, que comecei e desisti da Engenharia Elétrica? Mas o que importa é seguir nosso destino, seja com palavras, seja com circuitos. :)