A MULHER DA ÁRVORE - ÚLTIMA PARTE >>> Nádia Coldebella

 TAPETE VERMELHO


Elísio levou Carolina na casa até a casa dos avós maternos.

Quando chegou, havia policiais em toda a parte.

A velha estava às gargalhadas. 




- Não minta! - Domênico estava pura fúria. Ele dera um passo à frente, corpanzil ameaçador projetando-se sobre Elísio, A fúria era um sentimento que ele sempre tentara controlar, mas agora erupcionava como um vulcão furioso lançando pedras, lava e chamas a quilômetros de distância. 

A visão do enorme homem furioso fez Elísio encolher na cadeira. Ele sentara logo após vomitar. Agora estava mais branco que de costume, olhos arregalados de medo. A velha, também sentada, parara de rir e olhava para o policial, um rosto de plácida calma. Parecia alheia ao que estava acontecendo. De vez em quando estendia as mãos e olhava para elas com desdém.

Domênico respirou fundo e fez um sinal. Outro policial trouxe, dentro de sacos plásticos, chinelos azuis.

- Pode parar de mentir. Eu achei o outro par - Ergueu a sacola sobre os olhos arregalados do pobre homem. E continuou aos berros - Um pássaro preto tirou de um buraco embaixo daquela árvore que sua filha me mostrou! - Deu um riso nervoso. - Adivinha o que mais tinha lá?

Elísio olhou para o chinelo e depois para a velha. Domênico rapidamente virou-se para a velha. Em um segundo ele soube. Os olhos daquela mulher eram brasas incandescentes da mais pura loucura e o canto da boca se arqueava para cima, em plena satisfação.  Foi tudo muito rápido e quando ela percebeu os olhos de raposa do policial, colocou uma das mãos sobre o peito, outra sobre a cabeça e deixou-se desabar na cadeira, em um lamento que mais parecia um ganido:

- O que você fez, Elísio? O que você fez? - e deu alguns gritos e suspiros, sendo rapidamente acudida por pessoas do entorno.

Elísio agora olhava para a velha estupefato. Depois olhou para Domênico, que, com um enorme ponto de interrogação bem em frente aos olhos, o questionava silenciosamente, desconfiado.

- Ela não parava de lavar seus crochês na máquina, mãe - Respondeu rapidamente Elísio. - Estava estragando tudo. Vocês estavam brigando demais. Eu não queria machucar, eu só queria assustar…. - Agora Elísio colocara o rosto entre as mãos e chorava convulsivamente.


Os policiais conduziram Elísio até a viatura. Ele entrou, cabeça baixa, sem olhar para ninguém. Nem para a mãe, que andou encurvada logo atrás do filho, a passos lentos e cambaleantes. A viatura partiu.

- Seu filho parecia aliviado. - Disse Domênico que a havia seguido silenciosamente. A velha estremeceu.

- Sim. - Disse com voz chorosa - Fazia dias que ele não dormia direito. Eu achei que ele sentia falta da Vilma.

- A senhora, ao contrário, dorme muito bem. - O tom dele era cínico - Mas não deveria, não é? - A velha levantou os olhos miúdos para Domênico. Estavam ocos. - Eu sei que Elísio não matou Vilminha. Eu sei que foi você.

A mulher abriu um sorriso enorme e desdentado e endireitou o corpo. Repentinamente o cansaço havia desaparecido e ela estava forte e revigorada.

- Você só vai conseguir alguma coisa se for a fórceps, policial - e o sorriso virou riso que estendeu-se até se transformar em uma gargalhada sinistra.



EPÍLOGO

Ela deu uma olhada em volta. 

Tudo meu de novo. 

Gargalhou. Entrou na casa, ajeitou os tapetes de crochet vermelho no chão. 

Esses tapetes precisavam ser lavados à mão. Eu sempre disse isso pra ela, mas a idiota colocava tudo na máquina. 

Foi até o quarto do casal, ajeitou o tapete no chão. Então foi até o quarto em que a menina dormia com o pai, ajeitou o tapete no chão. Ajeitou e admirou o tapete vermelho no chão.

Eu achei que ela tinha feito a criança estúpida dormir.

Voltou até a cozinha. Tudo impecável. Abriu uma das gavetas do armário horroroso. Estava ali, ia deixar certinho, porque a polícia daria uma olhada. Sorriu.

As pessoas não fazem ideia do quanto uma pessoa velha pode ser forte, pensou. Um martelo de bater bife.

Foi até a lavanderia. Tudo certo por ali. O filho tinha pintado o chão de vermelho. Ela pedira.

Linda cor, Tão linda espalhando. Uma linda poça vermelha. Só que pequena. Precisei bater, a bater, a bater até virar um tapete vermelho. Lindo.

Foi até o banheiro e deu uma olhada no espelho. Cadê os olhos que não eram seus?

Fantasma idiota, pensou inebriada, lembra do teu sangue aqui, na minha mão? 

Quando Elísio chegou, ela estava cheirando o sangue das mãos. O corpo perto da máquina de lavar. A máquina ligada. Uma sinfonia. Só então ela viu a criança gritando na porta da cozinha.

Mãe! Mãe, mãe, mãe, mãe. Criança miserável. Essa daí nem utilidade tinha. A gente cria filho pra que? Pra ajudar os pais quando precisam, refletiu.

Elísio tinha recolhido a esposa do chão. Enrolou o rosto irreconhecível em uma toalha e saiu arrastando o corpo. Enterrou embaixo da árvore. Perdeu um chinelo no caminho.

Criei um filho burro demais.

Ele voltou para casa, lavou o chão, limpou o martelo de bife, tomou banho e foi dar queixa do sumiço. O policial veio logo, a máquina ainda estava ligada. Ela não sabia desligar. Tiraram umas fotos mas nem ligaram.

Ainda bem porque aquele burro não limpa nada direito.

Dai Elísio pegou a criança e foram para a árvore. Passaram o dia todo pranteando o corpo da defunta. Agora ele estava preso.

Podia ter dito que ela fugiu com o amante, quem ia duvidar? Uma peste daquela, que infernizava a vida da pobre e doente sogra? 

Riu, orgulhosa da própria performance. Saiu da casa e foi até um jardim meio abandonado ali perto e recolheu algumas rosas. E pôs-se a caminhar, ereta, até a árvore.

A gente sempre precisa levar flores pros mortos.

O local onde o cadáver de Vilma havia sido enterrado estava isolado pela polícia, mas não era ali que ela queria estar. Rodeou a árvore e depositou as flores sobre uma pedra. Ela marcava o túmulo do falecido. Também marcara a cabeça dele.

Inútil. Não fazia nada certo. 

Fora Elísio que deixara a pedra ali, no dia em que ajudara a mãe a enterrar o pai. Que fugira com a amante, todos pensaram.

Ela observou a árvore. Uma luz dourada e laranja atravessava as folhas. Os pássaros pretos também estavam por ali, mas faziam um silencio sepulcral. Por um breve instante sentiu medo. Olhou ao redor. Nada de Vilma. 

Viu o que você conseguiu, idiota? Está morta e enterrada. 

Ela riu, desafiadoramente. Chegou mais perto e chutou o tronco da árvore.

Eu ainda estou aqui. Enterrei o energúmeno do meu marido, enterrei você e pensei em enterrar a miserável da sua filha, aquela criança estúpida. 

Gargalhou e junto com sua gargalhada, ecoou na campina um piado angustiado. 

Uma coruja agourenta. 

Os pássaros agitaram-se e alçaram vôo. Tudo ela acompanhou com os olhos, lembrando-se do prazer que sentira em quebrar o pescoço da avezinha pela manhã. O bando voou por alguns metros e então realizou uma curva. Voltavam para a árvore. As aves passaram pela velha e duas delas atiraram-se sobre seu rosto. Diferente daquela manhã, ela não conseguiu agarrá-las. E, enquanto tentava afastá-las para proteger os olhos, perdeu o equilíbrio e caiu estatelada.

Duas imensas mãos emergiram da terra e agarraram-na, puxando-a em direção às raízes da árvore. Apavorada, ela tentou gritar.

Ninguém por aqui.

Só Vilma, plantada à sua frente, de cabelo amarelo, etérea em um vestido esvoaçante. 

Nem morta têm imaginação, gargalhou. Você virou um fantasminha bem clichê.

A velha ainda tentou levantar, mas as raízes já a tinham envolvido. Vilma estendeu a mão sobre sua cabeça e tocou-lhe a fronte com a ponta dedo.

Extremamente clichê.

Porém, seu pensamento transtornou-se. A culpa emergiu, como um espinho perfurando a carne. Uma dor lancinante atravessou sua fronte e espalhou-se pelo resto do corpo e aí ficou. Novamente ela tentou gritar, mas sua boca já havia sido trancada. 

Da perspectiva que tinha, via tudo, agora, com muita clareza. Seu corpo estava no chão, sem vida, Havia batido a cabeça em uma raiz.

Algo desfazia-se nela. E empurrada pelas mãos de Vilma, sentiu-se fundir à árvore. Porém, antes que sua sentença terminasse de ser decretada, notou, satisfeita, que um lindo tapete de sangue saia da cabeça de sua carcaça e espalhava-se, viscoso e vivo, pelo chão.


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Imagem: Tara Turner - https://fineartamerica.com/featured/take-the-light-this-life-has-to-offer-tara-turner.html

Fique por dentro de toda a história:



História inspirada em fatos reais.
Se não acredita, tenha cuidado ao olhar no espelho.


Comentários

Wow, Nadia, esta velha está pior do quê a minha sogra!!! Pode ter certeza que ela também ficaria possessa se eu lavasse seus tapetes de crochê na máquina, mas acho que não chegaria ao assassinato haha Brincadeiras à parte, este último capítulo é um murro no estômago, ficou muito forte. Eu já imaginava que a culpada era a velha, mas a maldade e insanidade dela foram além de tudo o que eu tinha pensado neste final. Gostei muito da atenção que você dá aos gestos dos personagens, a gente visualiza tudo direitinho, entra na história. Parabéns!!
Zoraya Cesar disse…
Repetindo AmanditAlfonsina sem pejo algum: wow! Porrada pura! Tb imaginava q era a velha (deve ser amiga das minhas velhas assassinas), mas esse final foi impactante! Ai de vc se nao tivesse pagamento no final! Texto cinematográfico e arrepiante. Esse entra na próxima antologia!As nuances psicológicas dos personagens estao ótimas!
branco disse…
hey hey. deixei para ler todas as partes hoje, e, entre uma e outra um café...meditar...encontrar a profundidade certa.
não vou tentar encontrar muitas palavras, desnecessário...uma basta :F A S C I N A N T E ! ! !
Albir disse…
Aves, raízes e vovós assassinas. Meus pesadelos têm agora novos personagens. Espero sobreviver a eles!

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