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O LIVRO DOS CARREGADORES >> Zoraya Cesar

O homem apertava o pacote contra o peito, como se temesse que o arrancassem de suas mãos finas e
trêmulas. Sua cabeça descoberta e careca avermelhava-se sob o sol, que, refestelado em um céu sem nuvens, estendia autoritariamente seus raios pelas ruas desarborizadas. O calor era tanto que provocava aquela estranha miragem do espelhismo no asfalto. 

Era um homem pequeno, de fundos olhos azuis aquosos e obstinados. Sua pele tinha um aspecto de pergaminho velho, amarelado e gasto. A roupa amarfanhada e puída era quente demais, descondizente com aquela canícula tropical. Poder-se-ia concluir que era um homem afeito mais aos estudos que ao ar livre. Olhando-se bem, realmente, ele mais parecia uma cigarra morta, esquecida em alguma gaveta cheia de alfarrábios. 

Ele não percebia, mas caminhava rapidamente para uma desidratação. Toda sua atenção estava voltada para um único objetivo: chegar ao local de encontro antes do anoitecer. Se já era perigoso andar durante o dia, à noite, então, estaria completamente desprotegido. E ele não era homem de ação, nunca fora. Seu coração batia descompassadamente; o que o impedia de entrar em pânico era a certeza de que deveria cumprir sua missão. Não sentia sede, nem calor, nem os efeitos em seu corpo. Esse foi um de seus erros. Mas ele só se daria conta mais tarde. Tarde demais. 

- Quente, hoje, não? E esse sinal que não abre nunca? Olhe, nunca vi nada igual. Esse embrulho parece pesado…

Ele se assustou, abraçando instintivamente ainda mais forte seu preciso fardo. Não vira a mulher se aproximar. Olhou para ela meio sem vê-la na realidade, o suor escorrendo pelo rosto, queimando seus olhos. Fitou-a alguns segundos, sem atinar com o que ela falava. Era baixa e gordota, uma mulher já pós-balzaquiana, os pés de galinha mal disfarçados pela maquiagem malfeita, e enorme dentes sorridentes por trás de uma boca escandalosamente vermelha. No seu torpor semidesidratado, ele não notou cintilar, no fundo dos olhos castanhos dela, um fulgor de astúcia e malignidade. 

O sinal que não abria nunca! Ele precisava atravessar, precisava entregar a encomenda. A tarde já ia alta, e, no calor quase insuportável, a corrente de pensamentos do homem estava lenta, seguindo como uma caravana de beduínos que não têm pressa, pois sabem que seu destino não irá a lugar algum: estará lá, esperando por eles. 

A mulher não parava de falar, num matraquear irritante que perturbava seus pensamentos vagarosos e o desviavam de sua atenção. Ele precisava se concentrar na missão. Por um segundo sentiu vontade de atirá-la debaixo de um carro, mas não tinha nem forças nem tempo para isso. Nesse instante, a mulher fez algo totalmente inesperado. Tocou nele, arranhando levemente sua mão com uma unha comprida e sem esmalte.

- Mas o senhor não está sentindo calor com essa roupa? Não quer se sentar? Eu o ajudo.

A surpresa em ser tocado por aquela desconhecida foi tão grande que, atordoado, ele nem esperou o sinal. Atravessou a rua como um fugitivo prestes a ser alcançado pela polícia. Mal ouviu o scraaaatch ruidoso e assustador dos freios do carro que quase o atropelou. O motorista xingou, mas ele não ouviu. Chegou à calçada sentindo-se estranhamente mal. Digo estranhamente, porque seu mal-estar nada tinha a ver com a desidratação que sofria há algumas horas e estava prestes a cobrar seu preço. 

No lugar onde a mulher tocara surgira uma mancha violácea que intumescia a olhos vistos. Coçava. Em pouco tempo, ardia. O homem olhou em volta, assustado. Sentia-se enjoado. De repente, a sede o dominou. Procurou a mulher com os olhos, pronto a fugir, mas ela não estava à vista. Onde fora parar? Ele não quis perder tempo em cogitações. Importante era que ela sumira. Importante era beber alguma coisa e botar gelo naquele machucado estranho. Edema, coceira, ardor, violeta… sua mente tentava achar a equação desses fatores e sua consequente resposta, tinha certeza de que conhecia esses sinais. Mas o torpor que subia de seus pés, pesando suas pernas e tornando penoso qualquer raciocínio mais elaborado, interrompeu seu questionamento. 

Por ele, continuaria andando até o ponto de encontro. Assim como sua mão, o céu também tornava-se violáceo. A noite não tardaria. O desespero começou a tomar conta de seu corpo e mente debilitados. Urgia continuar andando, com a noite ele ficaria cada vez mais vulnerável. Finalmente, sentiu que seria mais eficiente beber alguma coisa. Comprou água e foi andando, agarrado em seu embrulho como uma tenaz. 

Mas não havia como negar. Seus olhos ficavam cada vez mais turvos; suas pernas, bambas. E a dor! Como o tal arranhão doía! Queria muito lembrar de algo, mas não atinava com o quê. 

Aferrou-se à sua missão. Em breve iria anoitecer irremediavelmente e ele tinha, tinha, tinha de chegar ao ponto de encontro  Muita coisa dependia daquilo. Sua própria salvação dependia daquilo. Ele era o Carregador. O conteúdo daquele pacote não podia ser entregue por ninguém mais. De tantos perigos escapara apenas para desmaiar já no final da jornada? Ele teve um momento de lucidez. Não devia ter sido tão obcecado, devia ter parado para trocar de roupa, tomar uma água. Agora já não dava mais tempo, devia apressar o passo com as forças que lhe restavam. 

Anoiteceu, ele estugou o passo, um passinho miúdo, titubeante e apavorado. 

E, enfim, o calor e a falta de água, o veneno inoculado em seu corpo, tudo cobrou seu preço. Ele não conseguia mais. Sentou-se, trêmulo. Um Carregador que não cumprira sua missão. Não! Ele ainda tentou se levantar e talvez, quem sabe, até conseguisse chegar – nem estava tão longe – se...

A mulher gorda que encontrara mais cedo estava a seu lado, segurando-o pelo braço. Seu grandes dentes brilharam na semiescuridão. Ela ciciou:

- Não lute que vai ser pior, o veneno agirá mais rápido, a morte será mais dolorosa. Por que não me entrega logo esse embrulho? Poupará a nós dois. Vamos, Carregador. Você deve saber quando uma batalha está perdida. Para seu consolo, fui eu quem confundiu sua mente durante todo o dia, para você falhar miseravelmente...

O Carregador agarrou-se ao pacote como um náufrado à última boia.

Continua dia 5 de fevereiro. 





 





Comentários

ah, ansiosa pela entrada de Lucrécio Lucas em cena! Nenhum mal sai vencedor com ele nessa empreitada!
branco disse…
pronto, já começou a história "... continua... " . pelo lado bom....eu espero sempre vale a pena....
Érica disse…
Sabia! Isso tava com toda a pinta de que não ia terminar agora mesmo... lamentável... Também só comentarei dia 5 se fevereiro hahahaha
Nadia Coldebella disse…
Qta malvadeza em Dna Zoraya! Deixar a gente assim, esperando?
Albir disse…
Após breve intervalo, eis-me de volta ao sofrimento. Agora terei medo de gordinhas sorridentes em sinais de trânsito. Eh, vida dura!
Clarisse Pacheco disse…
Pobre Carregador... Fiquei curiosa para conhecer essa carga...
Carla Dias disse…
Zoraya, Zoraya.., eu me senti agoniada com a agonia do Carregador. Mas o pior é ter de esperar pra ver no que vai dar.
Paulo Barguil disse…
Ficarei deitado, sozinho na rede e sem livros, esperando a continuação...
HAHAHAHA
Zoraya Cesar disse…
Ana - Aninha, o resultado de uma contenda é imprevisível. Vc sabe que nosso amigo, de vez em quando, amarga derrotas também. Mas ele agradece a confiança e diz que dará seu melhor para não decepcioná-la.

Branco - é, esse negócio de dividir, sei que é maldade, mas como a história nao terminou, ainda nao sei o que acontecerá. Também eu tenho de aguardar. Tomara que vc goste!

Erica - espero seu comentário dia 5. Nem q seja pra me dar bronca de novo ahahahaha

Nadia - olha quem fala, Rainha dos episódios! Malvada mor! kkkkkk

Albir - HAHAHAHA, Dom Albir, seus comentários são sempre muito esperados

Clarisse - Linda, espere e verá. Aliás, eu também verei. Lucrécio ainda nao me contou nada!

Carla - Carla, Carla, Princesa das Palavras, se vc e D. Albir se sentiram agoniados, me desculpe, mas ganhei meu dia. Pq vcs são exigentes...

Paulo - hahaha, Paulo, fiquei toda boba agora kkkk

A todos, obrigada pelo carinho e comentários. E vamos à parte 2!
Coitado do carregador!! Sentia a agonia dele, você escreveu de uma forma que não dá pra gente não se envolver, parabéns Zô querida! Fiquei chateada por ele não ter dado conta... que danada essa gordinha! Espero ansiosamente a continuação ;)
Zoraya Cesar disse…
Alfonsina - pois é, eu tb fiquei triste, mas, infelizmente, não tinha como avisá-lo. Ele era um Carregador experiente, não devia ter bobeado. Q bom q vc se compadeceu dele!