segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

DE MAIAS E DE PAPAS
>> Albir José Inácio da Silva

Em vez de arranjar um trabalho que lhe complementasse a aposentadoria, como vive sugerindo sua mulher, Micaelo fica por aí solucionando os grandes problemas da humanidade. Não gosta de assuntos menores, calçamento, coleta de lixo, posto de saúde. Gosta dos grandes temas mundiais.

Micaelo foi um dos que acreditaram na previsão maia do fim do mundo em dezembro passado. Mas ao contrário dos outros, que se decepcionaram ou comemoraram no dia seguinte, ele pensou: não seria o começo do fim? E o noticiário se apressou em confirmar-lhe as suspeitas.

Muitos meses depois da aprovação da lei da ficha limpa, um processado, acusado e renunciado para escapar à punição, assume a presidência do Senado brasileiro. Não é o fim do mundo? — pergunta Micaelo.

O meteoro de que se tinha medo só passa perto da Terra, sem maiores conseqüências, mas um outro, inesperado, faz um estrago na Rússia com centenas de vítimas e milhões de rublos em prejuízos. Micaelo suspeitou que fosse um míssil da OTAN e que a hecatombe nuclear esperada desde os anos sessenta finalmente tivesse começado. Enganou-se com o meteoro, mas não desistiu do fim do mundo.

Interessado mas confuso, Micaelo ouve notícias de Bento XVI. Não morreu, como costumam fazer os papas, renunciou. Desde a Idade Média que isso não acontecia. Graves denúncias teriam desestabilizado a saúde e o ministério de Ratzinger. E vocês acham que isso não tem nenhum significado? Para Micaelo é o fim dos tempos. Mas, ainda da terra dos césares, Micaelo soube também que Berlusconi pode voltar.

Já disse que Micaelo gosta dos grandes temas. Mas ele às vezes fica confuso com essas questões geográficas e de soberania, envolvendo Vaticano e Roma, uma dentro da outra, e primeiro-ministro e papa. E, ao contrário do que pensa do presidente do Senado no Brasil, ele sempre teve grande simpatia por Silvio Berlusconi. Sempre o achou um injustiçado.

É por isso que agora Micaelo prega a eleição de Berlusconi para a cadeira de São Pedro. Pode não evitar o fim do mundo, que já começou, mas seria um choque de moralidade. Acabava-se a pedofilia, a corrupção, o financiamento de armas, e resgatava-se a santidade e o celibato. Os arquivos do Vaticano seriam finalmente abertos, não mostrariam nada demais (afinal, o que de mais poderiam mostrar?), e lançariam luz sobre a história na Idade Média.

Berlusconi viria à Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Perdoaria o cozinheiro do Copacabana Palace pelos alimentos impróprios para consumo. Confessaria seus próprios pecados, inclusive o meteorito na Rússia, que nada mais era do que uma grande pedra incandescente atirada por uma catapulta gigante que ele, Berlusconi, desenvolvera secretamente com algum financiamento do Vaticano. Os russos, convertidos, não retaliariam.

A Igreja estaria pacificada consigo mesma e com o resto do planeta. A juventude da Jornada nem se revoltaria por não poder envelhecer. Renan beijaria a mão de Berlusconi, seu ídolo, o que deixaria Micaelo um pouco confuso. Mas o mundo acabaria em paz.

Acho que a mulher de Micaelo tem razão, ele está mesmo doido. Sai por aí, sem o menor pudor, espalhando esses delírios. Devia arranjar um trabalho.

Partilhar

2 comentários:

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Mente vazia, ofício de grandiloquências! Micaelo está certo. Se é para delirar, que o delírio seja elevado! Adorei o personagem Albir. Apesar do nome, deve ser brasileiro. Conheço muitos que andam eufóricos como ele. Abraços!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Albir. Deixa o Micaelo com os delírios dele. Para nós, leitores, é deleite. :)