sexta-feira, 1 de outubro de 2010

TÁTICA MODERNA DE PERSUASÃO >> Leonardo Marona

Era tarde e quente em Botafogo. Frase redundante. Sempre é tarde, normalmente, tarde e quente somente quando eu preciso sair de casa e, em Botafogo, sempre é tarde e quente. Minha charrete tinha me deixado na mão mais uma vez. Eu havia lanhado a lateral numa murada de concreto e a lanterna direita era só cacos. Ali, bem em frente ao cemitério São João Batista, parei para trocar a lanterna e, assim que parei, me arriou também a bateria. Nisso já seriam duzentinhos. O velho Mendonça, como já me conhecia de outras vezes, achava que podia me enrolar. Que um sujeito que vai parar tantas vezes numa lanternagem tem todo o direito de ser enrolado. Me indicou um amigo, Aristides, que me faria a bateria e a lataria por uma pechincha, e ainda me daria um alinhamento de cortesia.

Dois homens de macacão azul que não conseguiam falar devagar o suficiente para eu conseguir entender o que diziam - e com o tempo vi que nem mesmo queriam - me ajudaram a empurrar o carro. Uma boa técnica para se manter uma conversa sem nenhum atrito: ninguém entender nada. A oficina do Aristides era bem ali do lado, dobrando a esquina. Lá em cima, o sol ria da minha cara. Aqui em baixo, não tinha muita graça.

Aristides era o tipo de homem que usa muito o bico, nunca olha para você quando fala, e estufa muito a barriga quando está pensando na melhor maneira de dizer que você vai sair da sua oficina sem as calças. Foi um “bom dia, amigo, o Mendonça me indicou o senhor – Tião, porra! O monza azul tá travando a passagem! Sim, o Mendonça, claro, vamos sentar”, e então ouvi histórias fabulosas sobre ventoinhas, bielas-manivelas, reparos, juntas, bengalas, agulhas, bóias e que, em suma, o óleo tinha-se tornado uma pasta marrom dentro do cárter e eu precisaria de um novo bujão de drenagem. Quando alguém negocia contigo e você só consegue entender as conjunções, precisa pensar rápido numa desculpa ou vai acabar com a cara amarela e a carteira vazia.

Acho que não gostei do velho Aristides desde o início porque suava demais e gostava de apertar as mãos das pessoas sem parar, depois de enxugar a testa. Gritava com seus funcionários sempre que eu perguntava sobre alguma coisa que não tivesse entendido. “Infeliz, corre! Amanhã é que essa tinta vai secar se continuar nessa moleza!”. E voltava a rabiscar meu orçamento.

- Olha, eu acho que tem também alguma coisa com o porta-malas – eu disse. - Ele não fecha mais.

- Tião, vê a mala do gol verde! – ordenou o velho sem me olhar. – Meu cacete, cadê esse animal!?

Largou o bloco na bancada e foi até meu carro, praguejando com a carranca invocada. Fui ver o que ele tinha escrito no bloco. Procurei pelo cifrão. Já estava em mais duzentos, sem mão-de-obra. Dobrei a cara, segurei as calças e fui atrás do velho. Quando cheguei, Aristides estava martelando violentamente o trinco do meu porta-malas com uma marreta.

- Assim o senhor não tá amassando ainda mais, Seu Aristides? – perguntei baixo.

Ele apenas se virou. Depois se voltou novamente para o ferro do carro, deu mais duas ou três marteladas, se apoiou no joelho, subiu as calças, e então começou a esmurrar a porta tentando fechá-la, dessa vez com as próprias mãos.

- Realmente... Eu já fiz tudo isso... Seu Aristides, quanto vai sair a mão-de-obra do resto?

- HEIN?! – ele esganiçou, e continuou esmurrando a porta, um barulho infernal, sem conseguir fechar.

- EU PRECISO SABER SE TENHO DINHEIRO SUFICIENTE! – eu gritei.

Ele se virou para mim com cara de susto. Somaram-se às batidas do velho um barulho de maçarico e um motor sendo testado. Um grito repentino e muito agudo de “Ei!!!”. Seu Aristides parou de bater o porta-malas e recuou com cara de pavor, apertando firme uma mão contra a outra. Abriu a mão direita.

- Puta merda! Perdi um pedaço do dedo! – ele disse olhando o sangue jorrar do seu dedo médio, que agora tinha só uma metade, como de uma mangueira. Depois olhou pra minha cara.

Os mecânicos não se comoveram. Um trouxe um pano sujo, que Aristides enrolou no dedo mutilado, ainda gritando “merda!”, “inferno!”, “porra, olha isso aqui!”, “perdi meu dedo!”. Outro mecânico soltou uma gargalhada por trás da marmita de orelha de porco com inhame. O resto continuou martelando, pintando, aparafusando, engraxando, soldando, morrendo.

Enquanto Aristides lavava o ferimento com sabão de glicerina num banheiro minúsculo que ficava do lado de dentro de uma porta falsa atrás do caixa, eu fui até a mala do meu carro e subi a porta. Lá dentro encontrei metade do dedo médio do homem.

- Seu Aristides, será que não é melhor guardar o pedaço que caiu? – gritei.

- HEIN?! – um eco vindo do banheiro.

Um homem que estava encostado no balcão com cara entediada, sobrancelhas levantadas e óculos de muito grau na ponta do nariz, provavelmente sócio do Seu Aristides, olhou para mim e disse, tirando os óculos, dedos cabeludos:

- Nah! Isso aí você pode até costurar... Mas morreu já – então olhou para o banheiro. – Ari, você não vai jogar sapóleo nessa merda, pelo amor de deus...

- Ah! Ah! Ah! – gritava Aristides – Olha aqui – e mostrava o dedo para o sócio – Sem o dedo...

Esperei uns dez minutos enquanto o sócio entediado enrolava um pedaço de flanela no que tinha sobrado do dedo de Aristides. Estava pensando em como diria a ele que não tinha nem mesmo o do serviço, e ainda nem tinha sido calculada a mão-de-obra.

Aristides saiu detrás do balcão segurando a mão enrolada numa flanela já suja de graxa e agora também encharcada de sangue. Dobrava a cara exageradamente e mostrava para mim sua mão: “Olha, sem o dedo... Você também, fica tirando minha atenção”.

Sem saber o que fazer, abri mais uma vez a mala e peguei o pedaço do dedo que estava ali dentro com a ponta do dedo que eu ainda tinha na mão, o que me deixou feliz por dois segundos e meio, enquanto pensei no assunto.

- Olha... – estendi o pedaço de carne com unha para o velho – De repente ainda dá pra colar...

Ele me olhou e dobrou a boca.

- Tá doendo muito? – eu perguntei.

Ele me olhou e dobrou a boca outra vez. Depois me deu as costas e foi de volta para trás do balcão. Eu não sabia se ia atrás dele ou se me arrancava com o carro dali. Depois lembrei que o carro não tinha bateria e fui atrás dele.

- O orçamento... – ele disse lambendo o dedão e enfiando um carbono no meio de dois papéis. - Bom, o trinco foi perdido. A mala não fecha mais porque a traseira foi batida e consertada porcamente. A gente vai precisar trocar o pára-choque traseiro... Mais o óleo, a bateria, o trinco novo, o bujão de drenagem... cinco, vai três... quinhentos e setenta e sete... dez, desce dois... setecentos e quarenta e nove reais... O alinhamento eu faço de cortesia... Uuuui, meu dedo, olha! Sem o dedo...

- Isso tudo já com a mão de obra... – falei baixo, querendo convencer a mim mesmo, mas minha garganta tinha se fechado, de modo que apenas umas palavras saíram com som. Tossi. - Posso pagar em quantas vezes?

- Eu devia dizer à vista... Pra poder consertar logo isso daqui - ele disse arrancando com raiva o pedaço do seu dedo da minha mão. – Mas pode me dar dois cheques... Ah, sim! A mão-de-obra... Com isso são mil duzentos e nove reais...

- Tudo isso?!

- O trabalho é todo manual...

Como eu poderia simplesmente dizer que não ia mais concertar o carro ali, que não tinha o dinheiro para isso, se o homem tinha perdido o dedo na minha frente e agora me olhava como se eu fosse culpado por ter uma charanga daquelas? Olhei para os dois lados, me virei e disse:

- Vou pagar em três vezes.

Ele não me olhou, como de costume. Apenas bufou e se virou de lado, como se estivesse me fazendo uma caridade.

- Tião! Entra aqui com o gol verde! Ai, ai... Eu perco o dedo e ainda tenho que dar colher de chá pra garotão...

Enquanto esperava a nova bateria ser colocada, olhei a capa do jornal na frente de uma banca: “Escândalo no governo derruba ministra da Casa Civil". Virei e vi um mendigo mostrando uma fratura exposta e infestada de moscas na perna, em troca de esmola, para um pai que tapava os olhos da filha e lhe jogava umas moedas para que se afastasse logo. Fui até um boteco, desisti de sentar quando vi a grossa camada de gordura no banco, e pedi um café, recebendo de volta uma água suja com resíduos boiando no fundo. Me veio de repente à cabeça que quase tudo no mundo é como naquela oficina: alguém tem sempre que chorar por um dedo perdido para que você se sinta culpado por isso e continue dando dinheiro, seja ele um mendigo, um balconista de bar, um dono de oficina ou um político. Vai ver somos todos culpados, por continuarmos vivendo dia após dia desse jeito, para termos do que falar.


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Isso é o que chamo de vida crua, Léo. :)

Anônimo disse...

Leo, adoro suas histórias... consigo sentir o calor e sentir o cheiro da oficina...rs. Tá ótimo.
Mary