quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O DIA EM QUE FUI SALVA PELO TARANTINO
>> Mariana Scherma

A crônica de hoje é quase um serviço de utilidade pública. Pra mim, serve de nota mental: quando beber (demais), não vá passando seu número de telefone assim tão fácil. Pra você, serve mais como diversão (eu espero!) sobre as aventuras de uma solteira em busca de um grande amor. Ou pequeno mesmo. Amor é amor, não importa o tamanho.

Pra você entender o tamanho do meu drama, saiba antes que sou míope, não consigo usar lentes e, à noite, deixo meus óculos em casa pra ajudar Santo Antonio e Associados na missão. Agora, vamos ao que interessa. Num sábado à noite desses, fui com dois dos meus melhores amigos a um bar. Bebemos, rimos e bebemos mais um pouco. Muito, aliás. Mas como todo bom bêbado, eu tinha certeza de que estava bem, completamente sóbria, quando vi um sujeito passando. Romanticamente, pensei: “eu pegaria”. Ele sorriu e provavelmente pensou o mesmo. Beleza, passou. Na hora de pagar a conta, Fulano (o nome dele vai ser esse, gente) veio atrás de mim conversar. Conversamos, ele pegou meu telefone e fui embora com meus amigos, uma promessa, um pouco de expectativa e, confesso, um tanto de ressaca. Detalhe: me lembro de ter perguntado aos meus amigos: ele parece ok, né? Os amigos honestos – e igualmente sóbrios – responderam que sim. Rá!

Já na segunda-feira, o meu celular tocou. Era Fulano. Achei corajoso, ganhou pontos. Hoje em dia as coisas ficam só no torpedo, na mensagem in box do Face, certo? Deveria ter suspeitado. Depois de quase duas horas de papo, ele desligou assim: “Beleza. Depois nos falamos mais”. Quem desliga assim? O correto não seria falar de nos vermos? Não pro Fulano, ele é meio à moda antiga. Hmmm. Quase um mês se passou nessa, ele ligava, falava e não marcava encontro. Até o dia em que resolvi ser o homem da história: “O que você vai fazer hoje? Nada? Então vamos ao cinema”. Mal sabia eu onde me enfiava...

Quando ele chegou (20 minutos atrasado), eu só pensei, “tomara que seja beijável”.  Beijável no meu dicionário significa: que dê química e seja razoavelmente bonito (bonito pra mim é algo entre ser limpo e ter todos os dentes, nada nível Brad Pitt). Só isso, gente. Sou exigente? A hora em que o vi, soube que foi zero em química, isso só no beijo no rosto de oi. Parei aí e torci pra que o filme fosse bom e passasse rápido, foi o pouco que me sobrou. Mal sabia que a aventura ainda ia longe. Ao chegar no cinema, ele tentou entrar pela saída. “Por que você tá tentando entrar pela saída?”, meu cabelo arrepiou de desespero. “É que mudou a entrada e faz tempo que não venho... Nossa, que mico”, ele disse. E eu mordi a língua pra perguntar se ele não ia ao shopping desde... 1990.

No cinema, ele não tinha dinheiro pra pagar a entrada e não sabia que não aceitava mais cartão. De novo eu pensei: “você não vem ao cinema desde... 1993?”. Durante o filme, eu de braços cruzados pra não dar a chance de ele encostar e bancar o romântico, ele se jogando do meu lado. E a cada vez eu pendia mais pra esquerda, onde estava uma senhora de mais de 60 anos. Nos demos mal, eu e a senhora. Pelo menos vimos Django Livre, o novo espetáculo do Tarantino. Mas nem Tarantino passou incólume pela esperteza dele. “Nossa, o Tarantino gosta do Leonardo DiCaprio, hein!”, falou Fulano. “Por quê?”. “Ah, porque ele só faz filme com o DiCaprio”, disse. “Mas esse é o primeiro que fazem juntos!”, repliquei já sem paciência. “Não é não, teve Gangues de Nova York e outros”. “Que são do Scorcese...”, minha paciência tinha evaporado, coisa que não aconteceu com o excesso de perfume dele. Sério, quem usa um litro de perfume pra ir ao cinema? “Ah, confundi. Porque são sobrenomes italianos...”. Quis muito perguntar se ele também confunde gelatto com pizza e bolonhesa com putanesca. Mas só sorri. Se ele lesse pensamento...

Na saída do shopping, ele confundiu a saída e aí me exaltei: “Tá vendo aquela placa com flecha escrito "saída"? Segue ela”. Mesmo assim, ele quis sair pra beber e eu fui obrigada a dizer o não mais enfático da minha vida, “é que tô cansada e com dor de cabeça”. Me senti aquelas mulheres casadas há 89 anos, negando sexo ao pobre marido. Paciência. Eu tinha feito minhas boas ações: paguei a entrada dele e não saí no meio do filme pra ir embora (mas essa foi só pelo filmaço do Tarantino).

Quando conto aos meus amigos, todos riem. Eu ri horrores também. Mas meus dois amigos que estavam comigo quando o conheci não me avisaram que ele tinha cara de... Bom, não se deve julgar pela primeira impressão, né? Sobraram as lições desse dia: 1. Se beber demais, não paquere e muito menos passe seu número de celular. 2. Essa é para os solteiros sem Facebook: façam um perfil, todo mundo precisa dar uma investigada quando está interessado. O Facebook atrapalha muitos romances, mas é bem útil como ferramenta de pesquisa. Os solteiros não me deixam mentir. Se ele tivesse um perfil, eu já me prepararia melhor. Ou nem iria ao encontro. Amor, paquera e afins são sempre arriscados, ok, mas é muito chato quando o risco não vira algo bom, é como voltar ao fim da fila ou à sala de espera. Só sei que se eu chegar ao céu um dia, quero uma reunião com Santo Antonio e seus capangas. Ser solteira é engraçado, sim. Mas precisa desses perrengues? E que venha o carnaval pra me consolar ;)


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4 comentários:

Carissa Vieira disse...

A parte do Leonardo DiCaprio só fazer filme com o Tarantino foi o pior. Não sabe, não fala, pra não pagar mico.
Ri muito aqui.

Zoraya disse...

Engraçadíssima essa, Mariana!
eu su míope também, mas nao sou aventureira nao! Sair de casa sem óculos, jamais!!!!

silvia tibo disse...

Hahaha. Que aventura, Mariana!
Me lembrei de algumas que eu vivi por aí...bem no nível dessa sua...haha.
O melhor mesmo é rir, né? Pra não chorar...
Que venha o carnaval!!!
Beijos.

Vanderley José Pereira disse...

Fiquei com um dó de você. Mas vejamos o lado bom, se que é que tem: esse ocorrido resultou em um texto gostoso de ler...e com valiosas dicas no fim (tenha Facebook)