segunda-feira, 11 de outubro de 2010

LABUTA >> Kika Coutinho

Não é regra, até porque as regras vão todas para baixo do tapete quando parimos, mas, em geral, passamos por um fluxo que funciona de modo muito parecido para as mães.

No início, bem no início mesmo, dá um pânico tão grande de tudo que você quer logo voltar ao trabalho para descansar um pouco e, quem sabe, viver um pouco como gente normal.

Daí passa o tempo, você não volta porque mãe de recém-nascido não é gente normal. Quando vê, o bebê já está gostoso com seus 4 meses, rindo pra lá e pra cá, encantando o mundo todo. Você passou para a fase 2 na qual, decididamente, não quer voltar a trabalhar. Nunca. Nunca mais na vida. Pra que trabalhar, pra que aquelas reuniões, aquelas planilhas? Meu Deus, tudo o que eu precisava está aqui! Abandono compras, salário, sapatos, até cortes de cabelo, sou uma pata e só quero pôr meu filhote embaixo da minha asa. Nada mais é necessário, punto e basta.

Nessa fase, se você puder, não trabalhará. E curtirá o seu bebê intensamente. Vão ser pracinhas, parquinhos, tapetões, roupinhas, mamadeiras e fraldas dia após dia. E você experimentará uma felicidade inédita. É a calma e a alegria clara da maternidade. Tudo o que eu vivi até agora foi bobagem. Até que, um dia, sente uma coisa estranha ao ver seu sapato de salto alto no armário. Uma coceguinha de lembrar que você já viveu maquiada e sem moleton. Já? Já — responde se olhando no espelho, entre um cocô e outro. Logo, pensa na sua conta bancária, vai imaginando como seria poder, de novo, comprar uma blusa, um sapato, um livro, quem sabe comprar aquele DVD que você nem sabe se quer, mas, enfim, pode comprar, sem dever nada a ninguém. Nossa, como era bom ter meu dinheiro. Eu já tive dinheiro caindo na minha conta, mês após mês, livremente? Já? Já. Daí, de repente, você sente uma vontadezinha de voltar a trabalhar. E, se pode, volta. Mas sofre.

Voltar ao trabalho é como ser jogada num gira-gira, daqueles de criança, de repente. Uooooou, você quer gritar, quando está lá, naquele escritório alucinante, enquanto todo mundo fala, pergunta, opina, decreta, grita, chora... Quanta vida, quanta gente! É um choque após outro, e você, em silêncio, não consegue parar de cantarolar: "Fui morar numa casinha-nha, enfestada-da de cupim-pim-pim..."

Leva tempo, suor e lágrimas essa adaptação.

Mas, quando você menos espera, pode achar bom. É uma dor boa, uma tristeza alegre, uma contradição das piores, mas é o que somos.

Enquanto estamos no trabalho, só conseguimos pensar na fofice que nos espera em casa, na risadinha, no cheirinho, nos gritinhos, até nos tapas que o bebê nos dá na cara. Sentimos uma saudadesinha doííída. Daí, chega em casa e aperta a criança quase até machucar. A felicidade é dobrada quando vemos que causamos igual alegria naquele serzinho: Ele me ama, ele me ama — a gente se vangloria em êxtase. Mas passa um tempo e, de repente, no meio da troca de fralda, a gente lembra daquela planilha do trabalho, daquela reunião. Nossa, estou ficando louca? Eu queria tanto estar em casa, por que não paro de pensar no trabalho? Onde desliga o modo profissional? Apagaram o modo mãe? Hã?

É. Nunca acaba. A gente vai aprendendo onde aciona uma e onde fecha a outra, mas vive confundindo, trocando, esquecendo. O modo esposa, vixe, a gente até perde a chave. Demoooora a lembrar. Mas tá aí. Em algum lugar.

Entre o caos das descobertas, dos medos, da saudade, dos encontros e desencontros, a gente descobre as camadas de força, coragem e alegria de qual todas nós — todas — somos feitas. É o mundo mágico (e caótico) da maternidade invandindo cada pedaço de quem somos. Seja bem-vindo.

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Apenas mais uma de mãe. Com esse humor que eu adoro. Tudo de bom para um início de segunda-feira. :)

fernanda disse...

Antes de ser mãe eu vou precisar aprender a confiar nos outros, senão, nunca mais vou calçar sapato de salto e ter dinheiro na minha conta. Não consigo dividir nem minhas tarefas de trabalho, imagine dividir os cuidados de um filho? (sim, sou paranóica)(coitado do filho que vou ter)....rs
Bjos

albir disse...

E segue o curso intensivo de maternidade. Nem precisamos apostilar as crônicas porque já estão no livro. Aguardemos os próximos volumes: 1ª infância, 2ª, adolescência, etc.

Fernanda disse...

Kika, adoro seus textos sobre a maternidade, faz a coisa parecer mais leve até do que imagino ser :)

bjs!