segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O CANDIDATO - Parte Final
>> Albir José Inácio da Silva

CONTINUAÇÃO DE:
O CANDIDATO I
O CANDIDATO II
O CANDIDATO III

- Salve, reverendo, a paz seja convosco. Venho pessoalmente comunicar-lhe minha candidatura, em homenagem à parceria que sempre desenvolvemos no interesse dos nossos irmãos.

Habacuque suspirou e com um gesto esvaziou a sala de pessoas, câmeras, microfones. Tinha cada vez menos paciência para Adailton. Nunca lhe tivera amizade. Lembrava-se do tempo em que precisou de sanduíche fiado naquele balcão nojento, e isso nunca veio sem humilhação. A situação se inverteu e agora era o comerciante que vivia implorando seus produtos milagrosos. Toalhinhas, rosas, água doce do Rio Jordão, água salgada do Mar da Galiléia, livros, revistas e outras mercadorias abençoadas e de grande procura pelos fiéis. Acontece que agora as próprias filiais da IMIV estavam cuidando da distribuição e ele não precisava de Adailton.

- Pára com essa palhaçada de reverendo e paz, que eu sei que o seu negócio é dinheiro. Sei que você não acredita em nada mas é capaz de se arrastar pra vigário e bruxo se isso lhe der alguma vantagem. Sei que você é corrupto como os outros, e a nossa igreja já tem candidato. Portanto não venha me pedir apoio político e seja breve que eu tenho negócios a cuidar.

E o candidato foi despachado como se enxota um cão. Não era tão simples assim, ruminava Adailton. Tinham negócios, tinham contratos. Aquele sanguessuga era bem mais humilde quando precisava dele, quando implorava que aceitasse suas bugigangas na loja. Agora cuspia no prato em que comeu. Quantas vezes fez reunião no armazém quando a chuva arrastou o barraco que servia de igreja? Quantas vezes pediu dinheiro emprestado? Quantas vezes pediu comida naquele balcão? A vida haveria de fazer justiça! Ali não voltaria mais. Tinha os seus clientes, o seu povo, a sua gente. Os seus eleitores.

Durante a apuração dos votos, a birosca estava lotada com mais de trinta pessoas. Comprava-se, comia-se, bebia-se e havia até comemoração no ar. A sempre rigorosa contabilidade de Adailton esquecia hoje uma cerveja aqui, uma linguiça ali. Havia até um barril de pinga com etiqueta de zero oitocentos na torneirinha. De repente, silêncio no ambiente e olhos na telinha, o repórter anunciou:

- Adailton da Biroska: ... sete votos.

O silêncio continuou por muito tempo, e só foi quebrado pelo próprio Adailton, polido como não costumava ser, mas apontando a porta da rua:

- Por hoje agradeço a presença de todos. Amanhã abriremos no mesmo horário.

O ambiente se esvaziou. Uma a uma, as peças religiosas foram retiradas da parede e amontoadas em frente à birosca. Os fregueses, que saíram mas não foram embora, rodearam os objetos sagrados: livros, santos, guias, contas, ervas, cruzes, toalhinhas, garrafinhas e coisas que ninguém sabia o que era. Olhos arregalados acompanharam as chamas, mas ninguém teve coragem de protestar.

Para o sobrinho universitário, chamado às pressas e muito espantado com a fogueira, Adailton explicou que agora era comunista. Não que pretendesse dividir com vagabundo nenhum o seu patrimônio. As coisas que conseguira juntar com muito esforço e alguma esperteza eram suas e ninguém ia tocar. O que gostava no comunismo era a falta de religião. Naquela parede ali em frente, já livre das quinquilharias da fé, o menino deveria pintar a foice e o martelo, e escrever a frase de Marx: A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO. Este seria, esclareceu Adailton, o mote de sua campanha para as próximas eleições. E completou, erguendo o punho fechado:

- Hasta la victoria, siempre!

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bom, Albir. Vamos ver como nosso Adailton se sai nas próximas croniqueleições. :)