sábado, 2 de fevereiro de 2013

SEMENTES SÃS EM TERRENOS PROPÍCIOS
[Maria Rita Lemos]

As mudas de maracujá que ganhamos de uma amiga querida têm exigido um cuidado especial, como, geralmente, tudo o que é delicado e raro costuma exigir, inclusive o Amor. As folhas verdes claras começaram a subir pelas grades do caramanchão, mas estamos tendo dificuldade para combater as lagartas que também as apreciam, por outros motivos que não os nossos.

Em busca de solução para esse problema, tentamos de tudo, desde matar uma por uma, até borrifar fumo de corda misturado com água, evitando lançar mão de produtos químicos. Enfim, fui à internet, onde se tem solução para quase tudo, e encontrei uma matéria de um agrônomo japonês. Entre outras coisas, ele dizia que as plantas adoecem porque as protegemos demais. Segundo esses especialista, “sementes sãs em terreno propício têm toda a vitalidade para que cresçam e se desenvolvam segundo a programação da própria natureza”. Se isso não acontece, pode ser que a terra esteja doente, portanto alterada em sua composição original, ou que as sementes não estejam apropriadas.

Essa leitura reportou-me a um passeio que fizemos, ano passado, para uma estância hidromineral, onde passamos alguns dias de férias. Subimos de teleférico para um morro próximo, de onde podíamos passear por alamedas, desfrutando a linda vista da cidade. Estávamos de jeans e camisetas, confortáveis para uma manhã ensolarada de outono/quase inverno, enquanto ao nosso lado passeava também uma família: casal e duas crianças em idade escolar. Estavam cheios de bonés e casacos de lã e pareciam cansados, andavam pesadamente, lembrando astronautas em solo lunar. O filho menor queria tirar o casaco, ao que foi repreendido pela mãe: “Você quer pegar uma pneumonia? Olha só o vento gelado”...

Tive pena, porque aquela mãe estava menos preocupada em desfrutar e mostrar aos filhos a natureza em seu esplendor que em proteger-se, e à família, do suposto frio ao qual a mera palavra “montanha” parece estar associada. Não estava frio, mas pai, mãe e filhos estavam lutando assim mesmo, combatendo algo inexistente.

Pensei e ainda penso: quantas vezes nós agimos assim, em nossas vidas? Quanta energia inútil desperdiçamos, tentando combater monstros que só existem em nossas mentes? Como Dom Quixote, lutamos contra inimigos invisíveis, perdendo o maravilhoso espetáculo que tantas vezes está acontecendo ao nosso redor!

A vida moderna nos ensinou a subestimar o potencial energético de nossos corpos. Basta pensar, por exemplo, em como viviam nossas avós e bisavós, na grande força daquelas vidas, sem condução, eletricidade, sem mesmo refrigerador ou fogão a gás, para  entendermos como a vida mudou, para nós. Em certos aspectos, para muito melhor.

A verdade é que, em tempos modernos, qualquer esforço inusitado nos deixa exaustos. Com exceção dos atletas e dos que praticam habitualmente atividade física, o corpo da maior parte das pessoas trabalha pouco, se comparado ao esforço mental.

Causa pena observar tantas crianças, hoje, que parecem ter muito mais idade do que têm realmente. Não abrem mão do carro de pai, mãe, ou da condução escolar para ir e voltar do colégio, ainda que não seja longe. A não ser nas cidades muito pequenas e na zona rural, já não se vêem árvores nos quintais, para subir e brincar. Muitas crianças são superalimentadas, obesas mesmo, pelo sedentarismo, criando um círculo vicioso: quanto mais sentem dificuldade, menos procuram exercitar-se, correr e brincar.

Sei que é impossível voltar no tempo, mas há que se entender porque, já na infância, tem início esse desleixo com si mesmo, essa necessidade de recorrer a soluções mágicas, dietas e remédios para manter-se saudável e alegre.

Minha amiga Lúcia, há anos sem empregada mensalista, comentando sobre esse assunto, falou que, trabalhando fora e fazendo as tarefas domésticas, faz praticamente os mesmos movimentos da academia: carrega peso, lava e passa roupa, sobe e desde escadas...

“Sementes sãs, em terrenos propícios, têm toda a vitalidade necessária para que cresçam e se desenvolvam conforme a programação da natureza”, era o que dizia o agrônomo japonês, no artigo que li na Internet.

Nossa juventude traz, potencialmente, sementes sãs em seus corpos e mentes. Se aprendermos a confiar mais na vida, e não ficarmos alimentando monstros invisíveis, teremos tudo para que nossas plantas e/ou filhos se desenvolvam bem, física e psicologicamente. Ou, pelo menos, teremos feito a parte que nos cabe.




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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela reflexão, Maria Rita. E as mudas de maracujá, como ficaram após essas descobertas existenciais?

Zoraya disse...

Também gostei demais, Maria Rita. É realmente impressionante como nos agasalhamos nos nossos medos sem nem ao menos vermos se o monstro está realmente lá fora ou não, desperdiçando energia preciosa.
E eu também quero saber o que aconteceu com o pé de maracujá!