terça-feira, 19 de outubro de 2010

VER OU NÃO VER, EIS A QUESTÃO
>> Clara Braga

Recentemente assisti ao filme Janela da Alma pela quarta vez. É, eu sou assim mesmo, quando gosto de um filme assisto até não aguentar mais. E quem já assistiu Janela da Alma sabe que esse é o típico filme que você não só pode como deve assistir várias vezes, pois cada vez que você assiste descobre algo novo e muito interessante. O que chega até a ser meio estranho, já que se trata de uma espécie de documentário. Nada contra, mas documentários normalmente não fazem parte da minha lista de filmes para assistir várias vezes.

Durante o filme várias pessoas, famosas ou não, vão falando como é a vida deles com o chamado "problema" de visão. E os problemas variam do mais grave, no caso a cegueira total, até ao simples fato de ter que usar óculos para ver melhor. Os depoimentos são lindos, muito interessantes mesmo e acho que me identifiquei com vários deles pelo simples fato de também usar óculos, mesmo meu caso não sendo nem de perto um dos mais graves.

Logo que eu comecei a usar óculos não gostei, uma simples questão estética, me olhava no espelho e não gostava. Mas aos poucos, e por causa de vários dos depoimentos desse filme, eu fui me conformando com a idéia e hoje em dia eu já vejo essa situação com outros olhos, se é que vocês me entendem. Afinal, sempre que eu coloco os óculos e vejo tudo nos mínimos detalhes é uma nova surpresa, é como se eu pudesse ver pela primeira vez todo dia. Deixei de achar que eu tenho "problema" de visão, afinal, como eu posso chamar de problema algo que muitas vezes para mim é uma solução? Pessoas com 100% da visão não têm a opção de ver apenas 80%, eu tenho!

Sempre que toco com minha banda toco sem óculos, gosto de ver que tem pessoas lá, gosto de ouvir as pessoas cantando, gosto de ver que estão dançando e curtindo, mas me incomodaria muito ver que alguém está me observando, e isso eu não vejo, não consigo definir nenhuma expressão, dependendo da distância não consigo saber nem se a pessoa está realmente olhando para mim, e isso me tranquiliza! Não só tranquiliza, mas me permite ouvir mais as pessoas cantando, pois é a forma que eu tenho de saber se eles estão gostando, e isso é único, afinal, em um mundo onde estamos sendo bombardeados por imagens a todo minuto é raro lembrarmos que para realmente ver não podemos usar apenas a visão.

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Clara, esse filme é mesmo lindo. E a sua crônica é um depoimento tão belo quanto os que se vê - e se ouve - no filme.

Rinaldo Morelli disse...

Este filme é um tratado, não só sobre visão mas também sobre imagem. quando eu dei aula de introdução à fotografia mostrava este filme na primeira aula, tipo para começar o assunto.
Todo munda tira os "óculos" em algum momento da vida para não ver direito...acho isto importante para a sanidade. Não nos esqueçamos dos cegos, que o fime também aborda, que têm uma outra percepção do mundo e da realidade.
Mandou bem Clara! Acho que cabe, e merece, uma continuação...

fernanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
fernanda disse...

Tenho 4 graus de miopia e sou da turma do Herbert Vianna: "Se tô alegre eu ponho os óculos
e vejo tudo bem. Mas se estou triste eu tiro os óculos eu não vejo ninguém". =)

albir disse...

Clara,
essa sua acuidade visual é bem característica daquele outro Braga, o Rubem.

Carla Dias disse...

Clara... Ainda ontem estava lendo um capítulo do livro do Dom Famularo sobre como ele descobriu que tinha de usar óculos. Já moleque, o pai dele costumava dizer que ele via a vida com óculos cor-de-rosa, porque queria viver tocando bateria. E no livro ele descreve essa descoberta de um jeito que não dá para dizer que usar óculos é coisa ruim. Isso porque ele fala, como você mesma acabou percebendo, sobre o benefício disso, do que a princípio parecisa incômodo, chato, mas que se tornou uma ótima ferramenta para você enxergar o mundo, a vida, de uma forma diferente.