quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DIREITO BÁSICO >> Carla Dias >>


Seu pai vivia bronqueado com ele. Desde moleque de tudo, ficava dançando pelas ruas, enquanto ele arrastava a carroça e catava latinhas e garrafas pet. A culpa sempre foi do avô, tocador de sanfona e bebedor de birita, que ensinou ao neto a doçura das palavras cantadas, tocadas, dançadas, vividas.

O pai tentava fazer com que o filho fincasse pés na realidade. O avô mandava o neto para as paragens da imaginação, contando a ele histórias que o avô dele lhe contara na sua meninice. Umas loucuras que envolviam animais ferozes, cabanas desalumiadas, barulhos não identificados e o breu da noite destacando olhos que não dava para saber se eram de gente ou de bicho, ou de mistura de gente com bicho. O menino se assustava fácil, mas de jeito maneira saia correndo para debaixo da saia da mãe. Ficava ali, sentado em frente ao avô, enquanto ele fazia a cadeira balançar ao ritmo das palavras saindo de sua boca.

O menino entendia o que o pai dizia. Sabia que melhor era prevenir do que remediar a miséria. Não que fossem completamente infelizes. A mãe era criativa, tanto na cozinha, quanto nas brincadeiras. Depois de uma longa jornada de trabalho, limpando casas nas quais nem se atrevia sonhar em viver, ela ainda tinha ânimo para cuidar de seus meninos, e ser cuida por eles, que todos colaboravam com os afazeres de casa e com o afeto a ser mantido.

Relações sem afeto desmantelam famílias. Isso ele aprendeu com a avó, que sempre gostou dos livros e vivia de passeio pela Biblioteca Pública. Ele adorava o jeito que ela dizia as coisas, mesmo que não entendesse tudo. Havia um frescor naquela alma arredia, que preferia os livros aos churrascos de domingo. Preferia o silêncio à música provocadora dos jovens que ainda não descobriram a sabedoria provocada por silêncios.

O menino assistia à rotina dessas pessoas, como se elas fossem personagens de um livro ainda não escrito. Respeitava a preocupação do pai a respeito dos estudos. Era meio preguiçoso na escola, mas porque se aborrecia com a facilidade dos assuntos. A professora descobriu, em um misto de orgulho e desespero, que o menino sabia o que ela sabia e um pouco mais. Tratou de comunicar à diretora que, sussurrando o pecado, ordenou que a professora o mantivesse em rédea curta, que a escola não tinha como lidar com gênios.

O menino não era gênio, apenas mais curioso do que a maioria. O pai ficou fulo da vida quando viu que o menino assaltara seu carrinho e levara todas as garrafas de um dia de catação. O menino levou uma sova, porque disse que precisava das garrafas e não as devolveria. O pai quase morreu de remorso quando viu a surpresa que ele fez para sua esposa. Construiu um sistema de irrigação para a horta da mãe, lembrando-se de uma palestra na escola sobre reciclagem e garrafas pet.

Nunca mais o pai bateu no moleque daquele jeito, de arrancar o coro. O menino justificou que não podia contar ao pai o que fizera, porque era surpresa, e surpresa tem de ser segredo. O pai pensou que, assim como muitos dos moleques da rua onde moram, o dele se tornara ladrãozinho. Amargou esse pensamento para o resto da vida.

O menino sabe que viver não é fácil. Porém, também sabe que a vida pode ser divertida. Passou um pito no pai, certa vez, durante o jantar, quando ele disse que diversão era coisa para quem tem a vida ganha. O filho disse, a voz firme de quem presta atenção ao entorno, a todos a sua volta, ao tudo que lhe acontece, que diversão é direito básico. Que soltar pipa é direito básico. Que dançar, jogar bola e correr na rua é direito básico. Que beber água é direito básico. Tomar banho de chuva é direito básico. Aprender tabuada é direito básico. Pirulito de manga é direito básico. Gargalhada é direito básico. Cobertor no frio é direito básico. O avô, a avó e a mãe gargalharam baixinho com a singeleza da manifestação. O pai ficou assim, mudo e calado, os olhos marejados, pensando que ainda não sabia se tal percepção sobre a vida era boa ou ruim ao menino.

O menino se levantou, foi até o pai e o abraçou, deitando a cabeça em seu ombro. Todos se comoveram com o gesto, até o pai amoleceu o corpo sempre rijo. O filho contou a ele, a voz abafada pelo abraço, que aprendera naquele dia, na escola, durante uma conversa com uma professora, na hora do intervalo, algo que ele já sabia, que tinha aprendido com o vento antes, só que ainda não tinha entendido inteiro.

Direito básico de cada um é ter chance de viver a vida, lamentos e diversão. Alegrias para aquietar tristezas.

O menino não é gênio, apenas presta atenção à vida. Diverte-se com o que lhe é oferecido e aprende seriedades no processo. Na hora do choro, da tristeza, da falta, ele pensa que seria bem pior se morasse em uma das histórias que seu avô lhe conta. Se tem uma coisa que ele morre de medo de encarar, mas trabalha para enfrentar, só que sem sucesso, é escuro enfeitado com olhar de gente-bicho.

Definitivamente, ele prefere morar em uma das músicas que o avô toca e canta.

Imagem: Meninos Brincando © Candido Portinari

carladias.com

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5 comentários:

sandra disse...

Carla, que primor de trabalho! Sua cronica Fez minha madrugada mais viva!
Esse seu texto deveria see mandado PRA todos OS legisladores do Mundo!
Parabens!

Zoraya disse...

"como se elas fossem personagens de um livro ainda não escrito. ". Mais uma das frases lapidares de D. Carla Dias, a Princesa das Palavras.

Paulo Henrique disse...

Carla dias sempre com as melhores crônicas. Fico esperando a próxima com vivo interesse. Não tenho o hábito de comentar em casos assim, mas quando é bom e toca a gente de modo especial, o que está ao meu alcance, e que passa a ser um dever, é deixar um comentário de agradecimento e reconhecimento. Parabéns!

albir silva disse...

Em Carla Dias o sofrimento não dói. Encanta.

Carla Dias disse...

Obrigada, Sandra! Fico feliz em saber que minhas
viagens interiores a alcançaram. Agradeço por recebê-las. Abraço.

Gentileza no talo, Zoraya. Como sempre, agradeço e reconheço.Beijos.

Paulo, que alegria ler seu comentário. Agradeço pela gentileza
da leitura, e me sinto honrada pela sua conexão com meus
escritos. Obrigada! Abraço.

Albir... Fez poesia. :) Beijo.