Pular para o conteúdo principal

EU, A NORA QUE TODA SOGRA PEDE AO DIABO>> Zoraya Cesar

Angélica é o meu nome (Angélica Cândida de Azevedo Lima, muito prazer), e tenho, ironicamente, o physique du rôle compatível com o de uma criatura angelical: pálida, louros cabelos cacheados, olhos azuis, feições delicadas e algo infantis, o corpo pequenino e magro. Meu apelido é, desde criança, ‘bibelô’, tão frágil pareço. 

Marlon Brando, meu marido, por sua vez, nada tinha em comum com o nome. Era ríspido, pouco comunicativo, muitas vezes grosseiro, bebia demais, demais da conta mesmo, chegando às raias da violência. Ora, ora, ora, perguntam vocês - com esses ares de quem nunca foi enganado pela vida, de quem nunca fez uma aposta errada - se ele era assim, casou por quê? 

Por vários motivos que, à época, me pareceram bastante pertinentes. Quando nos conhecemos, Marlon me tratava como a uma princesa, contribuía com minhas despesas, nunca se embebedou na minha frente, era um sonho de homem, sério, trabalhador e ganhava bem. E ainda havia a mãe dele. Caí de amores pela velha mãe de Marlon assim que a vi. Era pequenina e delicada, e sua única família era o filho, de quem dependia financeiramente – tudo igualzinho a mim (talvez, qual Narciso, eu tenha caído de amores pela minha imagem e semelhança). Sempre que ficávamos a sós, ela me abraçava longamente e me aconselhava a pensar bem antes de casar, pois as aparências enganam. Eu não entendia. Eles moravam juntos e Marlon parecia ótimo filho. Não dei trela, portanto, pois estava apaixonada e doida pra sair do muquifo onde vivia e morar num apartamento bom, com o homem que eu amava e com a sogra que me tratava a pão de ló. 

Casei-me, portanto, de papel passado e assinado e fui morar com eles. 

E foi aí que entendi. 

Além de tudo o que já lhes contei, meu marido tratava mal a própria mãe. Apoderava-se de toda a pensão que ela recebia e a deixava quase à míngua – a velha só não tinha morrido ainda porque era sertaneja e, como disse Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Aquilo me mortificava, mas desempregada, sem família e sem ter para onde ir, dependendo do Marlon para tudo, eu pouco podia fazer. Com o dinheiro do seguro desemprego eu ajudava minha sogrinha, tentando aliviá-la um pouco daquela vida miserável. Não tem nada mais triste que um filho ingrato. Mas ela chorava era por mim, arrependida de não ter impedido o casamento, por ter acreditado que meu amor por Marlon o transformaria. Dizia que jamais se perdoaria pela minha infelicidade.

Era eu infeliz? Não sei. Sei que sentia revolta e ódio por tudo. Por ter sido ingênua; por estar sem dinheiro; por ser traída (o cretino tinha um caso com a telefonista do escritório); por ser obrigada a fazer sexo, sob pena de apanhar ou ser expulsa de casa; pelos gritos e empurrões que eu levava quando ele estava bêbado; por ver a maneira abjeta com que ele tratava minha sogrinha. Como todo psicopata cafajeste, ele percebeu meu ponto fraco: cada vez que eu tentava contrariá-lo, ele descontava nela. Na própria mãe! 

Recebi uma proposta de emprego numa outra cidade. Finalmente, teria o que mais precisava: meu próprio dinheiro (não me venham com chorumelas hipócritas de que dinheiro não é tudo. Sem dinheiro você fica de mãos atadas, relegada ao Diabo, que, ainda por cima, toma o que Deus dá). Poderia, portanto, abandonar Marlon Brando, fugir, denunciá-lo, mas isso deixaria minha sogra querida abandonada àquela malsinada sorte. 

Não fiz, portanto, nada disso. Fiz outra coisa. 

Existem vários tipos de monstro. Marlon é de um tipo. Eu, de outro. Sou um monstro com aparência angelical.

Dizem que beber faz mal à saúde.
Faz mesmo.
Peguntem ao Marlon, meu marido.
Pena que ele não possa mais responder.
Um monstro que misturou metanol na bebida do marido. E que assistiu à sua morte, sem mover uma palha, trancando a porta do quarto para que ele não conseguisse sair nem receber socorro médico. 

Eu tinha duas cópias da chave do quarto. Quando vi que Marlon Brando tinha morrido, deixei uma chave nas mãos dele e, com a minha (da qual depois, naturalmente, me livrei), tranquei a porta por fora. Chamei o Corpo de Bombeiros, chorando convulsivamente, vocês precisavam ver, merecia o Oscar. Eles arrombaram a porta, a polícia chegou, a maior confusão. 

Minha sogra ficou estupidificada, ininterruptamente repetindo ‘meu filho, meu filho’... Não sei se ela desconfiou de alguma coisa ou se, no final das contas, preferiria continuar sofrendo, mas com o filho vivo. Acho que nunca saberei, pois ela jamais deu a entender uma coisa ou outra.

A vantagem de ser pobre é que a polícia não se importa muito com mais um ou menos um morto. É só mais um desgraçado que morreu. E morreu porque era um alcoólatra que se trancou no quarto e bebeu o que não devia. Fim de caso.

Aceitei o emprego e fui embora, aliviada, sabendo que ninguém mais ia maltratar minha sogra, velhinha e sofrida. De vez em quando vou visitá-la. Agora ela só se veste de negro, enlutada da cabeça aos pés. E sempre, ao me ver, me abraça, me beija as mãos e me chama de ‘meu anjo’. 

Talvez eu seja um monstro. Não me importo. Tenho uma boa vida, minha sogra querida também, e eu conheci um cara, Rodolfo - vamos morar juntos. Ele parece legal. É bom, pra saúde dele, que seja mesmo.

(Não aguentava mais ver minha nora sofrer. É uma boa moça, poderia ser minha filha, em vez desse capiroto que saiu de minhas entranhas. Ela é jovem, bonita, inteligente. Merece um marido melhor que o excomungado que se diz meu filho. Desconfio que ele matou a primeira esposa, uma moça boazinha também, mas muito fraca. Não vou permitir que ele faça isso com meu anjo. Sei que ela não vai embora por minha causa. Então, diluí rivotril e diurético na bebida dele, que Deus me perdoe. Não sei se foi isso o que o matou, mas, até o dia em que prestarei contas ao Criador, vestirei luto e trabalharei incansavelmente na caridade. Se me arrependo? Não sei. Minha amada Angélica quer que eu conheça seu novo marido. É bom que ele a trate bem, se não...)


Foto: Visor69 in Pixabay

Comentários

Marcio disse…
Será que o Marlon Brando também não acrescentou alguma coisa à bebida, para suicidar-se?
Chamem o Felipe Espada!
Unknown disse…
Tenho medo de você,Zoraya. Rodolfo que se cuide.... Aliás,esse nome não me é estranho... Já vi em uma outra crônica... Acho que essa vai dar continuação kkk
Metanol! Precisava tanto?! Tem aquele "remedinho", que os médicos prescrevem secretamente (a não ser para as esposas). Sei, sei, Zoraya, o negócio não era só dar um susto. Rsrsr!
Anônimo disse…
Morte em dose dupla kkkkkkkk muito bom, surpreendeu!
Ana Luzia disse…
Eita, morte bem matada, se não morre de um lado, morre de outro!

Resta saber se o morto tá bem morrido ou se volta do além em outra crônica estilo poltergeist... com Zoraya, tudo é possível!

beijos!
Clarisse Amador disse…
Na dúvida, pró réu. Já que não dá para saber ao certo qual dos venenos provocou a morte do excomungado, pode-se dizer que as duas são inocentes!!! kkkkkkk
albir silva disse…
Torça pra que a censura não volte, Zoraya. Você teria de explicar esses seus assassinos se livrando da justiça.
Zoraya disse…
Marcio - não, o Marlon era covarde, nao se envenenaria, preferia beber e maltratar os mais fracos

'Unknown" - realmente, Rodolfo foi o nome de outro personagem, na 'Rodolfo e a crise dos 40", mas nao se tratam da mesma pessoa. "tenho medo de você, Zoraya"... kkkk, obrigada, obrigada kkk

André Luiz - opa!! que remedinho é esse? quero saber!

Anônimo - obrigada!e nem mesmo eu sei quem matou, ou melhor, qual dos produtos gerou o resultado final (com trocadilhos)

Clarisse - isso isso isso! concordo plenamente kkk

Albir - pois é! Se bem que a censura é algo bem seletivo, né? quantas mortes deixaram de ser investigadas sob o manto protetor da censura?

Obrigada a todos!

Ana Luzia - hummm, Ana, você me deu uma boa ideia...

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …