sábado, 23 de outubro de 2010

O JOGO DEMOCRÁTICO
E SUAS FALSAS ESCOLHAS
[Sandra Paes]

Parece que o mundo ocidental está todo debaixo da pressão de escolher alguém para lhe ditar os caminhos. Falo das eleições no Brasil e nos USA.

Por toda parte, propagandas de “vote em mim” e uma série de discussões temporárias sobre o melhor partido. Pela internet, recebo diariamente incontáveis emails na tentativa de ganhar meu voto ou, pelo menos, uma adesão simpática.

Me pergunto: a quem serve tudo isso?

Desde que os gregos inventaram a democracia o mundo vem brincando de escolher representantes. Entre percepção e consciência, escolha sob a égide de tantas dúvidas, fica apenas uma possibilidade: você tem que escolher. Há que apontar alguém. O discurso histórico de que possíveis candidatos a cargos políticos têm que prevalecer para sustentar o Estado e seus poderes de decisões e normas na sociedade vigente nunca foi avaliado.

A crença básica é: o homem precisa de quem lhe aponte o caminho, quem lhe imponha regras e tarifas para justificar seu trabalho, sua produtividade e, por que não, dar um sentido à sua existência.

Dizem que o trabalho enobrece. Dizem que é importante guardar dinheiro e fazer economia. Dizem que é importante dar continuidade à educação da prole. Dizem que é fundamental investir na paz. E prometem segurança de todas as formas, da saúde ao território coberto de proteção.

Tudo mentira! E a gente, que lá no fundo pertence apenas ao partido humano da esperança, fecha os olhos, cruza os dedos e torce pra dar certo.

E o que seria “dar certo”? Uma justificativa numérica de que a economia vai bem, de que as crianças estão frequentando a escola, de que os hospitais lhe atendem quando você precisa e você tem serviço médico a seu dispor?

Mentira, tudo mentira!

Existe a tentativa de usar o dinheiro arrecadado de impostos para financiar algumas coisas. Todos os pedidos anotados? Todas as reivindicações devidamente encaminhadas para serem cumpridas com o prazo exíguo de quatro anos? Claro que não!

Sobra apenas uma dualidade cruel. Se você acredita que o Presidente vai melhorar o nivel da pobreza e distribuir melhor a riqueza entre os miseráveis, vote no PT. Se você acredita que o Estado é abusivo em gastos e poderes e pensa que é melhor deixar o homem administrar suas próprias empresas e serviços e acha que a privatização é o caminho, vote no PSDB.

Se você acredita que apenas com a guerra se constrói a paz, vote nos republicanos. Também se você pensa que o liberalismo de decisões e controle de gastos deve ficar mais na mão das empresas do que nas mãos do governo, o caminho é o mesmo: eleger um republicano. O próprio nome diz: o que conduz a coisa pública.

E o que seria mesmo a solução? Existe uma?

Os que precisam de pai — e isso parece ser a maioria —, o pai protetor, tipo que passa a mão na cabeça, lhe perdoa sempre os erros e até esquece deles, então você já sabe exatamente em quem votar.

Mas se você já acha que atingiu a maturidade, e sua relação com a Pátria é de respeito e cooperação, tanto quanto com sua familia, sua mulher ou esposo, seu vizinho, etc., você está sem partido e representação por que isso ainda não foi conquistado.

Política ainda reflete o estado de consciência de um povo e suas possíveis carências e necessidades. Conseqüentemente, a forma de resolver tudo isso.

O mundo todo ainda é infantil. Ainda brigamos para ter um Deus verdadeiro, ainda criamos confusão de todas as ordens em nome de manter nossas crenças, mesmo que seja no melhor time de futebol.

Parece que estamos todos aprendendo a escolher — se é que isso é assim mesmo —, porque onde há fome não tem cardápio ou menu pra se escolher um prato. Está cheio de casos como esses no planeta.

E no Brasil? Qual é a cara e a máscara desse país? Até porque quem vê cara, não vê coração, e todos nós sofremos com a falta de uma percepção mais clara e uma consciência mais realista. Ainda dormimos em berço esplêndido ao som do mar azul e à luz do céu profundo, e eleger significa acordar ou mudar de sonho? Não sei...

Caçaram meu direito de voto. Sumiram com meu título de eleitor. E isso é dever cívico. Como cumprir um dever cívico sem o documento oficial para fazê-lo?

A vida me colocou em outro espaço de escolha: a falta de escolha. E isso não está nas urnas. Ou é goiabada com queijo ou é pudim e ponto. Recusar sobremesa agora não pode.

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

É isso mesmo, Sandra: nos deixaram sem escolha, numa enorme cilada. Isso me dá uma certa agonia - e eu nem sou ligada em política. Mas o jogo eleitoral chega a dar náusea - e eu nem falo da propaganda, na TV, rádio ou internet, mas do dia a dia dos (dois) candidatos, que ou fazem trapalhadas ou encenações... Feio, triste, bizarro...
Eu torço para o depois, esperançosa (como todo mundo) no 'dar certo' que, pra mim, parece que nunca chega...
Beijo, bonita. Sempre bom te ler.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela reflexão, Sandra! Muita coisa pra pensar a partir dessas suas palavras.