terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PERDIDA NO MEIO DO CAMINHO >> Clara Braga

Um dia, enquanto aguardava em uma fila, ouvi um senhor avisar para as pessoas que um casal havia perdido o filho de 2 anos, caso alguém visse uma criança perdida, que avisasse a ele. As pessoas logo começaram a olhar para os lados e ficaram mais atentas. Mas o que me chamou a atenção foi um jovem que devia ter mais ou menos seus 16 anos, logo olhou para seu pai, que o acompanhava na fila, e disse: nossa, perder uma criança de dois anos, quanta irresponsabilidade!

No mesmo momento me lembrei do dia que encontrei uma amiga que não via tinha um tempo e ela estava com o filho, que também tem dois anos. Nos demos um abraço um pouco mais longo, daqueles de quem não se vê tem um tempo e estava com saudade. Esses segundos foram suficientes para que ficássemos olhando para os lados procurando o filho dela, que havia apenas sentado perto da gente para brincar com seu carrinho.

Lembrei também de quando meus pais contam que o grande desespero deles era levar eu e meu irmão para lojas de departamento, pois nós tínhamos a mania de nos escondermos no meio das roupas, sem ter a menor noção de que podíamos acabar nos perdendo de verdade no meio dessa brincadeira.

Coitado do menino de 16 anos, não tem noção do que é cuidar de uma criança de dois, por isso faz um comentário desse. Não teve maldade no que ele disse, mas fiquei me perguntando, porque diabos temos mania de querer opinar sobre tudo, até sobre o que não sabemos? Julgar parece mais fácil do que se colocar no lugar do outro. E sejamos sinceros, quem nunca?

Eu sempre achei um absurdo pais que usam aquela espécie de coleira nos filhos quando estão em locais muito cheios, até minhas amigas começarem a ter filhos.

Sempre julguei professores que passam um monte de exercício em sala para poderem usar o tempo para preencher diário, até que me tornei professora e entendi o quão difícil é conciliar sala de aula com a parte burocrática de uma escola.

Já achei que velhice era questão de idade, até acompanhar o dia a dia das minhas avós, que dão de mil em muitos jovens que mal conseguem sair da cama, esses sim são velhos.

Já cheguei a achar uma pessoa de 28 anos velha para ainda estar morando com os pais, até fazer 28 e estar feliz morando com eles, continuaria por mais tempo sem problemas.

Enfim, poderia falar sobre vários conceitos que vim mudando ao longo da vida. Mas não era exatamente esse meu foco. Dei esses exemplos para dizer que o que me preocupa de fato não é o julgamento que as pessoas fazem, é a forma como se sentem no direito de fazer, como se elas fossem as verdadeiras donas da verdade e, principalmente, o que realmente me preocupa é que as pessoas parecem estar cada vez menos interessadas e menos abertas a mudarem de opinião.

Quando foi que mudar de opinião passou a ser algo ruim? Me perdi no meio do caminho, sorte a minha! 


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Um comentário:

Rafael Vespasiano disse...

Todos donos da verdade e não mudam de opinião, e o pior acho que é pessoa insistir que alguém intransigente mude de opinião. O debate de opiniões sempre é bom, mas com pessoas abertas, aquelas que já chegam cruzando os braços é muito difícil dialogar.Perfeita a crônica, Clara. Mais uma vez parabéns pela lucidez!