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TIPOS DE ALEGRIA >> Paulo Meireles Barguil


Na crônica passada, intitulada Desafios de aprendizagem, escrevi, na versão inicial, que "A alegria, embora não seja uma boa mestra, é uma ótima companhia.".
 
Uma estimada leitora, educadamente, indagou-me: "A alegria não é mestra, mestre?".
 
Após lhe explicar que o texto era apenas uma crônica, ou seja, não tinha, tem ou terá qualquer intenção pedagógica ou científica, quiçá literária, informei-lhe que o trecho havia sido reescrito, com a explicitação da justificativa da minha blasfêmia, nos seguintes termos: "A alegria, embora não seja uma boa mestra, uma vez que não nos prepara para aceitar o efêmero – muito pelo contrário! – é uma ótima companhia, pois com ela nos lambuzamos com odores, sons, texturas e sabores agradáveis do Universo.".
 
Ocorreu-me, então, a necessidade de clarificar, mesmo que brevemente, os motivos que me fizeram proferir tal asserção.
 
Durante décadas no século passado, acreditou-se que as gorduras eram nocivas para a saúde humana.
 
Os crentes e seguidores de tal axioma, então, deixaram os porcos e demais animais com generosa camada adiposa em paz, contudo sem venerá-los!
 
E, então, descobriu-se que existem vários tipos de gorduras, sendo algumas saudáveis e outras não, e que o consumo daquelas é necessário para a absorção de vitaminas.
 
Explicações mais detalhadas desse assunto escapam dos tacanhos conhecimentos do escriba e dos objetivos deste fragmento.
 
Paralelo traçado com grãos de areia, retorno ao contexto: a alegria é necessária para o Homem, mas várias são as espécies dela!
 
Considerando que somos o casamento entre matéria e espírito, bem como o fato de que a constituição e os objetivos de ambos são distintos, os gostos deles também o são...
 
Afastando, de início, qualquer pretensão moralista, é prudente destacar a disparidade com que ambos compreendem (e vivem) o espaço-tempo.
 
Um acredita em passado, presente e futuro; o outro não, pois os percebe como uma totalidade.
 
Um reclama, constantemente, ser alimentado de fora para dentro, sob pena de morrer; o outro não, visto que, liberto do jugo temporal, sabe-se imortal.
 
Ambos necessitam de nutrição, sem dúvida, mas, em virtude de suas idiossincrasias, possuem demandas díspares.
 
A alegria que ambos sentem, portanto, é deveras assimétrica: uma se esvai, a despeito do desejo do sujeito de perenizá-la, fruto da ignorância, do desconhecimento da sinfonia da natureza, a outra, contudo, é fitada pelo Homem com suavidade e veneração, ciente do mistério e da bonança do mergulho...

Comentários

Lilu disse…
Dupla alegría ler seu texto, amigo. :))

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