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COMO GANHEI ALGUNS SOBRINHOS
>> Whisner Fraga

Eu era professor veterano quando decidiram, por conta de um curso de Pedagogia que vinha cursando, que eu deveria estagiar em um Centro de Estudo e Recreação (é assim que são chamadas as creches hoje). Eu não estava nada animado, principalmente porque a escola ficava em outra cidade e eu tinha de estar lá muito cedo, às sete da manhã. Como sempre fui adepto da cultura de acordar naturalmente e não forçadamente, não me senti à vontade com a imposição.

Mas vamos lá, que um diploma a mais pode ser útil algum dia – o mundo ainda está abarrotado de gente que acredita em documentos e isso não vai acabar tão cedo, segundo dizem. A creche até que tinha seu charme. Adaptada em um prédio que albergou um extinto centro de cultura, mantinha vestígios de artes antigas e provincianas. Eu me apresentei à professora oficial, uma simpática senhora que acreditava no poder de convencimento do grito e dos puxões de orelha, e me instalei a seu lado. Como em toda instituição municipal, ali também éramos obrigados a cantar o hino da cidade. A cena acontecia assim: as crianças em fila, cada uma na carreira pertencente à sua turma. O pátio cheio, as mães grudadas no portão, observando orgulhosas os filhos repetirem uma letra que não entendiam.

Depois vinha o hino nacional, um padre-nosso, que todo mundo ali era católico, inclusive os que não eram católicos, inclusive a professora, que era evangélica. No meio de um “venha a nós o vosso reino”, comecei a escutar um ruído que interpretei como “tio, tio, tio”. Tudo indicava que eu ganhara alguns sobrinhos. Depois vinha a segunda ou terceira parte: uma música infantil, que surgia, invariavelmente, seguida de coreografia. Vergonha das vergonhas: eu fui intimado a acompanhar a dança. Isso às sete da manhã, estão lembrados, né?

Daí fomos para a sala, que havia muita atividade a ser feita. Eram cinco mesas baixinhas, pequenas, e quatro cadeiras a rodear cada uma. Como a turma tinha quatorze alunos, eu podia escolher, entre os seis assentos restantes, onde ficar. Mas era uma briga, porque as crianças, os diabinhos de cinco anos, começaram a disputar minha atenção. “Senta aqui, tio, senta aqui, tio”. Uma menina que ficou quieta e calada venceu a disputa. Ajeitei-me ali perto dela, ganhei um sorriso e uma apostila de brinde. Depois a professora me presenteou com uma caixa de lápis de cor. Pronto, eu me tornara aluno novamente.

A garotinha me encarou: "Quantos anos você tem, tio?" Para não assustar ninguém, brinquei: "Dezesseis". Ouvi todos se assustarem: "Noooooooooossa". Eu começava a gostar da coisa, estava me divertindo bastante, quando a professora decidiu revelar meu nome. "O quê? O quê? Uísque?" Beleza, eu estava sendo sacaneado por criaturas mal saídas das fraldas. Mas a coisa piorou quando a pedagoga escreveu meu nome na lousa. Porque grafou errado. O que fazer? Corrigi-la? Na frente daqueles espertinhos? Não, melhor deixar passar mais essa.

A partir daí fiz umas cinco lições, colori toda uma fauna, brinquei de Lego e assim por diante. Durante o recreio, me acomodei perto da menina boazinha e devorei um arroz com feijão e salsicha.  Em seguida lavei as mãos, escovei os dentes – tinha de dar exemplo – e rumamos para o parque. Confesso que o primeiro dia me agradou. E foi por isso que continuei a ir para a creche durante aquele semestre. Aprendi muito com as crianças. Compreendi que é sempre importante recuperar a humildade; que, se prestarmos atenção ao mundo em nossa volta, perceberemos uma verdade instigante e alvoroçada; que os diferentes universos dialogam entre si e é possível transpormos um conhecimento de uma realidade para outra e, finalmente, que a infância é um momento encantador em nossas vidas e que todos morremos de vontade de voltar a ele, mas infelizmente isso é impossível.

Comentários

Me fez voltar no tempo, em vários tempos, Whisner.
Zoraya disse…
Puxa,que legal! Aproveita a oportunidade, por todos nós! Agora, não disfarça nao, eu quero mais históris da creche! A Tia já te botou de castigo? rsrs, beijos risonhos, gostei muito!

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