segunda-feira, 18 de outubro de 2010

POBRES LEITORES >> Albir José Inácio da Silva

Em princípio não há por que se ter pena de leitores. Melhor é agradecer-lhes a generosidade de nos ler os textos e parabenizá-los pelo hábito tão saudável. Ninguém discorda que a leitura é uma das atividades humanas mais interessantes. Talvez mais do que heranças inesperadas e prêmios de loterias, que só mudam o exterior, a palavra escrita tem conseguido dar novos rumos a vidas de que não se esperava grande coisa.

Mas o que a leitura tem de prazerosa pode ter de torturante quando obrigatória. Nem falo de alunos que precisam ler muitas páginas para responder a muitas perguntas. São ossos do ofício de estudar, do qual nos desincumbimos da melhor forma possível e vamos adiante.

Também não falo das dezenas de páginas de relatório que somos obrigados a digerir no escritório, porque para tanto temos explicações: é o nosso trabalho, temos de pagar as contas e pior seria estarmos desempregados.

Falo de uns coitados que têm amigos que escrevem coisas na internet ou em outro lugar qualquer, que se sentem na obrigação não apenas de ler essas coisas como também de comentá-las, com pertinentes e inteligentes comentários que contribuam e incentivem a escrita (neste ponto, inclusive, consulto aos colegas cronistas se isso acontece também com os livros publicados).

Claro que tem muita gente que lê, gosta ou não gosta, comenta ou não, mas está em paz. Tenho pena é daqueles que ficam na incômoda posição de ter que ler e incentivar uma coisa que os vai continuar torturando, porque na próxima semana terão de dizer que ainda não tiveram tempo de ler aquele texto mas deve estar tão bom quanto os anteriores.

Nesse aspecto a literatura complica a vida de alguns “consumidores”. É tão mais fácil olhar uma pintura e dizer apenas: “lindo, muito bom!”. Ninguém se sente obrigado a discorrer sobre a técnica, o estilo, as influências e as cores. É rápido. Basta uma olhada e um sorriso e já nos sentimos quites com o pintor. O mesmo se diga de um concerto. É só aplaudir e ficar feliz por ter assistido. Não há pecado nenhum em não entender de música.

Um amigo ficou me evitando durante semanas depois de me dizer que tinha gostado muito de um texto meu, que estava lendo com mais calma e fazendo, inclusive, algumas anotações. Depois me falaria. Renovou mais duas vezes essas preocupações e depois sumiu. Não tive nem oportunidade de dizer-lhe que não se preocupasse em ler meus textos e muito menos em comentá-los; que o que eu gostava nele era sua amizade e não sua crítica literária. Esse foi um caso extremo, mas sinto que a existência de textos a serem lidos e comentados acabam se transformando numa insolúvel saia justa para algumas pessoas.

Pudesse eu dar algum conselho, diria: não leiam nada que não queiram. E, caso leiam por curiosidade, não comentem por obrigação. Ninguém precisa produzir outro texto só porque leu.

Acreditem: ler já é uma grande homenagem.

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8 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belo conselho, Albir. :) Muito curioso esse caso do seu amigo. Que ele descanse na paz do seu conselho. :)

Gostei da crônica de tom pessoal depois da maratona eleitoral de ficção. :)

fernanda disse...

Muito bom, Albir. Há algum tempo eu retirei o ícone de comentários do meu blog e vez ou outra alguém me pergunta o porquê disso. Agora já tenho resposta: ler já é uma homenagem! :)

Tânia Batista disse...

Oi Albir,
Não te conheço pessoalmente (acho!). Recebi esta crônica via Edu, meu amigo querido. Porém, uma pequena ressalva ao teu texto: se é bem verdade que não precisamos produzir um outro texto quando lemos algo que nos agrada...por outro lado, nada impede que o façamos, pois a escrita é uma expressão supimpa de alguns sentimentos que, em muitos casos, nem cabem dentro das palavras...Assim, deixar-se guiar pela boa inspiração que um texto nos provoca é algo alvissareiro...Escrevamos, pois!!
Tudo isso pra te dizer: prazer em te conhecer!

Anônimo disse...

muito, muito bom ! :D

albir disse...

Edu,
eu é que ainda não consegui descansar com a maratona eleitoral. Coisa de traumatizado com ditadura.

Fernanda,
pois é, ninguém acredita que ler já é homenagem.

Tânia,
mas é como se te conhecesse.
Ressalve, querida, ressalve.
É só pra dizer que o comentário já é um plus; que ler já bom demais.
Muito bom esse negócio de "escrita é expressão supimpa de sentimentos que nem cabem dentro das palavras".
Alvissareira é você, escreva pois!
Prazer é pouco. Volte!

Anônimo,
que dizer de elogio anônimo?
Que você tem demais. Por isso distribui.

Carla Dias disse...

Ah, Albir... Concordo completamente com você. Mas como tudo na minha vida, posso não cobrar o outro, mas cobro a mim. Sou dos que ficam se torturando porque ainda não leu, não opinou sobre o que me mandam para ler.

Tânia Batista disse...

Prometo escrever mais...Aliás,tenho percebido/sentido que a escrita me faz um super bem...Grata pelo retorno!

albir disse...

Carla,
só quis deixar as pessoas um pouco mais à vontade. Mas sabemos o quanto é importante o retorno. Definitivamente, não escrevemos pra nós mesmos.


Combinados, Tânia. Fico aqui aguardando novos ventos desses verdes mares bravios de "sua" terra natal, onde canta a jandáia nas frondes da carnaúba.