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NO MOMENTO DO VOTO [Maria Rita Lemos]

Finalmente, chegaram as eleições. Bom que não tenhamos mais que suportar a tortura do horário político, com tipos tão caquéticos que, em determinados momentos, a gente nem sabia se aquilo era uma propaganda política séria ou um programa humorístico de péssimo gosto. Ou, ainda, algo surreal, um circo dos horrores com personagens bizarros prometendo o que todos sabem ser impossível.

Devo confessar que algumas dessas candidaturas esdrúxulas não me surpreenderam, até porque os cargos eletivos podem ser disputados por qualquer cidadão que tenha o nome limpo na praça. Perdão, nem mesmo isso é preciso. Até o momento em que escrevo essa matéria, a lei da “ficha limpa” continua com o placar empatado, isto é, nem precisa ser íntegro e probo para ser candidato. Basta existir e estar filiado a partido político. Quem não tem ficha limpa continua por aí, prometendo, dizendo e se achando, com todo o direito que a democracia (?) lhe confere.

Infelizmente, em nosso país, qualquer pessoa que se destaque em algum picadeiro, ou melhor, em alguma área, pensa em ser político. Parece uma praga, uma peste, uma doença incurável, mas é real. O sujeito nem mesmo consegue uma vaga para ser palhaço, mas filia-se a um partido, vai lá, faz qualquer palhaçada nesse circo que é o horário político... e o pior é que consegue se eleger! Fica ainda pior que está, usando as palavras do mesmo, porque não só se elege como puxa para si votos da legenda. Leva consigo gente sem qualquer escrúpulo que aí está, esperando exatamente isto, escondida atrás desses palhaços e “mulheres pêras” da vida para voltar a desfrutar das benesses do poder.

Fiquei muito triste ao ver, nesses últimos dias do horário eleitoral, a atriz de quinta categoria de filme pornô, que prega o “voto com prazer” semivestida com roupas íntimas. Minha tristeza aconteceu não por suas vestes, que se alguns têm o direito de se vestirem de palhaço ou de boxeador para angariar votos, ela tem direito de se despir e fazer voz de alcova, com fundo musical de ooohhhs e aaaahhhs.

Nem todos os meus leitores e leitoras sabem, mas, em 1995, quando deputada federal, Marta Suplicy foi autora do projeto de lei 1151, que visava regulamentar a união civil entre pessoas do mesmo sexo, há poucas semanas aprovada na Argentina. No Brasil, nunca chegou a ser votada em plenário. Decepcionei-me porque tal candidata falava do “casamento gay”, totalmente desprovida de conhecimento sobre o assunto, queimando um trabalho sério feito com persistência por militantes igualmente sérios.

Obviamente a mulher da alcova não vai conseguir, pelo menos não ela. Mas vai levar votos de muitas pessoas incautas que, prestes a ver uma luz no final do túnel, vão digitar seu número e confirmar. O que é pior. Como essa mulher, o “maluco- beleza” e o palhaço sem picadeiro pensaram que a política era a cara deles, o palco ideal para quem está se aposentando ou já não vê perspectiva profissional que não seja ser usado por partidos e figurões carimbados, que usam “laranjas” porque não podem mostrar suas caras sujas.

O mais triste de tudo isso é que, provavelmente, o palhaço terá um número expressivo de votos, que talvez o levem realmente à Câmara Federal. Arrastando atrás de si, é claro, o séquito de puxa-sacos e mandantes, aos quais ele obedecerá cegamente, no voto dos projetos e tudo o mais.

Aliás, agora que você está me lendo, já exerceu ou vai exercer seu direito cívico, cabe, então, o lembrete: não esqueça sua colinha, porque a batalha vai ser longa: deputado estadual, federal, dois votos para senador(a), governador, presidente. E confirmar a cada voto, apertando o botão verde.

Queridos leitores e leitoras, voto é algo muito importante. Imitando meu pai, que punha sempre seu melhor terno para votar, até mesmo quando a idade o desobrigava disso, ponha no corpo sua “roupa de missa” e no rosto a seriedade de quem sabe que o destino do país está em nossas mãos. Depois, vai estar na mão dos que elegermos, e aí não adianta reclamar. Não importa se nosso candidato ou candidata ganhe ou não, o que vale é ver nossa cidade, estado e país em boas mãos, prosperando e crescendo em saúde, educação, transportes, segurança, enfim... são tantos os itens a serem pensados que não dá para confiar em gente que vai ao horário eleitoral apenas para dar seu recado e nos fazer rir!

A questão é séria, a hora é agora. Voto é como casamento, também dizia meu pai, se desmancha até na porta da igreja (ou na boca da urna). Vamos entrar em nossas sessões com seriedade, documentos e “colinha” na mão, tendo em mente que estamos fazendo o melhor para nossa cidade, estado e país. Pode não ser o nosso futuro, talvez, mas com certeza será dos nossos filhos, netos, bisnetos. Que vençam os melhores, e que Deus nos guie no momento da escolha.

Comentários

Debora Bottcher disse…
Amém. O horário eleitoral é mesmo bizarro, mas pra mim o maior problema é essa sensação de estar sem candidato, sem bandeira, sem escolha que me dê qualquer vislumbre de que meu voto não será jogado no vão de apenas cumprr um dever cívico, sem qualquer valor real... Beijo, moça.
É, Maria Rita... Confesso que estou no time dos desiludidos: apenas justificarei meu voto. Mas devo também dizer que seu belo texto quase me comoveu. :)
albir disse…
Maria Rita
Belo texto, como sempre.
Mesmo os que acreditam em paraíso, não acreditam que o paraíso seja aqui. A democracia também não é o paraíso. Como dizia Churchil, a democracia é "o pior dos sitemas de governo, com exceção de todos os demais". Mesmo com candidatos e votos ruins, porque oriundos de nossa sociedade sem saúde e sem acesso à informação, acho que ainda temos o que comemorar. Por exemplo: o fato de as lideranças políticas desse país - gostemos delas ou não - não estarem sendo exiladas, torturadas ou suicidadas nos porões dos quartéis; a ausência de qualquer forma de censura; as universidades livres e sem intervenção; a inexistência de atos institucionais, decretos-leis e outras excrescências que tais.

Ainda acho que seja uma festa. Não uma festa no paraíso - mas uma festa.

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