segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - III >> Albir José Inácio da Silva

(Depois de ouvir Bóssi e os vizinhos na cena do crime, o Dr. Mouro retornou à delegacia para abertura do inquérito. Acreditava na história de Bóssi que, além de seu compadre, era um cidadão acima de qualquer suspeita e dedicava sua vida ao bem-estar da família tarietense)

Minutos depois do delegado, Bóssi chegou à Delegacia para depoimento na condição de testemunha, distribuindo sorrisos e cumprimentos. Era amigo da polícia. Contou sua versão sem interrupções. No momento mais dramático da narrativa não pôde evitar as lágrimas. O delegado ouviu compassivo e ditou para o escrivão:

 “Aos vinte e três dias do mês de setembro de 1986, nesta cidade de Tarietá, na Delegacia de Polícia, onde se achava o Dr. Mouro, Delegado, comigo Escrivão, ao final assinado, compareceu o Senhor Antônio Vieira dos Santos, já qualificado,  socialmente conhecido como “Bóssi”, sabendo ler e escrever, aos costumes disse nada, testemunha compromissada na forma da lei, sendo inquirida pelo Dr. Delegado, disse: que às sete horas da manhã de hoje foi até a sede do Grêmio Recreativo Tarietense para se encontrar com o presidente eleito e tratar de assuntos ligados à transmissão do cargo; que estranhou portão e porta abertos, mas tinha entregado as chaves a Arakém logo após a apuração; que encontrou a secretaria revirada e, ao entrar na sala de reuniões, se deparou com Arakém caído sobre o próprio sangue; que, ato contínuo, tocou o alarme e correu para a porta no alto da escada e começou a gritar por socorro; que neste momento ainda pôde ver o ladrão encapuzado, carregando um saco nas mãos, que pulou o muro e fugiu numa motocicleta dirigida por um comparsa também encapuzado; que, depois disso, ligou para a polícia; que vizinhos e transeuntes testemunharam a fuga do meliante; que muitas pessoas se dirigiram ao local até que chegou o ilustre Delegado. Nada mais disse. Lido e achado conforme, vai devidamente assinado por mim, escrivão, pela testemunha e pelo Dr. Delegado”.

                                                                                BÓSSI

O apelido Bóssi quem deu foi o Neném, depois de umas aulas de inglês, dentre outros cursos que o chefe insistiu em matriculá-lo, a ver se conseguia um ajudante mais apresentável. Não conseguiu ilustrar o ajudante, mas ganhou essa alcunha, que é uma corruptela de “boss” – chefe em inglês. E Bóssi gostava do apelido, mesmo sabendo que era fruto de ignorância bajulatória.

Não havia mais o que dar errado. Todas as etapas transcorriam conforme planejado. Sua maior preocupação era o Neném, um garoto neurastênico, que dava piti quando via sangue, mas era o único em quem confiava. E ele se saíra bem, mesmo com alguns espasmos na hora agá. Neném era uma besta quadrada, costumava dizer, mas era sagaz e de confiança.

Em “off”, ao Dr. Mouro, Bóssi disse que pessoalmente gostava de Arakém, para ele um ingênuo, um sonhador. Desses que acreditam em igualdade, luta de classes, e esquecem que quando o patrão vai bem, o empregado também vai, e quando melhora para o rico, sobra mais para o pobre. Mas essa gente parece não ter jeito, fica sonhando enquanto a vida passa. Um inocente útil, mas um bom homem. Um adversário combativo, nunca um inimigo, embora tenha tentado atrapalhar sua gestão desde que chegou ao Conselho.

Apertou a mão do delegado, que mandou recomendações à família e lhe desejou boa administração à frente do Clube.

Bóssi deixou a delegacia aliviado. Ria-se com a máxima de que não existe crime perfeito. Ora, se um crime não pode ser esclarecido, permanece silencioso nos arquivos da polícia, ele é perfeito.

Enxergava-se longe de um assassino, pelo contrário, era um cidadão de bem. Os fins justificam os meios, e situações extremas exigem soluções extremas. Se tomou providências mais enérgicas, foi em benefício do clube e da cidade. Não foi à toa que ganhou da Câmara Municipal o título de “Cidadão Tarietense”.

Bóssi voltou para o clube, o que não lhe faltava era trabalho até as eleições. E por onde andaria Neném, que não deu notícias até agora? Não estava no clube nem telefonou.


(Continua em 15 dias)


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Um comentário:

Zoraya disse...

aaaaiiii, Albir! Assim vc nos mata de suspense! Tomara que Bóssi se dê mal, muito mal!