sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

JOGO DE MENTIRAS >> Zoraya Cesar

Sempre fui de opinião que, se existe conhecimento tácito de ambas as partes, então, não há engodo. É o jogo jogado.

E, coerente com minha opinião, aceitei quando aquele homem bonito se aproximou de mim na semiescuridão do bar e disse que me conhecia de algum lugar. Conversa vai, conversa vem, descobrimos alguns interesses comuns. Nada muito profundo, claro. Afinal, não vou a bares à procura de Mr. Goodbar; nem de conversas edificantes, nem mesmo drogas. Vou atrás de algo que preencha o vazio deixado por Fernando, algo qualquer, que me faça companhia à noite.

O tal sujeito falou que era a primeira noite dele na cidade, que não conhecia ninguém, sentia-se sozinho. Era recém-separado, disse, estava à procura de uma nova parceira, completou, cheio de melosidades. Senti-me aliviada - graças a Deus, era tudo mentira. Eu já o vira na noite anterior, naquele mesmo bar, numa roda de amigos que pareciam bem íntimos. E, quanto a ser descasado, bem, eu percebi que ele tirou a aliança antes de vir falar comigo. Essas, as mentiras dele. As minhas, em fingir acreditar.

A noite prometia ser boa. Cheia de mentiras de um lado, repleta de carência e fingimentos de outro.

Três uísques depois eu me considero a presa perfeita. Ricardo (nome falso, naturalmente, sempre é), fiel ao jogo, portou-se à perfeição, e, em atenção ao meu estado etílico, ofereceu-se para me acompanhar.

Tudo que eu precisava era que ele representasse bem o seu papel, que não atuasse como um canastrão. Faz parte do jogo. Mentir bem faz parte do jogo.

Ele foi perfeito. Ao chegarmos, abraçou-me tão ternamente que derreti. E assenti que subisse quando se declarou solitário, carente, e que eu tinha sido a única mulher interessante que encontrara na cidade.

(Está vendo, Fernando? Ainda sou atraente. Homens mentem para ficar comigo. Acham que vale a pena o trabalho. E eles nem me conhecem. Mas você, você dizia que me amava!)

Não vou mentir. A noite foi maravilhosa. Sexy. Voluptuosa. Aconchegante. Durante toda a performance ele não cessou de sussurrar palavras doces no meu ouvido, no meu umbigo, na minha pele. Que eu era linda, gostosa, feminina. Que ele estava se apaixonando, nunca encontrara uma mulher como eu, que estava pensando em ficar alguns dias comigo... Oh, quão generosa pode ser a mentira.

Ele dormiu. Permaneci deitada, imóvel, com medo de acordá-lo e estragar tudo. Pensei em Fernando. Por que ele não mentiu pra mim? Pensei que me amasse. Quem não é capaz de mentir não sabe amar. Esse negócio de dizer a verdade sem se importar com as consequências só dá sossego a quem diz, nunca a quem ouve.

Depois de cinco anos morando juntos, compartilhando tristezas e alegrias, trocando juras de amor, dividindo tudo, até salários, sonhos e senhas eletrônicas, ele me abandonou.

Cheguei em casa, nessa mesma casa em que estou agora, deitada, nua, com um estranho que me esquecerá tão logo amanheça o dia – serei mais uma aventura para ele se gabar aos amigos. Cheguei em casa e encontrei Fernando na cozinha, as chaves na mão e a verdade na boca: “Não te amo mais. Vou morar com a Eliane, que está grávida de meu filho”.

Como assim? Não me ama mais? Grávida? Minha prima? Sei que a maioria de nós jamais saberá o que é um soco no estômago. Eu sei. E doeu tanto que vomitei o almoço todo ali, na frente dele. Que ainda teve o desplante de dizer que sentia muito, mas que era melhor eu saber a verdade por ele, e não pelos outros.

Se não estivesse pondo a alma pela boca naquele momento, eu o matava. “Melhor”? Pra mim é que não foi. Ele estava apenas limpando sua consciência da traição que fizera. Quem quer ouvir esse tipo de verdade do homem amado? Que ele mentisse, que se dissesse arrependido, que ia mudar de cidade por causa do emprego, qualquer coisa, para que eu tivesse tempo de me acostumar.

Mil vezes preferível uma mentira generosa e sublime. Não sou de fazer escândalos, eu o teria deixado em paz. A verdade acabaria vindo à tona, com os amigos dando voltas e rodeios, para que eu me magoasse o mínimo possível. Eu aceitaria suas pequenas mentiras, agradecida. Fernando foi egoísta e cruel, não quis se dar ao trabalho de inventar uma história e me poupar o choque. Ele poderia ter dado sinais que não mais me queria. Ele poderia ter feito qualquer coisa, menos aquilo. Eu me esfarelei toda.

Não sei se algum dia vou me recuperar. Depois de cinco anos dormindo com um homem a meu lado, não consigo mais dormir sozinha. Eu deito. O sono só vem pela exaustão.

Já me acostumei. Mas há noites em que a solidão é insuportável e eu preciso de alguém que durma comigo. Que me abrace. Que me diga coisas bonitas. Que minta pra mim.

despertador não tocou, mas o cara devia ter um relógio biológico interno suíço. Levantou assim que amanheceu, nem tomou banho, botou a roupa e, antes de sair, beijou-me e disse que tinha sido incrível, que mais tarde ligaria (ele não pediu e eu não lhe dei meu telefone. Mas isso faz parte do jogo).

Fechei a porta atrás dele, feliz. Ele mentira até o último ato. Eu fingi acreditar até o fim, sem chorumelas. É o jogo jogado. E, afinal, ele fora tão gentil, por que eu arruinaria um encontro que fora bom para os dois? Ele teve a transa que queria e eu não passei a noite sozinha.

Voltei pra cama. Quer me fazer feliz? Tell me a lie.

Tell me a lie - minta para mim, em tradução livre
Vídeo: Sami Jo in Tell me a lie - 1974
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9 comentários:

Anônimo disse...

Essa crônica foi interessante, bem atual, e principalmente sem "mortes"! Apesar de que o risco foi grande, em levar um desconhecido para casa! Hoje a "exigência" das mulheres acaba afastando muitos homens, principalmente os que querem um relacionamento duradouro. Sem falar na concorrência das outras mulheres (inclusive amigas, primas, etc..., que são as mais perigosas, dado a proximidade, hehehe...), que quando enxergam um homem com "possibilidades" atacam sem remorso!
Ao que parece, esse apesar das mentiras, também era honesto e só queria uma noite de sexo, visto que além de não deixar telefone, também não fez a inquirição básica, que é saber se a mulher tem apt, carro, onde trabalha (salário), filhos, vive sozinha, etc..., para dar o bote e arrumar uma "patrocinadora" e/ ou pior, depenar a mulher e sumir, como já vi acontecer com algumas amigas!

Ana Luzia disse...

Sabe que eu nunca tinha visto a coisa por esse ângulo? Perspectiva interessante, nem parece ser tão ruim...

Rsrsrs... dizem que as mulheres preferem os cafajestes, né? O tal 1% vagabundo, kkk...

Bjo

sergio geia disse...

Muito interessante, Zoraya, muito legal, e seu processo criativo, pelo que vejo, foi inspirado por Tell me a lie. Ficou ótimo! Parabéns e esse jogo parece bom, hein? rsrs

Clarisse Amador disse...

Ótima crônica, adorei!!!!

albir silva disse...

Felicidade não significa não-dor, né, Zoraya?

Anônimo disse...

Retrato interessante dessa coisa esquisita e estrangulante que é a solidão, tantas mulheres passam por isso!

Zoraya disse...

Anônimo: vc me deu uma ideia boa!

Ana Luzia: não cai nessa não! Cafajeste é cafajeste. Nossa amiga, realmente, vê a vida por outra perspectiva, mas ela só queria uma rodada de carinho, falso ou não

Sergio Geia: foi sim, a história surgiu a partir da música. Foi um exercício criativo de oficina. O jogo é interessante sim, masss, há que saber jogá-lo!

Clarisse: obrigada, você, gentil, sempre

Albir: falou pouco e falou bem!

Anônimo: muitas mais do que a gente possa imaginar

Anônimo disse...

Mentira é algo relativo. A partir do momento que acreditamos na mentira ela se torna verdade e a verdade depende do de um informe ou informação no qual utilizamos em nosso critério da validação de uma verdade. Confuso? Mentira, mas espera ai, talvez seja verdade.

Carla Dias disse...

Zoraya, aposto que a mentira se sentiu toda prosa com a sua trama. Que ótima contadora de histórias é você, hein? Lindeza, minha cara. Beijo!