Pular para o conteúdo principal

SEMENTES SÃS EM TERRENOS PROPÍCIOS
[Maria Rita Lemos]

As mudas de maracujá que ganhamos de uma amiga querida têm exigido um cuidado especial, como, geralmente, tudo o que é delicado e raro costuma exigir, inclusive o Amor. As folhas verdes claras começaram a subir pelas grades do caramanchão, mas estamos tendo dificuldade para combater as lagartas que também as apreciam, por outros motivos que não os nossos.

Em busca de solução para esse problema, tentamos de tudo, desde matar uma por uma, até borrifar fumo de corda misturado com água, evitando lançar mão de produtos químicos. Enfim, fui à internet, onde se tem solução para quase tudo, e encontrei uma matéria de um agrônomo japonês. Entre outras coisas, ele dizia que as plantas adoecem porque as protegemos demais. Segundo esses especialista, “sementes sãs em terreno propício têm toda a vitalidade para que cresçam e se desenvolvam segundo a programação da própria natureza”. Se isso não acontece, pode ser que a terra esteja doente, portanto alterada em sua composição original, ou que as sementes não estejam apropriadas.

Essa leitura reportou-me a um passeio que fizemos, ano passado, para uma estância hidromineral, onde passamos alguns dias de férias. Subimos de teleférico para um morro próximo, de onde podíamos passear por alamedas, desfrutando a linda vista da cidade. Estávamos de jeans e camisetas, confortáveis para uma manhã ensolarada de outono/quase inverno, enquanto ao nosso lado passeava também uma família: casal e duas crianças em idade escolar. Estavam cheios de bonés e casacos de lã e pareciam cansados, andavam pesadamente, lembrando astronautas em solo lunar. O filho menor queria tirar o casaco, ao que foi repreendido pela mãe: “Você quer pegar uma pneumonia? Olha só o vento gelado”...

Tive pena, porque aquela mãe estava menos preocupada em desfrutar e mostrar aos filhos a natureza em seu esplendor que em proteger-se, e à família, do suposto frio ao qual a mera palavra “montanha” parece estar associada. Não estava frio, mas pai, mãe e filhos estavam lutando assim mesmo, combatendo algo inexistente.

Pensei e ainda penso: quantas vezes nós agimos assim, em nossas vidas? Quanta energia inútil desperdiçamos, tentando combater monstros que só existem em nossas mentes? Como Dom Quixote, lutamos contra inimigos invisíveis, perdendo o maravilhoso espetáculo que tantas vezes está acontecendo ao nosso redor!

A vida moderna nos ensinou a subestimar o potencial energético de nossos corpos. Basta pensar, por exemplo, em como viviam nossas avós e bisavós, na grande força daquelas vidas, sem condução, eletricidade, sem mesmo refrigerador ou fogão a gás, para  entendermos como a vida mudou, para nós. Em certos aspectos, para muito melhor.

A verdade é que, em tempos modernos, qualquer esforço inusitado nos deixa exaustos. Com exceção dos atletas e dos que praticam habitualmente atividade física, o corpo da maior parte das pessoas trabalha pouco, se comparado ao esforço mental.

Causa pena observar tantas crianças, hoje, que parecem ter muito mais idade do que têm realmente. Não abrem mão do carro de pai, mãe, ou da condução escolar para ir e voltar do colégio, ainda que não seja longe. A não ser nas cidades muito pequenas e na zona rural, já não se vêem árvores nos quintais, para subir e brincar. Muitas crianças são superalimentadas, obesas mesmo, pelo sedentarismo, criando um círculo vicioso: quanto mais sentem dificuldade, menos procuram exercitar-se, correr e brincar.

Sei que é impossível voltar no tempo, mas há que se entender porque, já na infância, tem início esse desleixo com si mesmo, essa necessidade de recorrer a soluções mágicas, dietas e remédios para manter-se saudável e alegre.

Minha amiga Lúcia, há anos sem empregada mensalista, comentando sobre esse assunto, falou que, trabalhando fora e fazendo as tarefas domésticas, faz praticamente os mesmos movimentos da academia: carrega peso, lava e passa roupa, sobe e desde escadas...

“Sementes sãs, em terrenos propícios, têm toda a vitalidade necessária para que cresçam e se desenvolvam conforme a programação da natureza”, era o que dizia o agrônomo japonês, no artigo que li na Internet.

Nossa juventude traz, potencialmente, sementes sãs em seus corpos e mentes. Se aprendermos a confiar mais na vida, e não ficarmos alimentando monstros invisíveis, teremos tudo para que nossas plantas e/ou filhos se desenvolvam bem, física e psicologicamente. Ou, pelo menos, teremos feito a parte que nos cabe.


Comentários

Bela reflexão, Maria Rita. E as mudas de maracujá, como ficaram após essas descobertas existenciais?
Zoraya disse…
Também gostei demais, Maria Rita. É realmente impressionante como nos agasalhamos nos nossos medos sem nem ao menos vermos se o monstro está realmente lá fora ou não, desperdiçando energia preciosa.
E eu também quero saber o que aconteceu com o pé de maracujá!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …