segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

INFLAMA E ALIMENTA >> André Ferrer

Ela está em tudo: nos conselhos, nas reclamações, nos ataques de inveja e despeito. Definitivamente, já não causa tanta estranheza. Numa conversa, muitos conseguem pronunciá-la na primeira tentativa. Nos textos, alguns até já escrevem corretamente a palavra! Falo de procrastinação.

Até pouco tempo, ninguém sabia o significado. Hoje, todo mundo sabe e ainda se esforça para enfiá-la em qualquer cantilena.

Para o bem e para o mal, a extensão do uso da referida palavra é tão democrática que surpreende: “proclastinação”, “plocrastinação”, “procrastinassão”. Enfim, há de tudo. O mais cuidadoso para e pensa. O mais ladino, sobretudo quando aconselha, escolhe dizer ou escrever “bora lá”. Isto é: opta, justamente, pela vereda procrastinadora do idioma.

A turma do “bora lá” está sempre com o celular a postos. Colado ao ouvido, é sempre uma garantia de sinalizar ocupação e, ao mesmo tempo, presença. Simultaneidade, aliás, é o que fundamenta o “bora lá”. “Bora lá” estar aqui e em nenhum lugar ao mesmo tempo. “Bora lá” partir daqui para onde não se perde tempo enquanto se perde tempo. A procrastinação disfarçada é uma tela sensível ao toque abarrotada de ícones e “gadgets”. A plenitude nunca foi tão respeitavelmente vazia. O trabalho – que não pode esperar –, pode... esperar. E a espera, inclusive, pode ser uma jornada de quarenta e quatro horas semanais. Tudo previsto nas CLT.

Sim. É definitivo e parece duro, mas só é duro para os ingênuos. Aquela mania de empurrar as tarefas com o umbigo estaria mesmo entre as piores faltas? Poderia, inclusive, cerrar as entradas do Éden para você e, também, para este cronista? Não se preocupe. Como subitem do sexto Pecado Capital, a procrastinação também entrou para o rol das ações mais criticadas e praticadas pelo ser humano.

Fique tranquilo(a). Nunca se condenou tanto a procrastinação. Em contrapartida, nunca se procrastinou tanto. A preguiça  bem como os demais tópicos da celestial prescrição  é gasolina pura. Combustível da mais alta octanagem, que inflama e alimenta a hipocrisia.


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4 comentários:

ze disse...

Sou um procrastinador......
isso é ruim?
Abs.

André Luiz Ferrer Domenciano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Não, Barbanatti, não é ruim. A não ser que o senhor execre a procrastinação e, ao mesmo tempo, procrastine. Aí é que reside o problema. Obrigado!

Zoraya disse...

convivo mal com minha procrastinação. mas assumo ambas, o q, hipocritamente, me redime um pouco kkkk. beleza de texto, André!