segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

AI, MEU CORAÇÃO! .. Albir José Inácio da Silva

Atravessou a quadra silenciosa naquele horário e subiu a escada que dava acesso à secretaria do clube. Havia algo estranho. Primeiro o portão encostado, que ele se lembrava de ter fechado ontem, depois a porta destrancada e agora a luz acesa. Arakém proferiu a clássica pergunta que antecede os assassinatos.

- Quem está aí?

A reunião da diretoria só começaria às oito, mas ele chegou antes das sete da manhã. Queria examinar documentos, além dos que tinha lido durante a madrugada, queria mais provas porque sabia que além de fraudes, superfaturamentos e desvios, havia outros crimes praticados pela quadrilha, que há anos se instalou na administração do Grêmio Recreativo Tarietense. Depois da reunião, iria direto à delegacia.

O escritório estava desarrumado porque ele mesmo o deixou assim ontem à noite, quando recolheu às pressas alguns papéis e foi pra casa. Agora sentia algo de errado no ambiente. Um arrepio subiu-lhe pela espinha. Entrou na sala de reuniões que estava escura, mas não conseguiu acender a luz, foi agarrado por um encapuzado. Seu braço foi torcido para as costas, e um outro capuz surgiu à sua frente com uma faca.

- Nada disso precisava acontecer, Arakém, era só você ter perdido como das outras vezes.

Arakém soube que ia morrer porque o outro nem disfarçava a voz. Reconheceu também a risada de quem o segurava e perguntou:

- Pra que o capuz?

Bóssi admitiu que era bobagem esconder o rosto, enfiou a lâmina no peito do presidente eleito e torceu a mão para os dois lados. Não devia sobreviver. Arakém dobrou os joelhos e caiu pra frente porque Neném soltou o seu braço e virou de costas - não podia ver sangue.

- Quê que foi, ô mariquinha, vai desmaiar? - desdenhou Bóssi, que agora tinha pressa. – Segue o combinado, corre e desaparece com tudo. – disse e apertou o botão do alarme que, àquela hora da manhã, trouxe os vizinhos para as janelas e parou os transeuntes que iam pra o trabalho. Entregou a máscara e a faca pro Neném, abriu a porta do escritório e gritou do alto da escada:

- Socorro! Socorro!

Neném, de capuz, roupa preta e um saco grande na mão, cruzou a quadra correndo, subiu no muro e saltou na calçada. Nesse momento, uma moto, sem placa, com tinta barata cobrindo a pintura e escapamento aberto, parou no meio-fio com estardalhaço. O piloto também tinha o rosto coberto. Neném pulou na garupa e o veículo saiu roncando pelo asfalto.

Aos primeiros que chegaram, Bóssi explicou chorando que tinha marcado com Arakém um encontro antes da reunião da diretoria para cuidarem da transição. E que ao chegar encontrou o presidente numa poça de sangue. E que quando foi à porta gritar por socorro ainda viu o ladrão encapuzado pulando o muro.

Bóssi repetiu a história quando o delegado chegou, e os presentes confirmaram ter visto o fugitivo desaparecer numa moto sem placa. Bóssi confirmou que algumas coisas foram roubadas, incluindo os pertences do morto. Lembrou que Arakém não tinha inimigos, só adversários políticos - gente honrada, incapaz de fazer mal a uma mosca.

Latrocínio. Se havia alguma coisa a investigar, era a autoria, muito difícil, aliás, porque encapuzados que somem de moto na estrada podem já estar muito longe. A violência das grandes cidades tinha chegado à pacata Tarietá.

Arrasados com a tragédia, os outros membros da diretoria se recusaram a tomar posse. E Bóssi aceitou o sacrifício de dirigir o clube, naquele momento difícil, até que houvesse novas eleições.

- Uma boa gestão é a melhor maneira de homenagear o presidente assassinado. O Tarietense não se furtará às suas responsabilidades e continuará encantando a vida da cidade – disse Bóssi, já em franca campanha.


(Continua em 15 dias) 


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Um comentário:

Zoraya disse...

Albir! Que maravilha, uma história policial! Tô doida pra ler a continuação!Beijos ansiosos.