quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

BUKOWSKI, JANSEN E FANTE
>> Carla Dias >>

Charles Bukowski


Eu terminei de ler a biografia de Charles Bukowski, depois de iniciá-la várias vezes. Sempre havia algo que me fazia dar um tempo na leitura, mas dessa vez foi de uma tacada só, ou seja, da melhor forma de se ler um livro: abri-lo e só fechá-lo porque não há mais o que ser lido.

Vida e loucuras de um velho safado, de Howard Sounes, é um livro interessante porque apenas cita os fatos. O autor não impõe a própria opinião sobre o escritor, o que é bem difícil, já que Bukowski sempre foi semeador de opiniões desencontradas sobre a sua pessoa e a sua obra.

Pouco antes da leitura, eu assisti ao documentário Born into this, de John Dullaghan, e repeti a dose assistindo, mais uma vez, um dos meus filmes de cabeceira: Barfly.

Sim, foi uma overdose de Charles Bukowski.

Eu nunca tinha assistido a uma entrevista de Charles Bukowski, e me admirei com a clara timidez do autor. Com a leitura da biografia, soube que essa timidez se transformava em violência verbal e até física, após ele beber muito, como de costume.

A obra de Bukowski é essencialmente biográfica, ainda que gostasse de mudar, nas citações da própria realidade, algumas coisas para torná-la mais atrativa. Ela é calcada no seu relacionamento com as mulheres de sua vida, exceto em Pulp, que apesar de trazer uma e outra característica biográfica, é essencialmente um livro de ficção, o último que escreveu.

A escrita dele é direta e ácida, calcada em situações cotidianas de personagens nada glamourosos, e no peso de seu relacionamento com os pais, principalmente com o pai. Bukowski tinha uma facilidade imensa em ofender aqueles que o amavam e que o ajudaram na sua jornada como escritor. Seus primeiros escritos, quando não publicados em folhetins independentes, foram lançados por admiradores de sua obra, que investiram seu tempo e seu dinheiro para que o “velho safado” ganhasse o mundo. Prova disso é a sua relação com a editora Black Sparrow, de seu amigo e apreciador de sua obra John Martin.


Logo após a última página da leitura, eu resolvi assistir a um filme. As palavras (The Words/2012) conta a história de um escritor, Rory Jansen (Bradley Cooper), tentando publicar um livro, mas sem sucesso. Os agentes não se interessam por ele, tampouco os editores. E só quem já recebeu algumas cartas de rejeição de editoras, quase todas padrão, sabe o peso que elas têm. Jansen tem um bom primeiro trabalho, mas não um livro capaz de ocupar as prateleiras de best-sellers.

Rory Jansen (Bradley Cooper) - As palavras

Na sua lua de mel em Paris, Jansen e sua esposa visitam uma loja de antiguidades. Lá ele encontra uma pasta que sua esposa decide lhe dar de presente. De volta aos Estados Unidos, ele encontra naquela pasta algumas páginas datilografadas. Jansen começa a lê-las e se encanta pela história. E se encanta tanto que decide digitá-la, palavra por palavra. Daí para ele publicar o livro como seu é um pulo.

O sucesso do livro torna Jansen um dos mais conhecidos escritores. Em determinado momento, ele é abordado por um senhor que pergunta o que ele lê. Trata-se de “Pergunte ao Pó”. De John Fante. O senhor diz que conheceu John Fante.

Pergunte ao pó era o livro preferido de Bukowski. John Fante era o autor que ele mais admirava, ao lado de Ernest Hemingway. Conhecera o livro por meio da biblioteca pública e jamais se esquecera da importância desse achado. Bukowski conheceu Fante, quando ele estava internado, as pernas amputadas e já perdendo a visão. Foi um dos grandes acontecimentos de sua vida, apesar do medo que Bukowski tinha de que Fante percebesse que ele “roubara” uma de suas técnicas literárias, a de capítulos curtos e com muitos diálogos.

Jansen é um personagem muito bem interpretado por Bradley Cooper. As Palavras é um filme muito especial. Jeromy Irons marca presença como o velho autor da obra. A forma como a história é contada, em camadas, em tempos diferentes, torna a trama consistente. E o espectador só percebe o real papel do escritor Clay Hammond (Dennis Quaid) no final.

Bukowski teria chamado Jansen por algum nome feio, tivesse a oportunidade de assistir ao filme. Mas Bukowski não gostava da pompa do cinema hollywoodiano, apesar de ter feito amigos como Sean Penn. Bukowski teria achado Jansen um bobo por se sentir mal por ter aproveitado a oportunidade de acontecer. Ainda assim, jamais traiu a relação que mantinha com a literatura, nem mesmo ao escrever para revistas pornográficas. Ele era mais poeta do que qualquer coisa. E assim como Jansen, foi extenuantemente rejeitado. Produziu muito, mas nem tudo era bom. Só que, o que era bom, era bom mesmo. Foi amado e odiado, e amado com ódio, dependia muito de como andava a relação dele com a pessoa.

John Fante

Quanto ao Fante, terei de ler o livro. Assisti ao filme (Ask the Dust/2005), dirigido por Robert Towne, e confesso que adorei. Não sabia que era baseado em um livro. Mas o que posso concluir, após Bukowski, Jansen e Fante, é que escritores adoram ler livros sobre escritores.


Parte do documentário feito por Barbet Schroeder, quando
tentava levantar dinheiro para a realização do filme Barfly.





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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, tenho até medo de ler seus textos: eles costumam aumentar minha já não pequena lista de livros para ler e filmes para assistir. :)

Zoraya disse...

Carla, você está convocada a criar um blog só de análises e dicas culturais. E me avisa, que serei a primeira a participar.

albir disse...

É, Carla, eu também não dou conta de todas as suas dicas. Mas as procuro.

Carla Dias disse...

Eduardo... Tenha medo, não!

Zoraya.... Pois eu tenho um blog desses! Poucos conhecem, pouquíssimos leem, mas eu me esbaldo falando sobre o que me apetece: http://talhe.blogspot.com.

Albir... Uma vez, uma menina comentou em uma postagem em que fui marcada de uma amiga no Facebook. Não sei por que ela pensou que eu não leria. Mas fato é que ela disse que eu era louca, ficava assistindo um monte de coisas, não sabia esperar episódio de série, então assistia pela internet. Ela tem razão...