AQUELA ESPERANÇA DE TUDO SE AJEITAR >> Sandra Modesto

O Processo 

Eu vou mentir. Me esconder atrás de uma mulher pra eu me livrar um pouco. Cansei dessa Sandra mal diagramada, titubeando ao som oco desse teclado assustador. 

Agora eu sou Vera. A Vera bate o portão sem fazer alarde e manda ver na crônica mal ajambrada. 

Vera se estranhou nos últimos dias. Dez meses sem frequentar os lugares cheios de histórias. Sim, ela gostava de caminhar e bater um papo com os ex-alunos que sempre a reconhecia. Mesmo com o passar de tantos anos, Vera de cabelos brancos e a conversa estava lá. No meio do caminho. 

E o bar? Como ele faz falta. Primeiro porque bar não é bar. Bar é sol. É lua. É chuva duradoura com amigos ao encontro de boas conversas. É lá! No bar da esquina, no bar distante, cheios de risadas e dramas que tudo vira escritos. Nos bares da vida, todo cronista põe a mão e o pé no dia seguinte. Conta das tardes e noites dos bares sonhadores e dos porres. E inventa também. Um bom cronista exagera um pouco. Nessas loucuras juntas mesmo, o leitor ri, chora ou desiste. 

Vera anda com saudades das leituras. Renovar a carteirinha da biblioteca pública. Ela sempre gostou de escolher um livro e espalhar vários títulos na mesa, lendo alguns. Já sabia o local das estantes dos clássicos de literatura estrangeira e nacional. Mas com máscara? Não tem graça. 

Durante duas semanas, o corpo de Vera começou a dar alguns sinais. Dores de estômago, intestino acelerado, noites mal dormidas, mau humor. O café da manhã com pão de queijo, mamão, castanhas, queijo com goiabada, um cardápio tão amado foi suspenso. 

Bolachas de água e sal, chá de folhas de goiabeira, as idas ao banheiro notificaram que esses alimentos tinham certo poder. Sem contar o almoço: sem tempero, sem gosto e sem felicidade. Mas o organismo melhorou. Sintomas físicos por causa do emocional. Foi preciso respirar. 

 

O Julgamento 

E agora? Vera tinha julgado quem estava furando a quarentena. Julgou mesmo. Ah, vai pra o inferno com essas festas, praias, aglomerações. Quer contaminar se contamina, mas faça- me o favor, não posta fotos, tá? Eu sonhando em sair, e vocês curtindo a vida como se não houvesse amanhã. A pandemia não acabou. Ainda não temos vacina. Depois Vera assinou a própria liberdade e deixou o povo pra lá. Foda- se. 

 

O Convite 

Dia 12 de janeiro, a nova coordenadora da biblioteca de Ituiutaba, entrou em contato com Vera. Um convite para um projeto. Um clube do livro com debates temáticos sobre questões de gênero. Um grupo de mulheres escritoras, com reuniões semanais para discutir o livro do mês. Vera agradeceu e confirmou a participação online. Presencial só depois da vacina. E tudo foi se ajeitando. 

A preocupação de Vera pela vacinação não era neurose. Ela tinha quase 60 anos e era cardiopata. Os únicos lugares de janeiro: Clínica do ginecologista, clínica de diagnóstico por imagem e consultório do dentista. Com protocolos obedecidos. Os resultados das consultas foram favoráveis. A senhora dos quase 60, podia se gabar da saúde. Celulites sim, muitas lutas no percorrer da vida, sim, assédios, choros escondidos, lágrimas caladas, ainda assim era preciso sonhar. 

 

O Sonho 

A avó materna morreu quando Vera tinha apenas quatro anos. A primeira neta. A neta que a avó levou aos cultos evangélicos. Mas era uma criança dos anos sessenta, e não entendia bulhufas do que o pastor falava. A vó Iracema tinha o nome do livro de José de Alencar, e o tom da pele e os traços físicos de uma indígena. Vez ou outra Vera tirava umas fotos antigas do álbum de família. Lá estava a avó. Sorrindo. 

Na noite do dia 16 de janeiro, a neta sonhou. O cenário era alegre, pessoas sorrindo e a avó era a personagem principal. Vera se sentia tranquila como se um novo Brasil surgisse. Bom seria acordar com uma notícia boa. Daquelas de plantão urgente, sabe? 

 

Aquela esperança de tudo se ajeitar 

No dia D domingo, depois de um banho demorado e muito hidratante no corpo, calcinha larga, uma saia com a blusa e o par de chinelos, Vera se aproxima da mesa da cozinha. Eram onze horas da manhã. O marido com o celular ligado nas notícias. 

— E aí? O Rodrigo Maia já assinou o impeachment? 

— Não. A vacina chegou no Brasil. São Paulo começou a vacinar. 

Na cidade de Vera, as vacinas chegaram terça-feira. Uma técnica de enfermagem foi a primeira a ser vacinada. 

Vera faz 60 anos daqui a dois dias. Será vacinada em meados de março, possivelmente. Enquanto houver ciência, há esperança. Quem viver verá

Comentários

Laercio disse…
Que bom ver em tempos tão difíceis uma crônica positivista. Esperando que em tempos não tão longínquos possamos nos abraçar presencialmente. Viva a vacina! Viva a vida! Viva a essa crônica maravilhosa!
Zoraya Cesar disse…
que texto interessante, Sandra! (ou Vera?). Descolar-se de si mesmo sem se afastar de sua essência, que experiência!
E ainda termina com uma ponta de esperança. Como nao gostar?
Albir disse…
Ciência é vida, "apesar dos perigos."
Que beleza, Sandra, um resgate da esperança.
Paulo Barguil disse…
Sonho com os entes queridos, que partiram cedo ou não, e com a vacina que acalentará quem desejar. É Vero! :-)
Nadia Coldebella disse…
Olá, Sandra querida!

Começo dizendo que amei esse passeio que vc fez pela sua vida, digo, de Vera. Tem várias coincidências com o que venho sentindo. É curioso!

Parece que não acontecem muitas coisas nessa quarentena, porem acontecem tantas ao mesmo tempo! Mas é mais dentro da gente, né. Outro dia fui dar um curso, presencial, todo mundo afastado, todos de mascara, lugar aberto. Fiquei me perguntando como me comportar em público. A verdade é que o isolamento, para mim, foi muito bom.

Também desejo acordar e ver a mudança (inclusive a politica), mas acho que o nosso mundo caminha mais em direção ao poço que à montanha. Tento ser otimista como vc, mas está meio complicado.

Espero que a vacina chegue logo até vc, para que as portas sejam escancaradas e para que vc viva a sua vida intensamente!

Grande beijo e vou te acompanhando por aqui.

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