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Mostrando postagens de Fevereiro, 2013

SEM PRESSÃO, POR FAVOR
>> Fernanda Pinho

Considerando os resmungos generalizados, acho que acontece com todo mundo.  Você está solteira, querem te fazer namorar. Você está namorando, querem te casar. Você está casada, querem te engravidar. Estou sentindo isso na pele especialmente depois de ter me casado. Desde então, escuto todos os dias (TODOS OS DIAS!) alguém me dizer que eu tenho que ter um filho. E, gente, eu estou casada há apenas nove meses (NOVE MESES!).
O assunto dá pano pra manga, colarinho e bolsos. Poderia falar sobre a necessidade das pessoas de tentarem organizar a vida alheia ou sobre como a sociedade acredita que se você não está seguindo determinado padrão (Padrão? Eu falei padrão? Que ano é hoje?) tem alguma coisa errada com você. Mas nem é o caso. O que me traz ao desabafo é como esses conselhos imperativos me incomodam. Primeiro porque, definitivamente, eu quero fazer o que eu quero, não o que os outros querem que eu faça. Segundo porque esse tipo de comentário acaba provocando efeito contrário em mim. 

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?
>> Carla Dias >>

"Do lugar onde estou já fui embora." Manoel de Barros

Um amigo está passando por uma fase pela qual, eventualmente, todos nós passamos. Conversando com ele, por meio de mensagens, acho que me empolguei e, durante a insônia da vez, fiquei pensando que talvez seja hora de prestar mais atenção em como me intrometo na vida dos amigos.
Intrometimento intelectual...

Existencial...

Intrometimento.

Fato é que, após lhe escrever uma mensagem sobre como o acho merecedor de cada conquista, de cada oportunidade de ser feliz, de quão talentoso ele é (tudo verdade!), em vez de finalizar a mensagem com o tradicional “beijos”, eu o fiz com uma pergunta que, fora do contexto mais poético que realista, quando feita a um adulto, não cai muito bem:

O que você quer ser quando crescer?

Para um adulto, em busca de seu lugar no mundo, essa pergunta pode soar um tanto ofensiva, como se a pessoa que ele tem sido e as conquistas que vem realizando não tivessem valor, como se a sua fase adulta estivesse …

PENSANDO BEM... >> Clara Braga

Eu sempre gosto de acompanhar a premiação do Oscar. Nem sempre consigo assistir inteiro, afinal, não é sempre que dá pra ficar acordada até 2 horas da manhã de uma segunda-feira. Mas gosto de acompanhar quando saem os indicados, tento assistir a maior quantidade de filmes possível antes da entrega dos prêmios, e participo de algumas promoções dando meus palpites dos vencedores, afinal, vai que em uma dessas eu ganho um ano de cinema grátis, né? Não custa tentar.

Esse ano não foi diferente, acompanhei a festa inteira, consegui ficar acordada até o final e achei interessante reparar que dessa vez não tinha nenhum filme que eu tivesse detestado, mas também não teve nenhum que eu amei de paixão, ou seja, no geral, gostei de todos. Mas claro, tinha meus prediletos em cada categoria. Inclusive, minha predileta para melhor atriz era a Emmanuelle Riva. Não só ela como eu, particularmente, achava que todas as atrizes que estavam concorrendo na categoria mereciam mais do que a Jennifer Lawrence…

DE MAIAS E DE PAPAS
>> Albir José Inácio da Silva

Em vez de arranjar um trabalho que lhe complementasse a aposentadoria, como vive sugerindo sua mulher, Micaelo fica por aí solucionando os grandes problemas da humanidade. Não gosta de assuntos menores, calçamento, coleta de lixo, posto de saúde. Gosta dos grandes temas mundiais.

Micaelo foi um dos que acreditaram na previsão maia do fim do mundo em dezembro passado. Mas ao contrário dos outros, que se decepcionaram ou comemoraram no dia seguinte, ele pensou: não seria o começo do fim? E o noticiário se apressou em confirmar-lhe as suspeitas.

Muitos meses depois da aprovação da lei da ficha limpa, um processado, acusado e renunciado para escapar à punição, assume a presidência do Senado brasileiro. Não é o fim do mundo? — pergunta Micaelo.

O meteoro de que se tinha medo só passa perto da Terra, sem maiores conseqüências, mas um outro, inesperado, faz um estrago na Rússia com centenas de vítimas e milhões de rublos em prejuízos. Micaelo suspeitou que fosse um míssil da OTAN e que a hec…

OUTROS (E PRÓXIMOS) CARNAVAIS
>> Sílvia Tibo

Certa vez me disseram que não há quem consiga se manter fiel por muito tempo a uma mesma fase da vida. Há períodos, por exemplo, em que tudo o que se quer é agito, balada, vida social intensa. Em outros, a prioridade é o crescimento profissional e financeiro e para atingi-lo trabalhamos incansavelmente, convencidos de que todo o resto é resto e, portanto, deve ser deixado em segundo plano. E há, ainda, aqueles em que só nos interessam boas noites de sono e tempo livre para fazer aquilo de que realmente gostamos, ainda que isso signifique ganhar um pouco menos no final do mês.

Humanos que somos, vivemos mesmo em um processo de mutação constante de sentimentos, preferências, valores e perspectivas, que se transformam de tempos em tempos, muitas vezes para a nossa própria estranheza e perplexidade. Há poucos dias, senti na pele essa coisa toda acontecendo comigo. O carnaval sempre esteve entre minhas festas prediletas. Nos tempos da faculdade, passava meses planejando o que faria e para ond…

MEU DIA DE INCRÍVEL HULK
>> Mariana Scherma

Tem gente que morre de pânico de ficar sozinho, já reparou? Chega em casa e entra na internet, liga pra alguém e liga a tevê também. Tudo ao mesmo tempo. Tudo pra passar a impressão fake de estar bem rodeado. Talvez seja a falta de preparação pra morar sozinho. Medo de ficar na sua própria companhia e ouvir seus pensamentos, eu acho.

Pra mim, morar sozinha tem um quê de mágico. Todo dia me sinto numa HQ de super-herói (no masculino, porque odeio falar super-heroína, soa como uma droga megapesada) com poderes semibestinhas, como fazer um café melhor que o de ontem e conseguir tirar uma mancha da camiseta branca. E todo dia também sou obrigada a controlar minhas variações de humor quando algo sai errado dentro de casa (equilíbrio, faça o favor de me visitar dia desses...). Isso é superpoder pra caramba, meu amigo!
Domingo passado, eu estive cara a cara com meu arqui-inimigo mais temível: uma barata. Não uma baratinha, uma dessas cascudas, grandes e com aquelas antenas de meio metro (ok, e…

NOTAS DE QUEM SABIA >> Carla Dias >>

No fundo, sempre soube, assim, desse jeito de criança que observa o futuro, feito criatura que se mistura às idades que ainda não completou. Como quando se sentava em frente de casa, roçando o pé na grama, observando o sereno chegar e com ele o silêncio que só cabe nas tardes serenadas. De enquanto era pessoa que não sabia que pessoa se tornaria dali duas, três décadas. Aliás, pensar em décadas era muito complicado, dava em dor de cabeça quase como aquela que chegava depois de observar o céu por horas, tentando entender onde terminava o universo. Porque flertar com o infinito lhe parecia perigoso. Por isso imaginava futuro com auxílio da tabuada: daqui 2 x 3 anos, 4 x 2, 3 x 3.

Sempre soube, feito a menina desamparada de presença, que nem se importava em passar quase todo o tempo na própria companhia a dobrar roupas, varrer o chão, cuidar do jantar. Tampouco temia o silêncio que antecipava as tempestades. E calçava os chinelos por conta dos relâmpagos, porque temia que eles lhe entra…

MUNDO VULGAR
>> André Ferrer

Em 1986, assisti ao “De volta para o futuro” no cinema. Tinha então 13 anos e já se instalara em mim aquela estranha nostalgia relacionada a uma época não vivida que, no meu caso, era os anos de 1950 e 1960.
Em 1987, eu estava na oitava série (na época, o último ano do fundamental) e a minha turma precisava ganhar algum dinheiro para a viagem de formatura. Lembro-me do comércio de bolos e doces no intervalo e, também, de um hilário bazar de roupas usadas que montamos numa praça da cidade. Lembro-me, especialmente, das sessões em VHS que promovíamos na escola. “De volta para o futuro” foi uma das principais atrações.
Outro dia, eu trocava lembranças com um amigo daqueles tempos via Facebook e, algumas horas mais tarde, enquanto eu aguardava a fornada das 15 horas na padaria do bairro, comecei a ter uma ideia intrigante.
Na época da oitava série, a minha mãe fazia o bolo de laranja campeão de vendas nos intervalos. A cobertura era uma mistura simples de açúcar de confeiteiro e suco de lara…

DOIS ENCONTROS
>> Whisner Fraga

Ano passado, pouco antes do Natal, fui a Ituiutaba, a convite do meu amigo Anésio, para uma mesa na UFU, que compartilharia com Gazy Andraus e Tina Curtis. Durante o evento, li um trecho de um conto inédito e aproveito para pedir desculpas à minha mãe, atenciosa na plateia. O pedido se justifica pelo fato de que o texto é bastante forte, quase pornográfico, e não pega bem para uma senhora de setenta anos ficar escutando essas indecências. Findo o bate-papo, saímos à procura de um hotel. Não me preocupei em fazer reservas, pois a cidade sempre foi sossegada, ainda não tinha ouvido falar em falta de um canto para pousar. Só que estava sendo inaugurado um grande supermercado naquele dia, erguido sobre as ruínas de um prédio histórico, devidamente demolido para dar passagem ao progresso. E, evidentemente, pensões e hotéis estavam lotados para o acontecimento. Como não tínhamos escolha, resolvi colocar o carro na estrada e rumamos para Uberlândia.

Como estávamos com fome, eu e minha mãe re…

MUITO ALÉM DA SIMPLES TAPIOCA
[Ana González]

A primeira vez que eu comi tapioca foi em Recife, na frigideira com recheio. Depois, conheci a baiana, doce no café da manhã com leite de coco. Fiquei com as duas na memória, pois era uma delícia que não era comum em São Paulo naquela época.

Até que um dia, numa esquina do meu bairro, fazendo a feira semanal, vi uma mulher jovem, moça do povo, séria, contida em seus movimentos à frente de um fogareiro de uma boca em uma mesa improvisada. Saia colorida, cabelos longos presos na nuca em um rabo de cavalo.

Ela estava fazendo tapioca, sim, aquela que eu desejara por muito tempo. Seria nordestina? Experimentei e virei freguesa dessa cozinheira de esquina inventando moda na grande capital.

Daí em diante observei seu negócio crescer. Ela incrementou seus recursos, pouco a pouco. Melhorou o fogão e a panela em que fazia a roda de farinha, que é a base da guloseima. Foi mudando detalhes importantes, mas a farinha branca — alvíssima — e os recheios continuavam os mesmos.

Até que um dia vi um…

TERAPIA ANIMALANÍMICA
>> Zoraya Cesar

Hoje, com a variedade de terapias ao alcance de qualquer freguês, só os muito renitentes continuam a carregar o peso de suas inseguranças, diziam os amigos. E tanto insistiram que ele, cansado de sua própria personalidade fraca, de nunca ser notado, de ser sempre o preterido, resolveu fazer terapia.
Agora, como escolher entre o extenso cardápio de ofertas? Terapia do inconsciente, das vidas passadas, presentes e futuras, astrológica, lacaniana, dos cristais... Acabou por aceitar a indicação do cunhado do primo de um amigo.
A terapia animalanímica – esse era o nome – consistia em ativar a memória atávica da época em que, muito antes da civilização, homens e bichos viviam em harmonia, e despertar o animal interior cujas qualidades faltavam à personalidade do paciente. Daí o termo animalanímico, de animal e anímico (relativo à alma), explicava a entusiasmada terapeuta, garantindo que o método, criado por ela mesma, era infalível, rápido e duradouro, nada de ficar dez anos no consultór…

TODO FILME É BOM NO TRAILER
>> Fernanda Pinho

BUKOWSKI, JANSEN E FANTE
>> Carla Dias >>

Charles Bukowski

Eu terminei de ler a biografia de Charles Bukowski, depois de iniciá-la várias vezes. Sempre havia algo que me fazia dar um tempo na leitura, mas dessa vez foi de uma tacada só, ou seja, da melhor forma de se ler um livro: abri-lo e só fechá-lo porque não há mais o que ser lido.

Vida e loucuras de um velho safado, de Howard Sounes, é um livro interessante porque apenas cita os fatos. O autor não impõe a própria opinião sobre o escritor, o que é bem difícil, já que Bukowski sempre foi semeador de opiniões desencontradas sobre a sua pessoa e a sua obra.

Pouco antes da leitura, eu assisti ao documentário Born into this, de John Dullaghan, e repeti a dose assistindo, mais uma vez, um dos meus filmes de cabeceira: Barfly.

Sim, foi uma overdose de Charles Bukowski.

Eu nunca tinha assistido a uma entrevista de Charles Bukowski, e me admirei com a clara timidez do autor. Com a leitura da biografia, soube que essa timidez se transformava em violência verbal e até física, após e…

NÃO ESTÁ FÁCIL
>> Clara Braga

É, não deve estar fácil para ninguém mesmo. E, diferente do que você deve estar pensando, eu não estou falando isso por causa da renúncia do papa, apesar de achar que querer que as pessoas assumam cargos para o resto de suas vidas em uma época em que estamos vivendo demais — algumas pessoas até mais do que o necessário — é sacanagem, até para um papa. Não vou entrar nesse assunto.
Eu estou me referindo à questão financeira dos moradores de Brasília! Carnaval por aqui significava cidade mais do que vazia. Os que gostam de carnaval saíam daqui correndo à procura de um lugar onde de fato tivesse carnaval para curtir. E os que não gostam, procuravam um lugar tranquilo apenas para descansar no feriado.
Eu, particularmente, gosto de carnaval, mas aprecio ainda mais ter uns dias de folga para não fazer nada além de ler uns livros que estavam parados por falta de tempo e assistir a alguns filmes, principalmente faltando pouco tempo para o Oscar. Ou seja, Brasília era o lugar mais do que adeq…

ESSE MENINO!
>> Albir José Inácio da Silva

— Onde você pensa que vai, João Leno? — perguntou a mãe sem querer saber coisa alguma, e menos ainda os pensamentos do filho, antes querendo dizer “não vai a lugar nenhum!”.

— Na casa do meu colega. — respondeu o menino, mas sem querer significar coisa alguma porque, apesar de parecer um colega determinado, podia ser qualquer colega ou colega nenhum; podia ser uma rua, uma esquina ou a favela mais próxima. Colegas iria encontrar, mas não sabia quais nem pra quê.

— Se você sair de casa, eu vou contar pro seu pai! — insistiu a mãe, sabendo que não iria contar coisa alguma porque o pai lhe enche muito mais a paciência por causa do menino do que o menino com suas escapulidas. Sabendo que o menino iria de qualquer jeito, como todos os dias, mas cumprindo o dever de proibir coisas perigosas, como sabia serem perigosos os passeios dele. Ou não sabia mas imaginava. Ou nem imaginava, mas era melhor prevenir porque não faltavam ameaças do pai caso acontecesse alguma coisa com o menino.

João Le…

SOBRE NOITES DE INSÔNIA E CANAIS DE TV POR ASSINATURA
>> Sílvia Tibo

Depois de anos sobrevivendo apenas com os canais abertos, finalmente resolvi contratar um pacote de TV por assinatura. Dentre os muitos planos que me foram oferecidos, fiquei com o intermediário, certa de que jamais conseguiria assistir, por cinco minutos que fossem, pelos próximos cinco anos, a cada um dos quinhentos e tantos canais disponíveis nos planos mais “avançados”.

Afinal, passar horas em frente à televisão nunca foi um dos meus passatempos prediletos. Há sempre um ou outro programa que me agrada e que eu procuro acompanhar. No mais, dou uma fisgada diária nos telejornais pra saber o que anda acontecendo no mundo e nada mais. Por isso, sempre achei que os tais canais fechados não fossem ter grande utilidade pra mim, que vinha sobrevivendo bem sem todas aquelas opções de séries, jogos de futebol, programas de entrevistas e documentários que existem por aí. Quanto aos filmes, embora eles estivessem entre os meus programas favoritos, sempre preferi a tela grande do cinema à TV de …