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VOOS INTERNOS >> Carla Dias >>



Eu estimo as asas dele.

Como contempladora que sou, aprecio a ousadia. E você que lê de fora, que chegou faz pouco, tem de saber que não se trata de um anjo. As asas dele não são para alcançar corações partidos ou espíritos envergados pelas tragédias, tampouco é ele apto a levar quem seja a reconhecer catarse, a sublimar cura, a se entregar à divindade.

O detentor dessas asas pecou há pouco, ainda padece da vertigem provocada pelo ato. Enquanto recobra o fôlego, aturdido pela mistura de deleite inconfesso e pseudopudor escancarado, esconde um sorriso que teima em estar saliente, e que lhe escapa em momento inoportuno, afeiçoado que está pelo risco de apreciar sem ponderar.

Deixada de lado a opção de ele ser anjo, você diria, caso o observasse dessa lonjura que me encontro dele, que se trata de um reles aventureiro em busca de jornadas que o desafiem. Pensaria — levado pelo quadro matizado pela ocasião — que ele desconhece o sentido de substantivos tão nobres como organização, planejamento, futuro, e que não há nele um naco que seja do talento de um empreendedor. Em algo você está certo... Ele não organiza, não planeja, não coloca seus sapatos debaixo da cama do futuro. Só que empreendedor ele é, apenas não no sentido que rezam as revistas dedicadas aos homens de negócio.

Eu realmente invejo as asas dele.

Empenha-se, deliberada e libidinosamente, a cultivar olhares para colhê-los logo mais. Caminha, pé ante pé, a fim de abastecer de estarrecimento aqueles que, por medo de mergulhar em, dizem-se avessos à beleza de existir. E para ele existir consiste em não se esconder, nem mesmo quando se trata do escondimento diplomático, para evitar coletiva distração de metas pré-estabelecidas. E não o tome por deseducado, porque seria um erro dos infames. Ele sabe, por isso opta por ignorar. É escolha, não condição.

Não pense que já pode escolher um par de adjetivos para defini-lo, fazendo uso de uma das manias mais indigestas do ser humano: rotular. E se for fazê-lo, porque sim, aconselho a consultar o dicionário, desprender-se dos adjetivos recorrentes, ampliar a gama de possibilidades, para que não se desaponte insanamente quando perceber que, por mais experiente que seja na área do “eu sei dizer quem é e a que veio só de olhar”, não conseguiu chegar perto da realidade.

Não é anjo, apesar de as asas longas fazerem com que se pareça com um, apesar de o desgrenhamento dos cabelos, os pés descalços, o dorso nu insinuarem um desfalque na sua imaculabilidade, apontando para anjos-modelos destinados aos editoriais de moda.

Porém há, sem sombra de dúvida, um talento inquestionável para perceber o outro, chegando mesmo a compreender o que o impulsiona do risco ao deleite. Não se trata de dedução, tampouco adivinhação. Não tem a ver com as oferendas em busca de um lugar no reino de Deus ou nos edifícios dos homens poderosos. É conhecimento oriundo de quem observa sem pressa, sem reservas e aberto ao conhecimento despido de desculpas, na sua bruta forma. É conhecimento sobre o outro e, principalmente, sobre si mesmo.

Ele tem asas que poucos percebem. Bem sei que não são asas de um anjo, porque há nele o toque certo de egoísmo para não deixar a si à mercê do que lhe oferecem. Aceita de bom grado o afeto, a atenção, os desafios oferecidos, até mesmo a discordância, a oposição. Não aceita se esgueirar pela vida ao gosto das prisões.

Asas lhe cabem muito bem. Eu as estimo. Gostaria de tê-las. E como mera espectadora do voo alheio, aprendo o possível assim: debruçada na minha incapacidade de alçar um voo autoral.


Imagem: Fligth © Marc Chagall

carladias.com.br

Comentários

Zoraya disse…
Carla, que delicado, como sempre! As asas dos seus textos espanam a crueza dos dias.
Carla, eu achava que esse quadro do Chagall era "inescrevível". Mas você conseguiu! :)
Carla Dias disse…
Zoraya... Obrigada, sempre!

Eduardo... Que felicidade seu comentário me ofereceu. Obrigada!

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