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Mostrando postagens de Janeiro, 2017

PLANOS >> Clara Braga

Eu me planejei, juro que me planejei! 
Não sou a mestre em planejamento, sei que em muitos pontos os meus planejamentos são falhos, mas fiz minha parte, isso ninguém pode negar.
Ia abrir meu próprio negócio. Tinha arrumado as melhores sócias, tinha certeza disso. Já tínhamos o espaço, as ideias, o público, era só começar.
Tinha me livrado de tudo aquilo que me ocupava um tempo desnecessário. Para que investir em algo que não vai dar frutos? Agora só invisto no que for importante e também prazeroso.
Preciso ter mais tempo pra mim. Quero estudar, quem sabe tentar um mestrado, enfim, evoluir na minha carreira, só assim consigo novas oportunidades.
Já tinha na agenda todas as corridas que queria fazer esse ano, com a quilometragem e o tempo que queria completar. Dessa forma, os treinos seriam focados e as chances de alcançar os resultados seria maior.
Comecei a testar uma nova dieta. Radical? Sim! Mas estava dando resultado, e isso estava me animando a continuar.
Planejei ter mais tempo …

QUEM FOI TEÓCRITO? >> Sergio Geia

Pra tirar um dez, culto leitor. Faço-lhe apenas esta pergunta pra tirar um dez. Na verdade, é dez ou zero, mas uma pergunta, apenas uma, e nenhuma outra mais: afinal de contas, quem foi Teócrito? Ah, amigo, não fique vermelho, não se envergonhe por não saber, e esqueça essa bobagem de avaliação pedagógica numa simples crônica. Acontece que essa foi a única questão de uma prova oral de Direito elaborada pelo latinista Geraldo de Ulhoa Cintra, ao meu amigo Téo, isso lá pelo ano de 1962. Téo precisava de uma nota alta, um sete ou oito e o professor Geraldo de Ulhoa Cintra, um escritor muito famoso e respeitado, especialista em civilização greco-romana, autor de grandes obras como De Actione Sacramento, Verbetes Franceses, Dicionário Latino-Português, Textos Arcaicos, O Conceito Perene de Filologia, dentre outros, encarou o novato, e, para sua surpresa e de todos, disparou sem o mínimo rodeio: “O senhor tem hoje comigo uma responsabilidade muito grande. Pois vou lhe fazer uma única pergunta…

JOGO DE MENTIRAS >> Zoraya Cesar

Sempre fui de opinião que, se existe conhecimento tácito de ambas as partes, então, não há engodo. É o jogo jogado.
E, coerente com minha opinião, aceitei quando aquele homem bonito se aproximou de mim na semiescuridão do bar e disse que me conhecia de algum lugar. Conversa vai, conversa vem, descobrimos alguns interesses comuns. Nada muito profundo, claro. Afinal, não vou a bares à procura de Mr. Goodbar; nem de conversas edificantes, nem mesmo drogas. Vou atrás de algo que preencha o vazio deixado por Fernando, algo qualquer, que me faça companhia à noite.
O tal sujeito falou que era a primeira noite dele na cidade, que não conhecia ninguém, sentia-se sozinho. Era recém-separado, disse, estava à procura de uma nova parceira, completou, cheio de melosidades. Senti-me aliviada - graças a Deus, era tudo mentira. Eu já o vira na noite anterior, naquele mesmo bar, numa roda de amigos que pareciam bem íntimos. E, quanto a ser descasado, bem, eu percebi que ele tirou a aliança antes de vir f…

DIREITO BÁSICO >> Carla Dias >>

Seu pai vivia bronqueado com ele. Desde moleque de tudo, ficava dançando pelas ruas, enquanto ele arrastava a carroça e catava latinhas e garrafas pet. A culpa sempre foi do avô, tocador de sanfona e bebedor de birita, que ensinou ao neto a doçura das palavras cantadas, tocadas, dançadas, vividas.

O pai tentava fazer com que o filho fincasse pés na realidade. O avô mandava o neto para as paragens da imaginação, contando a ele histórias que o avô dele lhe contara na sua meninice. Umas loucuras que envolviam animais ferozes, cabanas desalumiadas, barulhos não identificados e o breu da noite destacando olhos que não dava para saber se eram de gente ou de bicho, ou de mistura de gente com bicho. O menino se assustava fácil, mas de jeito maneira saia correndo para debaixo da saia da mãe. Ficava ali, sentado em frente ao avô, enquanto ele fazia a cadeira balançar ao ritmo das palavras saindo de sua boca.

O menino entendia o que o pai dizia. Sabia que melhor era prevenir do que remediar a m…

AI, MEU CORAÇÃO! - III >> Albir José Inácio da Silva

AI, MEU CORAÇÃO! - II
AI, MEU CORAÇÃO! - I

Continuação de 9/01/17: (Depois de ouvir Bóssi e os vizinhos na cena do crime, o Dr. Mouro retornou à delegacia para abertura do inquérito. Acreditava na história de Bóssi que, além de seu compadre, era um cidadão acima de qualquer suspeita e dedicava sua vida ao bem-estar da família tarietense)
Minutos depois do delegado, Bóssi chegou à Delegacia para depoimento na condição de testemunha, distribuindo sorrisos e cumprimentos. Era amigo da polícia. Contou sua versão sem interrupções. No momento mais dramático da narrativa não pôde evitar as lágrimas. O delegado ouviu compassivo e ditou para o escrivão:
 “Aos vinte e três dias do mês de setembro de 1986, nesta cidade de Tarietá, na Delegacia de Polícia, onde se achava o Dr. Mouro, Delegado, comigo Escrivão, ao final assinado, compareceu o Senhor Antônio Vieira dos Santos, já qualificado,  socialmente conhecido como “Bóssi”, sabendo ler e escrever, aos costumes disse nada, testemunha compromissa…

HOLOGRAFIA: A PROFECIA DO SÉCULO XXI >> Paulo Meireles Barguil

 Profecia, conforme o Houaiss, significa "Predição do futuro, que se crê de inspiração divina; vaticínio.".
Holografia, por sua vez, deriva do grego holos (todo, inteiro) e graphos (sinal, escrita), e indica, portanto, um método de registro com relevo e profundidade. Cada pessoa tem suas crenças, que as guiam mundo afora ou a dentro... Reconheço que o mapa astral é uma estratégia interessante para orientar o andarilho nessas jornadas. Lembrando: a carta celeste não é um roteiro! Ela indica as nossas diversas habilidades e fragilidades, bem como os nossos desafios, as nossas missões. Estou cada vez mais desconfiado de que o tempo realmente não existe, como afirmam alguns, sendo uma invenção que permite ao Homem viver na tridimensionalidade. Ah, a casca corpórea é realmente intrigante. Sedutora: nos faz acreditar que somos separados do Cosmos. Misteriosa: é repleta de indicações do que experimentamos. Há algumas luas, aprendi, cognitivamente, que somos capazes de holografar …

SOBRE DIVIDIR A COMIDA >> Mariana Scherma

Esqueça presentes caros. Bolsas. Joias. Vestidos e sapatos. A coisa que mais amo ganhar no mundo é comida. Um bombonzinho fora de hora. Um pedaço de bolo na hora do café – ou um convite pra tomar café seja onde for. Quem dá comida a alguém também dá carinho. Sei lá, mas eu só dou um pedaço de algo que fiz quando fica gostoso. E também só dou comida pra quem mora mesmo no coração. Você não vai dar beijinho (o doce, tá?) pra alguém duas caras ou pra alguém que não tenha intimidade, certo?
Essa história de dar comida, eu aprendi com meus pais. Em todo almoço feito em casa, sai um prato para o porteiro. Meu pai sempre guarda um pedaço de bolo/pavê/o que for para o personal trainer (o personal põe meu pai na linha e meu pai tira o personal da linha, vamos resumir assim). Quando era mais nova, detestava sair com o prato de comida até a portaria, achava nada a ver, "que mico, pai". Hoje sei que essa é uma baita demonstração de afeto.
Por sorte, vim morar vizinha de uma senhora que pe…

SACOLAS REUTILIZÁVEIS>> Carla Dias >>

Vou apresentar a vocês uma moça arretada. Veio de lugar nenhum, vai sabe Deus aonde. Apesar da falta de rumo traçado, é das mais sábias quando se trata de decidir sobre o que seja. Claro que isso significa que ela dá com os burros n’água com mais frequência do que uma biografia bem polida suportaria. Ainda assim, avexa-se de jeito nenhum, porque essa loteria que é a vida jamais contará com a falta de participação de sua pessoa.

Sua pessoa, melhor esclarecer, é uma pessoa que não oferece informação a quem não lhe encanta. Falar sobre ela sempre pede um tanto de floreio, que poucos são os que sabem dela o suficiente para dizer verdades. Por isso mesmo são muitas as lendas que incluem sua pessoa, quer dizer, personagens inspirados em sua pessoa, porque posso garantir que ela não se transforma em jaguatirica às quintas à noite, depois da novela, não fala a língua das águias, não vive de beber água de chuva, somente em dias de chuva. Ela não dança nua para lua cheia, mas nesse caso, ela j…

PERDIDA NO MEIO DO CAMINHO >> Clara Braga

Um dia, enquanto aguardava em uma fila, ouvi um senhor avisar para as pessoas que um casal havia perdido o filho de 2 anos, caso alguém visse uma criança perdida, que avisasse a ele. As pessoas logo começaram a olhar para os lados e ficaram mais atentas. Mas o que me chamou a atenção foi um jovem que devia ter mais ou menos seus 16 anos, logo olhou para seu pai, que o acompanhava na fila, e disse: nossa, perder uma criança de dois anos, quanta irresponsabilidade!
No mesmo momento me lembrei do dia que encontrei uma amiga que não via tinha um tempo e ela estava com o filho, que também tem dois anos. Nos demos um abraço um pouco mais longo, daqueles de quem não se vê tem um tempo e estava com saudade. Esses segundos foram suficientes para que ficássemos olhando para os lados procurando o filho dela, que havia apenas sentado perto da gente para brincar com seu carrinho.
Lembrei também de quando meus pais contam que o grande desespero deles era levar eu e meu irmão para lojas de departam…

INFLAMA E ALIMENTA >> André Ferrer

Ela está em tudo: nos conselhos, nas reclamações, nos ataques de inveja e despeito. Definitivamente, já não causa tanta estranheza. Numa conversa, muitos conseguem pronunciá-la na primeira tentativa. Nos textos, alguns até já escrevem corretamente a palavra! Falo de procrastinação.
Até pouco tempo, ninguém sabia o significado. Hoje, todo mundo sabe e ainda se esforça para enfiá-la em qualquer cantilena.
Para o bem e para o mal, a extensão do uso da referida palavra é tão democrática que surpreende: “proclastinação”, “plocrastinação”, “procrastinassão”. Enfim, há de tudo. O mais cuidadoso para e pensa. O mais ladino, sobretudo quando aconselha, escolhe dizer ou escrever “bora lá”. Isto é: opta, justamente, pela vereda procrastinadora do idioma.
A turma do “bora lá” está sempre com o celular a postos. Colado ao ouvido, é sempre uma garantia de sinalizar ocupação e, ao mesmo tempo, presença. Simultaneidade, aliás, é o que fundamenta o “bora lá”. “Bora lá” estar aqui e em nenhum lugar ao me…

MEU PASSO ERA UMA FOLHA VADIA >> Sergio Geia

As cigarras chiavam, não no pátio de cinamomos caiados, mas na ruazinha boba mesmo, de arvoredos chinfrins, a Domingos Cordeiro Gil. Pois bobo também era ele, sentado no chão da sala, sozinho, com o campo sobre o tapete, mirando o ângulo com seu melhor jogador de botão. Na mesa da cozinha havia uma jarra de plástico vermelha com suco de abacaxi que sua mãe deixara pronto; no fogão, arroz e feijão pra esquentar. Seu pai chegava, o encontrava pronto para o colégio; fritava o bife, almoçavam e juntos saíam, por volta das vinte pra uma. Foram algumas vezes. Estava tremendo, confuso, mas saiu do carro sem cometer gafes; depois de uma reprovação, conseguira enfim a habilitação. Estava tremendo, confuso, mas venceu a timidez e fez seus lábios se colarem ao dela. Estava tremendo, confuso, mas conseguiu digitar o texto e ser aprovado. Estava tremendo, bravo, mas, assim como Caio, conseguira que o Exército Brasileiro o dispensasse, mesmo depois da briga com um milico. Pois esse cidadão, às vezes…

EU, A NORA QUE TODA SOGRA PEDE AO DIABO>> Zoraya Cesar

Angélica é o meu nome (Angélica Cândida de Azevedo Lima, muito prazer), e tenho, ironicamente, o physique du rôle compatível com o de uma criatura angelical: pálida, louros cabelos cacheados, olhos azuis, feições delicadas e algo infantis, o corpo pequenino e magro. Meu apelido é, desde criança, ‘bibelô’, tão frágil pareço. 
Marlon Brando, meu marido, por sua vez, nada tinha em comum com o nome. Era ríspido, pouco comunicativo, muitas vezes grosseiro, bebia demais, demais da conta mesmo, chegando às raias da violência. Ora, ora, ora, perguntam vocês - com esses ares de quem nunca foi enganado pela vida, de quem nunca fez uma aposta errada - se ele era assim, casou por quê? 
Por vários motivos que, à época, me pareceram bastante pertinentes. Quando nos conhecemos, Marlon me tratava como a uma princesa, contribuía com minhas despesas, nunca se embebedou na minha frente, era um sonho de homem, sério, trabalhador e ganhava bem. E ainda havia a mãe dele. Caí de amores pela velha mãe de Marlo…

MEDICINA>> Analu Faria

Sempre acontece com uma amiga de uma amiga: gripe, virose, infecção, tosse. Um mês de molho, um mês de arrebentar os pulmões, um mês de médicos-videntes (sim, colegas, a Medicina, no fundo, sabe muito menos do que imagina nossa vã filosofia). O mais divertido: um mês, talvez mais, de medicina de boteco. A amiga da minha amiga (vamos chamá-la de A.L.) não vai a botecos quando está doente, é claro, mas como o termo "psicólogo de boteco" é epifanicamente inteligível e conhecido, A.L. entendeu que seus leitores saberiam o que ela queria dizer com "médico de boteco". 
A.L. entende que todo médico de boteco é um ser humano de coração enorme, com as melhores intenções deste mundo. Médicos de boteco adoram receitar chás e gengibre, e gengibre é vida, gente. Então A.L. gostaria, por meio destas linhas, agradecer a todos que receitaram gengibre. Chá é só falta de café mesmo, mas a amiga da minha amiga agradece ainda assim. É uma atitude bonita você receitar coisas para os o…

ELES NÃO MORAM MAIS AQUI | RONALDO CAGIANO >> Carla Dias >>

Há esse livro de Ronaldo Cagiano que, vez ou outra, eu revisito. Canção dentro da noite tem sido um dos meus preferidos de poesia, desde quando eu o conheci, em 2000. Para mim, ali mora uma beleza que não se abstêm de enveredar pela melancolia e isso me agrada.

Ao ler o Eles não moram mais aqui, livro de contos de Cagiano publicado pela Editora Patuá, percebi o olhar poético a se aprofundar em distâncias geográficas, sociais e emocionais, assim como em abandonos.

Cada conto traz um tema que deságua em desespero silente. Desespero pela impotência diante da tragédia, da indiferença ao lidar com o presente e a persistência em se agarrar ao passado. A ausência faz seu papel, mas nem sempre se trata de alguém que não está mais presente. Às vezes, trata-se da ausência de si, o não se reconhecer diante da própria biografia.

Eles não moram mais aqui é um livro intrigante, porque leva o leitor a uma viagem que passa por várias versões da ausência e do abandono. O primeiro conto, que dá título…

RITUAL DO PRIMEIRO ENCONTRO >> Clara Braga

Esses dias estava acompanhando uma amiga enquanto ela se arrumava para o primeiro encontro com um cara que havia conhecido. Enquanto conversávamos fui percebendo que essa coisa de primeiro encontro é mesmo um verdadeiro ritual.
Colocamos nossa melhor roupa, aquela que emagrece, disfarça as gordurinhas laterais, aquelas bem difíceis de sair. Além de emagrecer também afina a cintura, combina perfeitamente com um decote que não diz nem que você é santa nem que você é fácil demais. Ou seja, buscamos uma roupa que é o verdadeiro santo milagreiro, mas é bom ela chamar a atenção nessa primeira vez, pois é difícil achar alguém que tenha mais de uma roupa com essas características dentro do armário.
Colocamos uma maquiagem leve, realçamos o olhar, mas nada de batom muito vermelho, vai que rola beijo, vai ficar todo mundo pintado de palhaço. Para compensar a falta do batom chamativo colocamos nossos melhores acessórios e um salto, não muito alto, para não ficar maior que o cara. E na verdade t…

AI, MEU CORAÇÃO! - II >> Albir José Inácio da Silva

AI, MEU CORAÇÃO! - I

(Continuação de 26/12/16 - O novo presidente do Grêmio Recreativo Tarietense é assassinado assim que tem acesso às contas e contratos da administração anterior, os demais componentes da diretoria eleita se recusam a tomar posse, e o antigo presidente faz discurso de candidato:)
- Uma boa gestão é a melhor maneira de homenagear o presidente assassinado. O Tarietense não se furtará às suas responsabilidades e continuará encantando a vida da cidade – disse Bóssi, já em franca campanha.
                                                                     O DELEGADO
Concluídos os trabalhos na cena do crime, o Dr. Mouro foi pra delegacia com suas anotações instaurar o inquérito policial. Antes intimou Bóssi, mera formalidade, já conhecia a história toda. E Bóssi estava acima de qualquer suspeita. Era seu parceiro em contratos com a prefeitura e outros empreendimentos, apoiador de sua candidatura a prefeito de Tarietá e compadre. A derrota de Bóssi o deixou preocupado.
D…

COMO ESTÁ O SEU MESENTÉRIO? >> Paulo Meireles Barguil

Há cerca de cinco séculos, Leonardo da Vinci, um traquina inigualável, descreveu o mesentério. Durante todo esse tempo, quase toda a Humanidade continuou a ignorá-lo. Na Medicina, era considerado apenas como uma membrana que une o intestino fino ao abdome. Numa analogia hidráulica, seria um cotovelo. No início desta semana, cientistas iniciaram o resgate existencial do mesentério, descrevendo a sua anatomia e estrutura, bem como o elevando à categoria de órgão. O próximo capítulo será determinar a sua função e, assim, compreender a sua importância para a saúde do Homem, uma vez que possui nervos, vasos sanguíneos e gânglios linfáticos. No início de 2016, as ondas gravitacionais anunciadas cem anos antes por Einstein, foram detectadas, tendo sido considerada a descoberta mais importante da última revolução terrestre ao redor do Sol, e inspiraram uma crônica. Não sei se o mesentério terá o mesmo sucesso, embora seu padrinho seja bastante afamado, mas pelo menos minha crônica ele já gar…

FECHAMENTO É O CARAMBA >> Mariana Scherma

Fechamento, em termos jornalísticos, é o pior dos tempos. Na prática, é quando se fecham revistas e jornais para a impressão (notícias em papel, lembra?). Mas na realidade é o cataclisma das comunicações. É um período de tempo curtinho, ok, mas que aparentemente dura um mês. É a fase em que tudo pode acontecer. Tudo de estranho, improvável e complexo rola. Sério, quando há um fechamento calmo, pode esperar que no dia seguinte uma bomba explode (metaforicamente, fato, mas com boas doses de estragos).
“Ai, nossa, como jornalista exagera”. Não, jornalista, quando sente pavor de fechamento, tem suas razões, não é exagero. Sou jornalista de papel e internet há mais de 10 anos. Já passei pelos fechamentos mais bizarros da vida: alguns mais trágicos (o casal da capa se separa, alguém noticiável morre, a gráfica avisa que a concorrência vai usar a mesma foto na capa...) e outros mais tranquilos (a publicidade quer mais ou menos páginas, a publicidade quer um publieditorial... A publicidade pag…

DIANTE DO TUDO >> Carla Dias >>

É tudo para ele. O próprio não consegue acreditar e se mantém no lugar, punhos cerrados, coração acelerado.

Tudo para ele.

Para quem viveu com mais nada do que a maioria, impossível não se sentir assustado. É muito tudo para um nada recorrente. É muito tudo para se aceitar sem susto, desconfiança, a sensação de desmerecimento.

Mas é tudo para ele.

Quem tem vivido problema a problema, resolução a resolução, abandono a abandono. E que se apressa a resolver o simples, porque sabe que o complexo toma tempo, saúde e requer paciência turbinada. Sem contar a colaboração rareada de outros.

Aprendeu muito cedo a contar desgraças. Nem pense que por isso se tornou um lamentador. Mas não foi por iluminação espiritual, superação, ou qualquer termo que se use para se escancarar, em prol do marketing sensacionalista, quem sobrevive à miséria e a contínua humilhação à própria existência. Não se tornou lamentador porque acreditava que o futuro lhe reservava felicidade. Ele escolheu não se tornar lame…