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DESPUDORADA >> Zoraya Cesar

A ocasião não poderia ser mais perfeita. Ninguém em casa, só ela e seu amor de todo o sempre, íntimos, sem testemunhas, sem pudores.

Ela rebolava, provocante, apertada na bermuda que um dia coubera perfeitamente e que agora parecia ser de outra pessoa - mais magra, bem mais magra. O homem a olhava fixamente, parecendo não se importar com a extensa bacia hidrográfica que desenhava rios de veias azuis nas pernas dela, e que, todo dia, parecia ganhar mais um afluente. De costas, ela esfregava a última panela e também as pernas de coxas grossas, uma contra a outra, embalada pela música romântica que vinha do rádio.

“Eu te quero assim, fazendo uma cama na nossa banheira, pedindo me espere que eu quero mais”, gemia o cantor Wando, pela oitava vez, isso sim é música, não essa modernidade esquisita de chamar a mulher de cachorra! Ela acompanhava a música, desafinada e feliz, como todos os desafinados em cujos peitos também bate um coração.

A música agora falava de deitar na cama, rolar de amor, de beijos impudentes, e ela começou a sentir vontade de ser agarrada, jogada na cama, de também rolar de amor. Há quanto tempo não sabia o que era ser desejada! Ele parecia adivinhar exatamente o que se passava, pois a olhava daquele jeito meio canalha dele, a blusa semiaberta, os pelos aparecendo discretamente, mas deixando entrever, sem sombra de dúvidas, um peito largo e cabeludo, perfeito, devaneava ela, para se deitar a cabeça e deixar-se ficar, sonolenta, depois do romance.

Sai tentação, riu-se ela, depois você não me ajuda com o serviço, disse, controlando a vontade de largar tudo e se jogar em cima dele. Tanto desejo por aqueles cabelos pretos, aqueles lábios carnudos, tanto tempo sem paquerar, flertar, entregar o corpo. Ela deixou a água escorrer pelas mãos, esperando que os respingos frios acalmassem sua urgência. Não funcionou muito bem, pois ela desistiu de se conter, largou o prato no fundo da pia e foi beijar-lhe a boca safada, deixando marcas de água e batom nele, que continuou sorrindo, impassível e irresistível, os olhos de pálpebras pesadas dando-lhe um ar lúbrico e sonso, que parecia dizer “quero te pegar todinha”, e que já deixara tonta mais de uma mulher.

Yes, you are once, twice, three times a lady and I love you, a voz aveludada e experiente do locutor traduzindo Commodores, “você é uma, duas, três vezes uma dama, e eu te amo” foi demais para ela. Ao diabo com as vergonhas, estamos sozinhos aqui, é uma oportunidade única. Começou a passar a mão pelo corpo, desajeitada, ainda sem graça, mas determinada a ir até o fim, que se dane, gritou seu peito, ninguém nunca vai saber, nunca, nunca, nunca, nem ela mesma teria coragem de lembrar depois.

Ainda um pouco embaraçada pela vergonha, mas atiçada pela aventura de fazer o que nunca tivera coragem com homem algum, nem com as luzes apagadas, foi tirando a blusa, balançando o corpo ao som da melodia, tentando reproduzir a cena que vira numa novela, e ser também sensual e lasciva, mas a bermuda apertada não ajudou e ela teve de deixá-la grudada numa das pernas. Decepcionada com sua performance, ela tentou compensar com os meneios de corpo, os gemidos, os ai ai ai, ui ui ui, sempre quisera fazer um strip tease para ele, para nenhum outro homem, para ele somente, e tão inebriada com sua audácia ela ficou que nem se lembrava mais de seus recalques e complexos, naquele momento, ali, ela era magra, rica, bonita e sensual, a única mulher do mundo para ele.

Que continuava a olhá-la, impassível, com aquele jeito de latin lover, o meio-sorriso de dentes brancos que a deixava louca, e ela se sacudia no meio da cozinha, já sem blusa e sem pudores, adorando sentir-se a mais sem-vergonha das mulheres, nem lembrando da aparência mais que usada do sutiã e da barriga que balançava molemente. Mais uns trejeitos e rebolados desajeitados e toda a roupa foi ao chão. Ela fechou os olhos para não se intimidar com a presença dele, e cantou mais alto, sorrindo, sentindo-se feliz. Seu corpo foi sendo tomado por uma eletricidade angustiante, o entusiasmo aumentou, agora dançava totalmente solta, livre das roupas apertadas e das convenções, o grito de liberdade se formando no peito, subindo para a garganta, e bem ali, bem naquela hora, naquele último instante antes da vitória a chave da porta virou.

O coração na boca, ela mal teve tempo de catar as roupas jogadas no chão, e, tropeçando na bermuda, fugir correndo para o banheirinho de empregada, chorando de vergonha e medo. A patroa deu um oi tranqüilo e seguiu direto para a sala, sem nada notar de estranho, enquanto ela, ainda tonta e trôpega de susto, voltou para a cozinha, onde tristemente dobrou e guardou o pôster de corpo inteiro do Sidney Magal.

Comentários

silvia tibo disse…
Hahaha! Excelente, querida Zoraya!
Você e seus finais sempre surpreendentes...
Beijo!
Boa demais, Zoraya! Ri a valer.
Anônimo disse…
uau! muito surpreendente! maravilhoso, amei!

Zô, vc é fantástica! grandes emoções até os 45 do segundo tempo!!!

grande beijo!

Ana
Me deu até arrepios....

Parabéns
Anônimo disse…
Que "Cinquenta tons de cinza" que nada!!!!!!!! Muuuuito melhor o seu!
Alexandre Durão disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre Durão disse…
Zoraya, querida. Textos cada dia melhores. Esse, particularmente, está muito bem trabalhado. Claro que a idéia importa muito, mas a forma é fundamental e você conseguiu um resultado muito, muito bom. Agora, uma coisa: quantas mulheres maravilhosas você ainda tem pra nos apresentar?
Beijos.
Zoraya disse…
Silvia e Eduardo, obrigada! Fico feliz por vocês terem achado graça, rir é um dos prazeres da vida (e que nao custam nada, né, Silvia? Haja vista sua crônica.
Ana, sempre que eu estiver cabisbaixa com a vida vou ler seus comentários tão generosos.
Vanderley, quem riu fui eu, com seu comentário!Legal, obrigada!
Anônimo, também ri muito da sua comparação com o 50 tons!
Alexandre, nem falao mais nada, você está ficando suspeito! Obrigada!
Carlos disse…
Caramba! Zoraya, suas crônicas são fabulosas. Esse final quase me matou. Todo aquele fluxo de energia, aquele ritmo, toda aquela loucura lascívia, gostosa, quente e engraçada. Todo um embalo e um final digno de novela mexicana. Uma atmosfera gostosa de clima de tensão com uma tempestade de humor.
É imensurável o gosto de ler suas crônicas. Escritora digna de reconhecimento.
Confesso que espero sempre as sextas pra ler exclusivamente seus contos. Parabéns!
C.H.
Jussara disse…
Muito bom, parabéns!
Zoraya disse…
Carlos, obrigada! Muito generoso seu comentário. Confesso que tive um medinho de publicar esse texto, não quis ser muito óbvia para nao chocar ninguém.
Jussara, que bom que você gostou!
Solom ;) disse…
Instigante, Irreverente e relevante!
Anônimo disse…
AAAAAAHHHHHH EU TE AMO.... AAAAAHHHH Eu te amo, meu amor!!! o Meu sangue ferve por você!!!

Magal, fenomenal.
Erica disse…
Demorei a conseguir parar pra ler, mas valeu a pena a espera... Ri muito!!! Show! Bjs

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