TODOS OS COGUMELOS SÃO COMESTÍVEIS - 1ª parte >> Zoraya Cesar


Quem vive da terra está acostumado ao ciclo da vida e da morte. Mas uma coisa é uma morte morrida. Outra é uma morte matada. Principalmente quando há magia e cogumelos envolvidos.

Minsk ouviu sussurros cantantes pelo quarto escuro e gélido. Não abriu os olhos, não se mexeu. Mal respirava. Queria trocar de posição - as costas doíam e ele daria tudo para poder levantar e acender a lareira. Mas não deu nada. Esperou. 

Até que um leve odor de húmus penetrou em suas narinas e uma coruja piou sobre o telhado. Aí ele soube que a Fei Ved’ma havia partido. 

Levantou-se, esticou os músculos doloridos de quem dorme sentado numa cadeira dura, olhou para fora. 

No peitoril de madeira da janela, havia surgido um delicado cogumelo, pequeno, reluzente, coberto por um fino pó azul - um Grib Siniy. Uma espécie que não podia ser cultivada pelos mortais, só aparecia por vontade das fadas protetoras dos cogumelos - desse e do outro mundo -, as Fei Ved’ma. Apesar de deprimido pela perda brutal que sofrera recentemente, Minsk sorriu, agradecido, pelo presente mágico que recebera. 

Mágico e perigoso. Qualquer cogumelo vindo das fadas, quando mal manuseado. provocava efeitos  perigosos, quase sempre irreversíveis, muitas vezes nefastos. O Grib Seniy levava à morte inexorável e lancinante em poucos momentos. Mas, se bem preparado, permitia que a consciência do usuário penetrasse e desdobrasse as camadas do tempo e do espaço para um momento específico. Minsk era o único na região que poderia fazer isso. Ele e sua avó Tantine. Mas Tantine estava morta. 

Ela, que reconheceu o dom especial do neto e lhe ensinara tudo sobre plantas medicinais, cogumelos – os comuns e também os extraordinários - e as míticas Fei Ved’ma. 

Os aldeões a amavam. A maioria viera ao mundo por suas mãos de parteira, outros tantos deixaram de ir graças a seus cuidados, e vários voltaram à eternidade em paz, por conta de suas comezinhas para tirar a dor, a angústia, o medo. 

No instante em que a avó morreu, Minsk foi alertado por um sonho amargo, no qual via as fadas que a acompanhavam jazendo destroçadas. E quando os corvos da velha senhora invadiram o quintal de Minsk, crocitando lugubremente e desvanecendo-se no ar, num turbilhão de asas negras e melancólicas, não teve dúvidas. Tantine morrera. 

Ele encontrou o corpo largado na fímbria da floresta, engelhado e escurecido, uma múmia suja de carvão. Os olhos estavam grudados por uma espécie de visgo verde luminescente e todo seu cabelo e unhas haviam caído. Minsk soube imediatamente do que se tratava: envenenamento por Yad Smert, o cogumelo mais temível das redondezas. 

Acidente não fora, pois Tantine era esperta demais e conhecia tudo a respeito de cogumelos. Além disso, não gostava e não usava tal fungo. Portanto, alguém a matara e às Fei Ved’ma que a acompanhavam. 

Agora, ele precisava descobrir quem, e por quê. Principalmente, como fazer justiça. E não somente à sua avó. Pois se ele não punisse o assassino das fadas, suas irmãs se revoltariam, fazendo apodrecer as raízes medicinais, transformando bons cogumelos em seres venenosos, deixando os animais adoecerem, dentre outros infortúnios. 

Mas Minsk sabia que as Fei Ve’dma não haviam feito brotar um Grib Siniy em sua janela à toa. 

Acendeu a lareira, meditou por um longo tempo, e quando sentiu que estava pronto, começou. Colheu o cogumelo vagarosamente, com uma espátula de prata. Sacudiu o pó que o recobria numa tigela de barro e pingou sobre ele algumas gotas de extrato de artemísia – a erva da clarividência -, formando uma gelatina. Depois, picou o cogumelo e deixou-o no vapor precisamente por seis minutos e 37 segundos. Macerou-o, despejou a gelatina por cima, preparou um chá. Exatamente às 3h33 da manhã, pediu, em  yazik, a língua das entidades dos líquens, que as Fei Ved’ma permitissem sua viagem e o trouxessem de volta em segurança, para que sua consciência não ficasse eternamente presa em um momento que não o presente, e seu corpo definhasse. De olhos fechados, bebeu o estranho chá. 

O efeito foi quase imediato. Minsk entrou no estado onírico que o levou a viajar pelo tempo e espaço e presenciar o que acontecera à Tantine e às Fei Ved’ma. 

E ele viu. 

Viu, mas não acreditou. No entanto, não havia dúvidas. A magia do Grib Siniy era à prova de erros. 

A dor de Minsk foi tão profunda, que, não fosse sua grande força de vontade, nem com a ajuda das fadas ele teria conseguido voltar. 

Chorou desconsoladamente. Não só por ver a morte de sua amada avó, como por descobrir quem fora o responsável. 

A lareira apagou, o dia amanheceu, os tordos começaram a cantar. 

Minsk engoliu o choro. Uma névoa de paz o envolveu. A paz de quem sabia o que devia fazer. E ele não hesitaria

------------. 

Continua dia 8 de junho. 

Comentários

Isso é maldade! Vai nos condenar à imersão do cogumelo até a continuação do conto! Queremos saber quem matou a avó de Minsk ;/
Anônimo disse…
Mais um conto "à prestação"! Espero que não vire "carnê das Casas Bahia"!
Marcio disse…
Puxa vida, eu deveria ter desconfiado que, ao começar a leitura, ficaria agoniado pela continuação. Agora é tarde.
Lady Killer não mata apenas seus personagens. Também mata seus leitores de ansiedade.
branco disse…
uma primeira parte digna de milady. conciso, objetivo e imagético. cumpriu, e muito bem , seu objetivo e deixou a promessa de uma segunda parte que certamente a colocará entre as minhas prediletas.
Nossa, agora fiquei ansioso pelo final! Mas, mesmo à prestação, um conto delicioso. Parabéns sempre, minha amiga!
Nadia Coldebella disse…
Olha, esse trabalho de detetive do sobrenatural é muito complexo! Adorei as descrições e a história fluiu tão bem que fiquei presa, lendo num lugar barulhento, sem me dar conta do meu entorno.
Depois me passa a receita desse chazinho de cogumelo. A gente sempre precisa, né?
Aguardo ansiosamente pela próxima imersão mágica!

Bjoka, Lady Querida!
Albir disse…
"...uma coisa é a morte morrida. Outra é a morte matada."
Mas essa autora não gosta da primeira, né?
Por via das dúvidas, vou eliminar o shiitake da minha dieta.
Zoraya Cesar disse…
Ana - maldade é a minha praia! kkkkkk, vc me fez um elogio, vc sabe. Tô com saudades sua Linda!

Anônimo - sabe q vc me deu uma ideia? hehehehe

Marcio - ownnnnn, além do comentário, como sempre, gentilíssimo, agora sei q conquistei vc, hahaha, vc desistiu de só comentar no último episódio!

branco - my lord white! Sempre q vc vem aqui me enche de alegria e orgulho.

Antonio Fernando - ah, agora que não só já sei quem vc é e q já até nos encontramos, fico cada vez mais feliz com sua vinda aqui pra me ler e comentar!

Nadia Coldebella - Dear Countess! Olhe, passo a receita sim, mas tenho certeza q vc vai gostar mais da receita q tem no próximo capítulo heheehe

Albir - Dom Albir, acabei de ler sua crônica e, como disse lá, vc nao pode mais me acusar de fazê-lo perder o sono! Mas, sim, não gosto da primeira nao kkkkk. E pode continuar a comer o shitake. Só preste atenção em quem o prepara...

A todos, muito, muito obrigada!
Alfonsina disse…
Zô, você sempre me impressiona com sua capacidade de criar universos mágicos com tanta coerência e eficácia que em poucos parágrafos a gente já está completamente imerso. Isto é maravilhoso! Estou ansiosa pela sequência, imaginando quem pode ser o assassino e porque a decepção do herói foi tão grande…
Zoraya Cesar disse…
Alfonsina - uau, que baita elogio! Muito obrigada! Espero não decepcioná-la!
Érica disse…
Não acredito que você fez isso de novo! Humpf! Vai deixar a gente mofando até virar cogumelo. Sem comentários! Só na segunda parte. Isto é, se for a última. Senão vou te deixar mofando também de castigo kkk
Zoraya Cesar disse…
Erica... AHAHAHAHA, amei seu comentário kkkkkk

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