domingo, 10 de outubro de 2010

TÍQUETES DE TEMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Esta é uma crônica de auto-ajuda, ou seja, trata de como ajudei a mim mesmo, que é tudo que o gênero tem a oferecer. Ainda que a auto-ajuda possa inspirar os outros — os leitores — a ajudarem a si mesmos, não se deve esperar tanto desta crônica. Isso porque aquilo em que eu mesmo precisava da minha ajuda não é um problema para a maioria das pessoas: o excesso de tempo livre. As pessoas, de uma maneira geral, padecem do mal oposto: a falta de tempo. Então esta é uma crônica que não interessa a quase ninguém e que trata de como inventei os tíquetes de tempo. Aliás, deixa eu dar uma conferida no Google para ver se inventei mesmo esse negócio ou se ele já existe...

É, pelo visto sou mesmo o inventor dos tíquetes de tempo, tanto em português quanto em inglês — time tickets, ou simplesmente time tkts. Quando invento as coisas, gosto de pensar, fantasiar, que as inventei de uma hora para outra, do nada. Mas não foi bem assim. Eu já vinha perseguindo os tíquetes, sem saber que estava fazendo isso, há muito tempo.

As coisas devem ter começado pela época em que percebi que não poderia ter uma única carreira, que não conseguiria concentrar toda a minha energia num emprego de 8 horas, fazendo apenas uma coisa. Foi um reconhecimento importante, mas a forma que encontrei para lidar com isso não foi nem um pouco sábia. Eu me dedicava a alguma coisa, integralmente, enchia o saco alguns meses depois, abandonava aquilo e ia me dedicar a outra coisa por alguns novos meses até encher o saco de novo. Esse bem que poderia ser o resumo da minha vida desde os meus 16 anos. E a consequência foi a insconstância em empregos e em rendimentos na conta corrente. Aos 39 anos, eu sou o legítimo possuidor de NADA: não tenho emprego fixo, carro, casa, nada de nada. O bem mais valioso que posso chamar de meu é esse computador que estou usando agora.

Então, há uns quatro anos, li um livro chamado Os Novos Renascentistas. Nesse livro, a autora, Margaret Lobenstine, diz que nós — os dispersos — não somos tão maus e tão sem jeito assim. Que, inspirados nos renascentistas, homens de múltiplos talentos, poderíamos ter uma vida de realizações e sucessos, próspera até. Foi esse livro que me ajudou — olha a alter-ajuda aí, gente — a pensar na possibilidade de desenvolver várias carreiras ao mesmo tempo, em vez de ficar pulando de uma para outra de acordo com as circunstâncias. Estava decidido: eu seria professor, astrólogo e escritor, simultaneamente, e me dedicaria à música no tempo livre.

A situação melhorou. Pelo menos eu parei de achar que deveria ter uma carreira só, o que é uma tortura para uma pessoa com múltiplos interesses. Mas aí descobri um problema que era só meu: eu não tinha disciplina suficiente para me dedicar a meus vários interesses. Eu era como um dos poetas da canção Guardanapos de Papel: "fazem quatrocentos mil projetos, que jamais são alcançados, cansados, cansados". Como cansa a vida de sonhos que quase nunca se realizam, ainda mais quando, de vez em quando, seu extrato bancário mistura as bolas do festival de Parintins e se transforma num Caprichoso Encarnado, vermelhinho da silva.

Foi nesse estado da civilização eduardiana que decidi tomar conta da minha vida, ou seja, do meu dia-a-dia. Estabeleci as coisas que eu fazia por mim mesmo que mais me faziam sentir bem — caminhar e meditar — e reservei-lhes um horário em meu dia, três horas todo dia — sábados, domingos e feriados inclusos. Em seguida, listei e distribuí as obrigações: deixar criança na escola, fazer compras, comer, tomar banho, responder e-mails, lavar roupas e pratos, etc. — mais três horas. Descontando oito horas noturnas de sono, e uma hora de cochilo após o almoço, sobraram-me nove horas. Dessas, três e meia, à noite, não aloquei para nenhuma atividade específica: tempo para alguma reunião noturna, para a família ou para alguma atividade extra. Restaram-me cinco horas e meia para os meus tíquetes de tempo.

Peguei uma folha de A4, resto de uma má impressão, e a dividi em oito pedações iguais. Três pedaços de uma hora e cinco pedaços de trinta minutos. Os pedaços de uma hora foram marcados, na sua face em branco, com minha principal atividade relativa a cada uma de minhas carreiras: professor, astrólogo, escritor. Três pedaços de trinta minutos também foram atribuidos a essas áreas, mas a atividade específica anotada pode variar de dia a dia ou de semana a semana. Os dois pedaços restantes de trinta minutos ficaram para a música e para a espiritualidade.

Então todo dia, por duas horas e meia durante a manhã e por três horas durante a tarde, eu uso meus tíquetes de tempo da seguinte maneira. Escolho um para ser o primeiro e configuro o alarme para tocar dez minutos antes do final do tempo do tíquete. Se é um tíquete de uma hora, o alarme toca em cinquenta minutos. Se é um tíquete de meia hora, o alarme toca em vinte minutos. Tenho então uns cinco minutinhos para encerrar cada atividade (ou organizá-la para continuar posteriormente) e outros tantos para esticar as pernas, dar uma mijada, beber uma água. Escolho então o próximo tíquete, repito o processo, pego mais um tíquete, depois outro, até utilizar todos.

Parece brincadeira de criança, ou frescura de burocrata, mas com esse simples procedimento — meus tíquetes de tempo — tenho conseguido, nos últimos meses, encaminhar simultaneamente uma série de interesses: coordenação de um curso a distância; escrita de meu primeiro romance, além da crônica semanal; interpretação de mapas astrais e realização de consultas astrológicas; aulas de escrita criativa e de astrologia; composição, organização e ensaio de canções; formação em uma prática terapêutica; edição deste site; etc.

Estou levando a coisa na base da filosofia dos Alcóolicos Anônimos — "Só por hoje" —, mas os resultados já começam a aparecer e a me deixar bem esperançoso de que é mesmo possível fazer tanta coisa simultaneamente, com grande senso de realização pessoal e tendo sucesso no que se faz.

É assim que estou me ajudando. Um dia de cada vez. Usando meus tíquetes de tempo.

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11 comentários:

Ana Campanha disse...

Poxa, já anotei a idéia e vou tentar implementar no meu dia a dia! Será que tenho que pagar royalties?

*Fê* disse...

Foi feito p/ mim!!!
Adorei!
Bjo

Marisa Nascimento disse...

Eduardo...
A "urgência de te ler" veio ao encontro dos tíquetes de tempo. Acho que vou encomendar alguns. Você precisa urgentemente patentear a ideia...
Beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, o pagamento é contar o resultado. :)

, então você já pode dizer que é a musa inconscientemente inspiradora de uma crônica de auto-ajuda. :)

Marisa, que bom tê-la de volta. Confesso que nem ia escrever a crônica dessa semana, mas lembrei de sua saudade e escrevi. :) Encomende aí de você mesma alguns tíquetes de tempo.

vanessa cony disse...

Que maravilha!!!Nosa pq não pensei nisso antes?kakakaka
Brincadeira.Gostaria de ter essa disciplina!Tenho certeza que assim as coisas funcionam...
Sou muito bagunceira,acho que não consigo.
Beijocas.

fernanda disse...

Uai, acho que vou aderir. Pode ser útil para mim que também sou uma pessoa de mil e uma atividades. Talvez se eu usar os tíquetes do tempo não seja necessário abandonar o jornalismo (que é uma ideia que me ocorre de tempo em tempo, embora eu goste da profissão).
Bjos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Vanessa, sem um pouco de bagunça, a disciplina é muito chata. ;)

Se gosta do jornalismo, então tíquetes de tempo nele, Fernanda. :)

Carla Dias disse...

Acho que vou adotar seus tiquetes de tempo para o ralo tempo que tenho para mim mesma. Talvez assim eu consiga realizar algumas coisas que estão nas gavetas dos meus desejos. Beijos!

Fernanda disse...

adoro essa coisa de procedimento, adoto isso no meu dia a dia, não assim de forma tão disciplinada como você, mas essas coisinhas assim toda padronizadas me fascinam e funcionam sim!

outro dia li um post seu que falava da mulher de libra, estou aguardando o dia que você vai escrever sobre as mulheres de capricórnio hehehe

bjs!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"Gavetas do desejo"... Bela expressão, Carla. Tíquetes de tempo nelas! :)

É, Fernanda, fascinam porque funcionam. :) Quanto à crônica das mulheres de Capricórnio, melhor deixar quieto... ou então fazer logo as crônicas dos outros 11 signos. :) Aliás, daria um bom livro, né?

Rosanna disse...

Eduardo,
Adorei!!!!!!!!!!!!!
Já vou implementar. Descobri tb que sou muito dispersa e isso vai me ajudar muito agora que estou sabendo cada vez mais o que quero.
E simplesmente adorei a idéia.
bjs