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Mostrando postagens de Janeiro, 2021

O MUNDO AO CONTRÁRIO?

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  Estou de volta depois de um período de recuperação de energias, embora sem mar. Ah, como preciso de mar para me recuperar de verdade! Meus banhos foram derretidos pela pandemia.    Manhã ensolarada neste janeiro de 21. Sobre a minha mesa o segundo copo de água alcalina; preciso de pelo menos seis. Depois, mais tarde, vou pra sacada à cata de sol; preciso de pelo menos dez minutos. Foi o que disse o médico outro dia: é bom para a imunidade. Em tempos de coronavírus, tudo o que é bom para a imunidade me interessa. Beber muita água, tomar sol diariamente entre 10h e 16h por 10 minutos, fazer atividade física, alimentação equilibrada, deitar os pés descalços na terra ou na grama, respirar fundo. Como acredito em tudo isso, eu tento incorporar.    O ano começou com a triste notícia da morte do padre Ticão, uma referência na Zona Leste de São Paulo pelos seus trabalhos sociais. Uma de suas principais bandeiras era a luta pela legalização do uso da cannabis para fins medicinais. Rola mu

GRILOS >> Paulo Meireles Barguil

Cada pessoa tem seus grilos. Eles possuem idades e temas variados. Alguns são contados em dias, outros precisam de anos. As problemáticas contemplam aspectos estéticos, sociais, financeiros, sexuais... Fatores ambientais influenciam tanto na proliferação quanto na mortandade deles. Enquanto algumas pessoas preferem mantê-los em segredo a vida toda, outras os confidenciam para alguém (que acredita ser) de confiança. Há, ainda, aquelas que não têm qualquer temor em expressá-los. Eu sou uma delas! Quer conhecer um pouco dos meus? Clique aqui .

NEVE NEGRA - PARTE 01 >>> Nádia Coldebella

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A FEITICEIRA Há muito e muito tempo, havia um reino conhecido pelo amor que seu povo devotava a rainha, uma mulher muito bonita e bondosa. Elora era seu nome e havia quem jurasse que ela não era uma mulher comum, mas uma rainha também entre as fadas. Talvez assim pensassem porque, em dias ensolarados, era muitas vezes vista sozinha pelos jardins do palácio, entoando, em voz baixa, uma delicada melodia. Várias vezes durante a semana, mesmo a contragosto do rei, ela costumava sair com suas criadas para  passar as tardes em companhia dos menos abastados, agonizantes e doentes. Trazia-lhes a alegria contagiante que emanava de sua face, olhos e voz e as crianças costumavam cercá-la por isso. Embora as amasse, a rainha sofria porque, na presença dos pequeninos, era lembrada de que nunca poderia dar um filho ao rei.  Então, um rigoroso inverno derramou seu manto branco sobre o reino. Chegara magno, escuro e cinzento, deixando o coração da Rainha Elora apertado e repleto de tristeza. Isolada e

INTROMETIMENTO >> Carla Dias

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"O homem segura a mão do menino que faz birra. A mãe da criança disfarça com um sorriso incomodamente largo. Ele segura a mão do menino choroso, cansado. Segura tão apertado, que a criança não consegue escapar. A mãe penteia os cabelos da criança com a mão, antes de entregá-la ao homem, que o sacode, alegoricamente, arrancando gritos histéricos de seus admiradores e o choro desesperado do menino." Espanta-me essa indecência, porque não consigo compreender o motivo de se admirar o raso. Você pode até ir com a cara do raso, aproveitá-lo como material de comparação para o que não deseja para si. Agora, admirar? Admiro nada... desprezo com o desprezo borbulhando. Pena que meu desprezo vale nada. A Narradora Intrometida que sou anda muito irritada com as histórias que tem narrado. Acho que a minha habilidade de me intrometer na história dos personagens anda incomodando os distribuidores de histórias. Ontem, eu narrei uma história de amor, na qual não havia rastro de amor. Anteonte

O TOPETE >> Albir José Inácio da Silva

  - Se cuidasse da cidade como cuida do cabelo... – tricotavam os invejosos porque, apesar dos quase sessenta anos, o topete engraxado do prefeito brilhava sem um único fio branco.   No palanque em frente ao posto de saúde, uma faixa indicava o início da vacinação: “Brasil Imunizado – Somos uma só nação!” e o prefeito se esbaldava na retórica:   - A maravilha da ciência e a competência da logística nacional trouxeram a tão desejada vacina para o solo sagrado desta cidade!     Mas o entusiasmo do alcaide era recente. Até semana passada, ele atacava a vacina e o risco de ela trazer chip com a marca da besta, que altera o DNA, transformando a pessoa, por exemplo, num jacaré e remetendo sua alma aos quintos dos infernos. Não passava de marketing político para gastar dinheiro do contribuinte e desviar o foco do verdadeiro tratamento, dizia. Defendia o tratamento preventivo com remédios milagrosos, baratos e de fácil distribuição, fabricados nos quartéis ou doados pelo Tio Sam.

AQUELA ESPERANÇA DE TUDO SE AJEITAR >> Sandra Modesto

O Processo  Eu vou mentir. Me esconder atrás de uma mulher pra eu me livrar um pouco. Cansei dessa Sandra mal diagramada, titubeando ao som oco desse teclado assustador.  Agora eu sou Vera. A Vera bate o portão sem fazer alarde e manda ver na crônica mal ajambrada.  Vera se estranhou nos últimos dias. Dez meses sem frequentar os lugares cheios de histórias. Sim, ela gostava de caminhar e bater um papo com os ex-alunos que sempre a reconhecia. Mesmo com o passar de tantos anos, Vera de cabelos brancos e a conversa estava lá. No meio do caminho.  E o bar? Como ele faz falta. Primeiro porque bar não é bar. Bar é sol. É lua. É chuva duradoura com amigos ao encontro de boas conversas. É lá! No bar da esquina, no bar distante, cheios de risadas e dramas que tudo vira escritos. Nos bares da vida, todo cronista põe a mão e o pé no dia seguinte. Conta das tardes e noites dos bares sonhadores e dos porres. E inventa também. Um bom cronista exagera um pouco. Nessas loucuras juntas mesmo, o leitor

O LIVRO DOS CARREGADORES >> Zoraya Cesar

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O homem apertava o pacote contra o peito, como se temesse que o arrancassem de suas mãos finas e trêmulas. Sua cabeça descoberta e careca avermelhava-se sob o sol, que, refestelado em um céu sem nuvens, estendia autoritariamente seus raios pelas ruas desarborizadas. O calor era tanto que provocava aquela estranha miragem do espelhismo no asfalto.  Era um homem pequeno, de fundos olhos azuis aquosos e obstinados. Sua pele tinha um aspecto de pergaminho velho, amarelado e gasto. A roupa amarfanhada e puída era quente demais, descondizente com aquela canícula tropical. Poder-se-ia concluir que era um homem afeito mais aos estudos que ao ar livre. Olhando-se bem, realmente, ele mais parecia uma cigarra morta, esquecida em alguma gaveta cheia de alfarrábios.  Ele não percebia, mas caminhava rapidamente para uma desidratação. Toda sua atenção estava voltada para um único objetivo: chegar ao local de encontro antes do anoitecer. Se já era perigoso andar durante o dia, à noite, então, estaria

SACO DE LIXO >> Carla Dias

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Está chovendo há horas. Ensaiei colocar blusa e calça, mas está esse friozinho delícia, do qual andava sentindo tanta falta. Hoje é quarta, apesar de eu ter me pegado chamando este dia de  sexta insana . Fiz isso três ou quatro vezes, neste hoje, quarta. Tenho preferência pelo insano. O sensabor é pior. No entanto, prefiro o insano que não seja feito aqueles valentões de pátio de escola, sabe? Que passam a rasteira nos seus desafetos, oferecendo tombos e horas de autoquestionamento às suas vítimas: pra que sirvo mesmo? Prefiro o insano que desarranja o dia, e, entre um desapontamento e um palavrão, a falta de ar, diante da descoberta de quão errado ele pode estar sobre determinada certeza, oferece um daqueles alívios que fazem a vida valer a pena. Aquele que vem em forma da compreensão de que também ele está sujeito a errar. Às vezes, é possível aprender com ele. Em dias de improváveis surpresas, pode ser que o insano também aprenda com você. A chuva, o frio, o café de daqui a pouco. E

A CURA >> Clara Braga

Sou totalmente encantada com a forma como a arte pode nos atravessar e mexer com a gente! E, nesse quesito, ela é bem democrática, pois podemos ser atravessados tanto por um Picasso, quanto por uma obra que vemos na rua e nem sabemos quem fez! Mais incrível que isso, é o fato de que uma arte nos toca não só pelo que ela é, mas pelo que nós somos quando entramos em contato com ela! Logo, uma mesma obra é capaz de nos encantar, ou até deixar de nos encantar, de formas diferentes ao longo do tempo! Quando eu era bem novinha, acho que tinha uns 4 ou 5 anos, vi uma colega de escola dançar ballet e aquilo mexeu comigo. Decidi dançar ballet clássico e lá fiquei por 7 anos! Até hoje gosto de assistir ballet, realmente é uma dança que mexe muito comigo, mas as exigências e a rigidez de ensaios diários foram demais para mim, principalmente na idade dos 11 ou 12 anos! Foi aí que meu encantamento diminuiu e eu larguei o ballet e fui direto atrás daquilo que me encantava naquele momento: tocar bate

BENEDITA >>> Alfonsina Salomão

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— Você é completamente louca! – ele disse, deixando-a plantada ali, atônita.  Benedita levou as mãos ao rosto e sentiu o calor das bochechas, que latejavam. Estão em chamas, constatou, não sem espanto. O que tinha acontecido? Começou com uma estratégia infantil para calar a boca do marido.  — Sim, sou uma péssima esposa, uma péssima mãe, um monstro! – respondera quando ele disse, pela milésima vez, que todos os problemas do filho eram sua culpa.  Esperava que estas palavras fizessem-no recuar nas suas acusações, reconsiderar seus propósitos. Esperava que ele respondesse algo como:  — Não, não é isso. Não estou dizendo que você não é uma boa mãe, menos ainda que é um monstro, apenas que...  Mas não funcionou. A estratégia não surtiu nenhum efeito no marido de Benedita, que continuou apontando o dedo para ela, culpando-a de tudo o que estava errado na família.  Como ele pode dizer isto, logo a mim, que me dedico de corpo e alma ao menino desde que ele chegou ao mundo? Logo a mim, que me

O autor Sergio Geia retorna em 30/01/2021

CLIENTE, ENCOLHI A VIDA! >> Paulo Meireles Barguil

O copista dedicava meses para produzir um livro, a bordadeira semanas para tecer uma roupa e o marceneiro dias para fazer uma porta. A  Humanidade, contudo, já não aguentava esperar para usufruir desses bens e de muitos outros. A complexificação dos modos de produção impacta profundamente na sociedade e em cada um de nós, não somente no local de trabalho, mas nos ambientes de lazer e no lar. Necessário, também, registrar que o incremento da população incentivou a ocupação de outros espaços, ampliando a distância entre os povoamentos e, em consequência, o tempo para percorrê-lo. As melhorias nos meios de transporte e de comunicação são espetaculares, inimagináveis!, com impactos grandiosos no nosso modo de vida. Toda mudança tem ônus e bônus, os quais são faces da mesma moeda: siameses inseparáveis!  O preço de uma mercadoria não é o que pagamos, nem o estimado pelo fabricante a partir dos insumos naquela utilizados. Na verdade, é impossível determiná-lo, considerando a multiplicidade d

A MULHER DA ÁRVORE - ÚLTIMA PARTE >>> Nádia Coldebella

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  TAPETE VERMELHO Elísio levou Carolina na casa até a casa dos avós maternos. Quando chegou, havia policiais em toda a parte. A velha estava às gargalhadas.  - Não minta! - Domênico estava pura fúria. Ele dera um passo à frente, corpanzil ameaçador projetando-se sobre Elísio, A fúria era um sentimento que ele sempre tentara controlar, mas agora erupcionava como um vulcão furioso lançando pedras, lava e chamas a quilômetros de distância.  A visão do enorme homem furioso fez Elísio encolher na cadeira. Ele sentara logo após vomitar. Agora estava mais branco que de costume, olhos arregalados de medo. A velha, também sentada, parara de rir e olhava para o policial, um rosto de plácida calma. Parecia alheia ao que estava acontecendo. De vez em quando estendia as mãos e olhava para elas com desdém. Domênico respirou fundo e fez um sinal. Outro policial trouxe, dentro de sacos plásticos, chinelos azuis. - Pode parar de mentir. Eu achei o outro par - Ergueu a sacola sobre os olhos arregalados