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Mostrando postagens de Junho, 2022

EXÍLIO >> Carla Dias

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Amanheci naquele lugar e não havia quem. Não havia pessoa para me entregar serventia. Naveguei por mares sumidos. Ainda penso neles como movimento, pele das ocasiões, suor da existência. Penso neles como penso nas pessoas que não conheci, mas se tornaram minhas companheiras de exílio. Escuto o que algumas têm a dizer, escolho outras para ignorar, o controle remoto servindo de guia. Os sons me fazem companhia. Não raro, o do vento se arrebenta nas costas das paredes das casas abandonadas. Há dias em que parece canção desprendida da dor de alguém, chego até a chorar, compadecida. É diferente de quando lamento minhas próprias dores, elas que latejam sem pausa, justo quando a pausa é a necessidade que me hostiliza, por eu não ter como atendê-la. Não à toa, elas me fazem escolher o pior abrigo: um desejo irrealizável, de martirizar o possível na condição de insuficiente. Não é assim pagar pecado? E eu pago os meus à vista, que nunca fui de fazer de conta, vou logo me debatendo nos erros, qu

MEDOS, ANSEIOS, ANGÚSTIAS E PARANÓIAS >> Clara Braga

Confesso: eu tenho medo! Aliás, medo não, medos, no plural! Mas se quer saber, não me acho medrosa, ao longo do tempo mudei meu entendimento sobre a palavra medrosa. Não, eu não quero saber mais do que o dicionário, mas realmente acho que ser medrosa não tem a ver só com o fato de ter ou não medos, mas sim com o que você faz com eles.  Apesar de ter vários medos, procuro não me deixar paralisar, é o bom e velho: está com medo? Vai com medo mesmo! Esses dias tive um compromisso que me tirou de casa de madrugada. Saí com o céu ainda escuro e as ruas totalmente vazias. Comecei a ter medo já na garagem, já que recentemente fui informada de que aconteceu de pessoas terem entrado na garagem de madrugada e roubado bicicletas. E se eu dou de cara com uma pessoa dessas, o que acontece comigo? Depois tive medo enquanto dirigia na rua totalmente abandonada: se o carro para de funcionar agora eu estou F*DIDA! Enfim, como disse, os medos são vários e eu já cheguei até a me questionar se eu não esta

MÚSICA É SAÚDE, VIZINHO! >> Albir José Inácio da Silva

  Vitório acordou sem os malditos acordes. Há muitos anos não sabia o que era uma manhã de paz. Quase silêncio, um latido distante, passarinhos cantam na árvore que filtra os raios do sol na sua janela. Nada das malditas marteladas nas teclas do piano.   A bruxa bateu as botas – lembra-se, enchendo os pulmões de ar.   Antes gostava de música, cantarolava umas melodias e chegou a pensar em aprender violão. Seus problemas com a arte começaram no dia em que a vizinha chegou para o apartamento da frente. O piano não coube no elevador nem subiu as escadas, teve de ser içado pela janela, com a voz da dona gritando cuidados com o instrumento. Instrumento de tortura, ele descobriria em breve.   Após alguns dias, foi falar com a vizinha. Sorridente, conciliador, achando que tudo podia ser resolvido no diálogo, como aprendera na vida. Explicou questões pessoais, seus problemas com barulho, conselhos do psicólogo, inventou traumas. Queria sensibilizar, quem sabe virava amigo, trocava peda

A VENDEDORA >> Sandra Modesto

  Tudo começou em fevereiro quando eu anunciei pelas redes sociais: “Em breve" Depois: "Lançamento em abril" E o alvoroço se fez. Qual o produto que eu ia lançar? Eu me segurei no limite da ansiedade. Recebi o PDF do livro para revisão, a foto da capa do livro, o miolo do livro. Tudo era livro. Tudo. Assim como a vida, que às vezes, nos leva  a pedir socorro Bom, o "Era Sábado" é um livro de crônicas. Como divulgar o livro sem ele nas mãos? Eis minhas ideias... A epígrafe é o trecho da letra de João e Maria de Chico Buarque e Sivuca. Eu postei uma imagem da música explicando que a primeira crônica do livro tinha o título da música.   O David, da crônica “A Casa de Davi", é o meu vizinho pequerrucho. Ele perdeu o vovô  no final de 2020. Chorou pela calçada da minha casa. Abri o portão, abracei- o bem forte e disse: “Seu vovô morreu, mas estará sempre vivo aqui oh, dentro do seu coração." Vi muitas meninas na  calçada da casa do David. Por  vários dias.

TEXTOS ALINHAVADOS>> Cristiana Moura

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TODOS OS COGUMELOS SÃO COMESTÍVEIS - 1ª parte >> Zoraya Cesar

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Quem vive da terra está acostumado ao ciclo da vida e da morte. Mas uma coisa é uma morte morrida. Outra é uma morte matada. Principalmente quando há magia e cogumelos envolvidos. Minsk ouviu sussurros cantantes pelo quarto escuro e gélido. Não abriu os olhos, não se mexeu. Mal respirava. Queria trocar de posição - as costas doíam e ele daria tudo para poder levantar e acender a lareira. Mas não deu nada. Esperou.  Até que um leve odor de húmus penetrou em suas narinas e uma coruja piou sobre o telhado. Aí ele soube que a Fei Ved’ma havia partido.  Levantou-se, esticou os músculos doloridos de quem dorme sentado numa cadeira dura, olhou para fora.  No peitoril de madeira da janela, havia surgido um delicado cogumelo, pequeno, reluzente, coberto por um fino pó azul - um Grib Siniy. Uma espécie que não podia ser cultivada pelos mortais, só aparecia por vontade das fadas protetoras dos cogumelos - desse e do outro mundo -, as Fei Ved’ma. Apesar de deprimido pela perda brutal que sofrera r

ALUGUEM OS MORTOS >> whisner fraga

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aluguel dos mortos?, quem há de cobrar de quem?, não mexe com quem está descansando: espólio, usufruto, parceria público-privado, essas denominações faustosas, evoco genet: pompas fúnebres,  e muitos defendiam, não aponto dedo, mas tenho certeza: eles defendiam a privatização: vende os correios, vende a casa da moeda, a ceagesp, a dataprev, a vale, a embraer, o banco do brasil, vende a petrobras, vende a eletrobras, vende o pretobrás,  ah, não, itamar assumpção não se vende, mas quem imaginaria que diminuir o estado fosse isso, entregar cemitérios?, enxugar jazigos?, e se não quitarem o boleto todo mês, sumirão com os ossos, deixarão, talvez, à disposição: não seria melhor que aprovassem o home cemetery?, em vez do home schooling, do home office?, mas não gostaram, foram, inclusive, até a sucursal da globo e, nada: lá são a favor da cessão (outro termo sofisticado), foram à subprefeitura, foram à igreja, foram ao ministério público, mas não tem jeito, o contrato foi assinado, inês é mo

Parem este ônibus >> Alfonsina Salomão

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  « Parem este ônibus, meu filho está lá dentro! Parem este ônibus, meu filho está lá dentro!”.    Eu repetia esta frase aos berros ao mesmo tempo em que corria. Estou acostumada a ser a mãe que grita no meio da rua, pois desde que Enzo sabe andar ele vai pra onde quer quando quer, me obrigando a correr atrás: “Cuidado com o carro, não atravessa, espera a mamãe!”.  Enzo nunca teve medo de se perder ou machucar, ou talvez ele sempre tenha confiado que eu estaria logo ali, dando um jeito de acompanhá-lo. Ao ver esta cena, amigos e familiares sugeriram mais de uma vez que eu o amarrasse com uma cordinha ou algo que o valha. Mas preferi manter sua liberdade, enxergando com bons olhos a autonomia e confiança em si mesmo do pequeno, apesar dos sustos – confesso que já o perdi algumas vezes.    Mas desta vez a coisa tomou proporções inimagináveis. Se é cansativo correr atrás de uma criança, correr atrás de um ônibus é desesperador. E desta vez a culpa nem foi dele... Estávamos no ponto, ele b

VELHOS >> Sergio Geia

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  “Velhos” é o título do livro da Alê Motta, Editora Reformatório. Eu superindico, seja você moço ou velho. Textos curtinhos e profundos. Compre. Leia. Depois me conte.  Eu estou com 52, quase chegando aos 53. Bom... Quando comecei a escrever esta crônica era assim, mas o tempo voa. Como não a terminei e retorno somente hoje, melhor ser honesto: estou com 53. E falando em honestidade, honestamente, não me sinto velho; e nem deveria, não é? Mas certas coisas me acontecem...  De repente, vejo manchas brancas na calça, do lado direito, próximas ao bolso. Sempre no mesmo lugar, mas nem sempre. Não. Assim ficou confuso. Deixe-me ser mais claro. As manchas sempre estão no mesmo lugar: na calça, próximas ao bolso direito. Mas nem sempre elas estão. Compreende?  Quando estão e eu as vejo, trato logo de fazer a limpeza. O problema é quando estão e eu não as vejo, e saio todo pândego pra rua com a calça suja; nada mais deprimente. Devem pensar, tá ficando velho, o pobre, velho e descuidado; agor

ENCRUZILHADA >> Paulo Meireles Barguil

E, mais uma vez, ele tinha a sensação de que estava quadriculando. Não tinha dúvidas de que muito tempo havia se passado. Ignorava, contudo, se as esquinas eram realmente novas ou se apenas as molduras tinham mudado. Olhou para o chão, porém as pedras nada falaram. Olhou para o céu, mas estrelas não apareceram. Procurou um rosto ou corpo conhecido, contudo a busca foi inútil. Nem o espelho lhe ajudou neste momento. Sabia que a areia continuaria a descer até o último grão. Atordoado, ele abraçou a sua sombra e adormeceu.

SOL SOMBRIO - O HOMEM SEM ROSTO: Parte VI >>> Nádia Coldebella

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Era uma grande planície avermelhada e de solo compactado. O sol, impiedoso, secara toda a água e a terra, ferida, rachava em profundas fendas. Apesar disso, o céu parecia eternamente pronto a desabar em intensa chuva, mas nenhuma gota caia. Não havia vento, nem brisa, só mormaço e agonia. O Anjo Negro pousara há pouco sob o solo craquelado e amaldiçoado. Segurava firmemente o caderno, mas estava nu e despojado de qualquer estratégia. E era assim que devia estar, pois aquele lugar não permitia nenhum tipo de proteção, plano ou segundas intenções. Quem ali se atrevesse a chegar, deveria estar preparado para ser despido, invadido e prescrutado de todas as formas possíveis: sentiria todas as suas sombras arderem ao sol e sua alma racharia em mil partes, para que todos os segredos fossem expostos. Ele sentiu o calor irradiado pela terra ferir a sola dos pés descalços. Sentiu as vias aéreas arderem sob o cáustico mormaço. Sentiu o sol ardente fustigar-lhe a pele, querendo desfazê-la em mil p

DESALMA >> Carla Dias

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Desentende-se com certos desejos. Os que o cercam vivem a satirizar sua indignação diante de tais prazeres, o que nunca cala seu incômodo. Sobre aquilo que não entende, mas que exige a decência da compreensão, ele luta para não permitir que o questionamento se afogue na saliva das conversas fúteis. Sabe que descarrilar-se da importância é uma perversidade que um ser humano é capaz de arremessar ao outro com o rótulo de trabalho concluído ou caridade providencial. Dizem que não dá para levar a vida como a que tem levado, desentendendo-se com o é como é . Conhece quem acha que cada geração tem de lidar com o problema da sua época. Assim, não se preocupa em cuidar do que não desfrutará, levando essa determinação a um entendimento tão distorcido, que indivíduos dessa categoria só fazem ajuda a alimentar decisões que não têm volta. Abateu a árvore, nasce outra. Secou o rio, tem um monte de água no mundo e a chuva resolve. Se eu fizer, ah, só eu fazendo não prejudica. Se fica parado, melhor

ZONA DE CONFORTO >> Clara Braga

Quando os coaches começaram a aparecer em massa, também passamos a ouvir com mais frequência sobre a tal da zona de conforto.  Posso estar enganada, mas pelo que entendo, estar na nossa zona de conforto significa estar em um estado físico e emocional que é confortável para nós, no qual não precisamos fazer esforço para estar ali pois nos sentimos seguros. Ou seja, imagino que estar na zona de conforto seja o objetivo de todos, afinal, quem não gosta de se sentir confortável e seguro, não é mesmo? Mas, segundo coaches e gurus que dizem estar embasados nos dizeres de Einstein, estar na zona de conforto não é exatamente o que você deveria desejar, pois ela te deixa em um estado tão cômodo que te faz repetir sempre as mesmas ações, alcançando sempre os mesmo resultados e te fazendo viver no piloto automático. Quando você se propõe fazer diferente, sair da zona de conforto, é que você começa a alcançar resultados diferentes e encontra sucesso e felicidade. Eu acho tudo isso muito legal, mas

JUÍZO FINAL >> Albir José Inácio da Silva

  Ainda bem que o mundo não acabou no dia marcado porque eu tinha aí umas pendências. Uns malfeitos pra desfazer, uns pecados pra confessar. E até um menino pra assumir - que Zefa vai pular nas tamancas, mas não posso ir assim pro julgamento final. Padre Antônio falou que o mundo vai acabar sim, mas não é agora não, faltam alguns anos. Ele faz cara de que sabe quantos, mas não diz. Eu não acredito porque já peguei outras mentiras dele. Ainda mais depois do que fez com aquela moça antes donzela, que ele inventou que tava com demônio e ela teve de fugir pro Rio de Janeiro. Pesa na minha consciência uns palmos de terra do Aderso. Verdade que eu cheguei a cerca pra lá depois que as vacas derrubaram, mas foi pra compensar uns prejuízos. Quantas vezes falei pra tirar os animais do meu sítio e ele não escutou. Mas isso é coisa pouca. Outra pendência que preciso resolver antes de o mundo acabar é aquele moleque, o Dão. Eu já nem o contava mais como pecado, tantos anos sem notícia d

A PROSA E O POEMA

  O que é prosa? O caderno caiu no chão da cozinha. Ela teve preguiça diante da cena por tanto amor. Que agora, esfria e acende. Rima e se faz num sábado.  Pegou o ônibus no espaço de sempre.  Acenou para o motorista. Há trinta anos o percurso contínuo, olhos e ouvidos atentos às conversas. Renderiam crônicas. Encontros.   Queria uma prosa boa, uma história quente, não sabia na verdade, se queria uma trepada ou sexo com amor. Ah, naqueles tempos em que nada impedia uma paixão que fervia por todos os poros, no carro, no canto do amanhecer, a gente tinha, 20, 30 anos. Aos sessenta anos... Bem, depois disso, no colchão macio é uma boa pedida.  Prosa é a conversa de todos os dias. É o abraço no cotidiano. Um livro de crônicas requer um olhar apurado, ao mesmo tempo, é um gênero merecedor de prêmios. Por isso, eu adquiri vários títulos clássicos e contemporâneos escritos por mulheres.  O cantor Gilberto Gil disse um dia desses: “É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é um

CONFLITO >> whisner fraga

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o cara esbravejou de quem é o carro branco e eu seguia focado nos números pingando no visor, não me atentei, ele repetiu, mais específico: o clio, olhei para trás e só um carro branco e só um clio no estacionamento e era meu, ergui o braço direito, como na classe da quinta série e esclareci é meu, ele exigiu que o removesse de lá, pois atravancava o acesso dele ao outro veículo, o do lado, quando me levantei, aluado, derrubei todos os envelopes e a vizinha me auxiliou, recolocamos no banco, empilhados, desfilei vagarosamente até a porta do automóvel, à guisa de provocação, atendi o pedido, feito até de forma atabalhoada, acumulei uns apoios do público, dada a cena repugnante para as nove e trinta da manhã, mas nem me importei, a desfeita me coube como vingança,  entretanto, nada é assim, essa empatia conivente não integra o comezinho da realidade, e danei a cismar, eu não me reconhecia possuinte de qualquer coisa, é até lugar-comum este silogismo, para ser chique: existiam o papel pass

GIRÂNDOLAS, MADRIGAIS, SUBLIMAÇÃO >> Sergio Geia

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  Eu lia. Aí me apareceu uma frase com ela: girândolas . A frase, da crônica Crônica de Natal , de Antônio Maria, era a seguinte: “Os foguetes, as girândolas, as chuvas luminosas, tudo era para me enganar. E eu, calado. Minha vidinha secreta e atenta já desconfiava do silêncio desdenhoso”.  Girândola. Confesso que nunca tinha visto o verbete que me remeteu a girar, a algo que gira. Pensei, deve ser mais uma dessas belezas que sumiram do vocabulário nacional. Segundo o Houaiss, girândola quer dizer roda ou travessão onde são postos foguetes para serem queimados ao mesmo tempo; o conjunto desses foguetes quando sobem e estrelejam simultaneamente no ar. Que beleza!, pensei, e descobri por que o verbete sumiu de cena, recordando-me da igreja, dos tempos em que os foguetes eram disparados nas grandes festas.  Outra beleza que pouco vejo ou ouço por aí: madrigal . Há uma música de Roberto Carlos, Meu Cachoeiro , onde ele cita o verbete: "A minha escola, a minha rua, os meus primeiros ma

CAIU DE MADURA >> Paulo Meireles Barguil

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Acompanhei, durante várias semanas, o seu desenvolvimento. Quase todo dia, eu olhava para ela. De vez em quando, verificava a sua consistência. Cada espécie tem um momento adequado para a colheita. A natureza é uma excelente mestra. De todas as lições, aprender a ter paciência é uma das principais. Amadurecer é um  privilégio, pois vários fatores ameaçam o processo. Enquanto o ciclo não se completa, a gente continua a cuidar e a celebrar a vida... [Fruta-do-conde ( Annona squamosa ), Eusébio – Ceará] [Foto de minha autoria. 22 de maio de 2022]

DEIXAR PARA TRÁS >> Carla Dias

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Uma festa, ele sabe. Ano quatro da existência de uma criança que há pouco chorava um tombo que acreditava ser o pior. Desejou desmentir a crença, mas escolheu evitar brutalizar a inocência dela com a verdade de que os tombos pioram.  A sobrinha sonolenta enroscar seus braços no pescoço dele e deita a cabeça no seu ombro. A irmã deixa acontecer, porque gosta de observá-los, seus objetos de afeto mais profundo. Ela sorri bonito ao desacoplar a criança do corpo dele e pede que chegue na hora para o almoço do próximo sábado. A tarde vai se aproximando da noite durante a caminhada de volta para casa. São alguns quarteirões e as ruas estão vazias. Esse é o superpoder da chuva que ele mais gosta. Pensa como seria caminhar sem parar, até que seu corpo se recusasse a continuar.  Pensa muita coisa ao mesmo tempo. A irmã sempre pergunta por que ele é tão calado, ensimesmado, por que se desconecta tão fácil dos outros, mesmo quando a sala está cheia. Ele nunca responde, sabe que nada do que disser