sexta-feira, 22 de outubro de 2010

FORTALEZA É UM PÂNCREAS
>> Leonardo Marona

Fortaleza é uma noitada no prostíbulo Blue Angel na zona portuária com uma menina chamada Vitângela. Mas por que Vitângela, querida? Meu pai é Vítor, minha mãe é Ângela. Foi a depressão que me levou até lá. Foi para não estar lá que fui parar lá. Foi para não estar em parte alguma que estive ali. É isso: Fortaleza é não estar em parte alguma.

Não é preciso amar Fortaleza para se estar junto a ela, ou mesmo ela dentro de você. Ela é o morto de Sam Peckinpah, que carregamos pelos desertos até o monte de Sísifo, que são as dunas que aumentam de altura conforme cravamos nelas os pés descalços. Ah, Fortaleza, difícil te separar das ruas horríveis cheirando às entranhas dos bois magros, muito difícil tirar da minha visão aquela prostitutazinha pedindo um boquete toda coberta de feridas abertas, difícil ignorar a corrida pela perimetral com as calças em mijo, ou as pessoas sem alma escoradas nos parapeitos, jogadas nos meios-fios como índios anacrônicos. Eles olham como índio, não é maldade, é um senso de ancestralidade, você me disse e achei tão bonito que a desconfiança seja uma arma branca que nos mantenha à disposição das ruas dos sebos onde li Moreira Campos e chorei com os latidos dos cachorros intermináveis e onde, soube ali, morreu atropelado José Alcides Pinto, pobre diabo, padre e ninfomaníaco, mas no fim foi a solidão que me trouxe até ali, e solidão é no fim muito pouco, um estado comum: parar, se lavar e cometer pecados, mas ali não existe vergonha, dançava sozinho já com a cabeça inchada de lisérgico, à beira-mar ao lado de pescadores depravados e negros de Cabo Verde. As redes feitas de útero materno e a coluna como uma canoa – e do que se fugia afinal? A juventude fugia de mim e, Fortaleza, você foi o fim da minha juventude, com os parques abandonados para jovens com seus rollerblades, os vinhos de lata misturados com cerveja quente, os bares em dialeto abissínio, o silêncio exorbitante em minúsculas falas.

Muitas vezes, com calos nos pés, pensava à tarde se deveria ainda sentir amor. Se no fim das contas não deveria rir com o amor em vez de me fazer suficiente dele, ou por ele, ou para ele. Mas as pessoas de Fortaleza têm certamente uma relação diferente com o amor. Eles não vêem o amor. Eles têm o amor, como um pâncreas. Temos o pâncreas, mas não vemos o pâncreas. Portanto, Fortaleza é ter o pâncreas e não sentir o pâncreas, enquanto duvido se ao menos temos o pâncreas, fora de Fortaleza.

E achei que valia a pena. Não haver ruas, e haver pessoas. Que não são indígenas e não são brasileiros e não são estrangeiros, ao contrário, são tão íntimos, e mal se falam. Lindeza travestida em abraços de Iracemas vesgas, do meu amor por Iracema, do meu poema para Iracema, do meu poema para ti:

estou seco, meu amor, e já não te ouço.
estou triste, raso, alheio e dos pés calosos.
sei que não há tempo para perdão e flores,
mas um cacto, amor, não custa os olhos.

e haverá afinal algo que ainda pulse pálido
sem ar além do ar salino sob a terra frígida
abafada de vícios em retinas-cornucópias.
haverá sol no fundo de algo que ainda sinta
cotovelos secos que se esbarram em ruas novas,
onde há morte e fome, amor e mito, correria,
algo à procura da sombra de um coqueiro-memória,
existe sim qualquer coisa de gris por trás da esquina,
mais por dentro da pele, algo que talvez eu alcançasse,
se mergulhasse fundo e não sangrasse tanto
do mesmo sangue da vergonha do sangue ante-sofrido.

talvez do mergulho desavisado viesse o ovo
primordial de que tanto falam nossos queridos
caios carlos clarices césares concretos corvos
que por ti, por nós, o alimento escasso digerido
nas bocas cortadas de preâmbulos e escorbuto,
além de tudo o que das mãos me escorre frágil
e de mim não se fez, mas me segue pelas ruas
em passadas largas de “prestes ao interrogatório”.

se fundo eu apenas mergulhasse – como descendo
pela espessa avenida e cruzando entroncamentos,
ultrapassando dunas que tanto mais eu subo descem
– nas feridas abertas como em córregos coléricos,
tracejando crises brandas em copos mal-lavados,
surpreso passo a passo, a cada segundo um outro,
pelo segundo surpreso de cada passo eu cavo
incríveis e silenciosas atrocidades do coração.

e que ainda há flores no deserto – eu lhes direi.
e colheremos nem que seja a terra íntima das unhas.
e carregaremos nossos corpos quem sabe até o mar,
onde as ondas não vacilam e a solidão abandona o corpo
comido da bicheira, talvez nesses momentos, talvez agora,
poderíamos dar-nos todos as mãos, enfim silenciosos,
e abandonar de vez os poemas que são pingos ralos
de nós quando já tarda o senso e se atrasam os sinos
– quando não há mais diferença entre o corpo e o chão.

Porque o carinho é fonte de toda violência.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, coisa boa é poder ver "minha" Fortaleza por seus olhos. Me ajuda a ver melhor o Rio das suas crônicas. Bem legal a versão em prosa e a versão em poesia. Fiquei delirando na palavra "pâncreas": aquele que cria tudo? :)