sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

JANTAR SANGRENTO >> Zoraya Cesar

Anyta estava ansiosa. Aquele jantar significava muito, muitíssimo, para ela.  Seria a primeira vez que receberia os amigos de Osmar como anfitriã, noiva, futura esposa, não mais a amante escondida, relegada a um quarto e sala com vista para um muro quebrado e cinza. Nascera pobre mas, por sorte, bonita. Bonita e inteligente. Bonita, inteligente e astuciosa, capaz de qualquer coisa para casar com um homem rico.  

Seus ardis tiveram sucesso, pois Osmar largou a mulher e dois filhos para casar com ela, a linda, sexy e 20 anos mais nova Anyta. 

Onze convidados, mais o casal, seriam 13 à mesa. Que estava posta como nas fotos das melhores revistas de decoração - flores brancas, talheres de prata, guardanapos de pano, copos de cristal, louça inglesa. Mais chique, impossível, deliciava-se Anyta. Iria impressionar a todos com sua elegância e maneira de receber. E ia entuchar aquele bando de parasitas com comida de rico. Para evitar contratempos, contratara o bufê e a cerimonialista mais caros da cidade. O homem se conquista pela boca, aprendera. Não tinha dúvidas que tudo sairia conforme seus planos. Nada daria errado. 

Os convidados chegaram. As mulheres, algumas arrivistas, como Anyta, usavam roupas de grife e tinham um pensamento em comum: iriam ficar de olho naquela vadia que seria capaz de roubar-lhes os maridos, deixando-as na mesma penúria da desgraçada Ilia, largada à deriva com os filhos. Os homens, impecáveis, mal disfarçavam a malícia em seus semblantes, invejando Osmar por ter saído de um divórcio deixando a ex com o pires na mão e ainda arranjar uma gostosa daquelas. Sim, os convidados chegaram. E os vinhos foram imediata e fartamente servidos. 

Vieram os hors d’oeuvre. Ninguém notou que as mãos de um dos garçons estavam ligeiramente trêmulas, e que o outro garçom carregava um semblante amarrado e raivoso, incondizente com a ocasião.  Ninguém presta atenção em meros serviçais.

O jantar começou. Eram 13 à mesa, sabemos, mas quem se importa com superstições? Primeiro, a entrada, uma sopa Borscht roxa e pulsante, com estrias vermelhas enfeitando a superfície. Estava um pouco amarga, como que ferruginosa, mas todos aceitaram o estranho sabor pensando se tratar de um modismo, afinal, aquele era o bufê mais sofisticado da cidade. O próprio anfitrião achou o gosto meio desagradável, mas, como todo novo-rico, era afeito a elogios e, ao ver seus convidados apreciando a comida, convenceu-se de que era assim mesmo.  Exótico, disse alguém. 

Os pratos foram retirados, sem que ninguém notasse o paletó amarfanhado de um dos garçons, nem o rasgão na costura do ombro, que, como um sorriso mal feito, deixava à mostra uma parte da camisa branca. O outro garçom trazia o lábio inferior ligeiramente inchado, mas isso também passou despercebido. O vinho já tomara conta dos convivas, a alegria corria solta de cadeira em cadeira, quem repararia?

Chegou o  prato seguinte, steak tartare com batatas. As mulheres experimentaram com um certo nojo, mas, à primeira garfada, renderam-se à carne macia e bem temperada. Tão absortos e entretidos estavam, que não houve um sequer a notar que a carne servida não era filet mignon. O vinho solapava, cada vez mais, os parcos poderes de observação dos convivas, que, por consequência, não repararam, também, que o garçom do uniforme rasgado veio cambaleante recolher os pratos, enquanto o outro, o de cara raivosa, retirava os talheres com a mão esquerda, trazendo, à mão direita, uma faca de carne ensanguentada. 

Finalmente, a sobremesa, creme brûlée. O garçom com o terno rasgado veio com o maçarico e queimou o primeiro creme. A mulher a quem ele servia mal o notou - nem ela nem qualquer outro àquela mesa olharia um reles garçom – e sem esperar que ele terminasse, foi logo enfiando a colher, comendo de qualquer jeito. Aquilo pareceu irritá-lo, pois, num gesto abrupto, queimou os dedos da mulher que, assustada e dolorida, gritou. 

O grito inusitado despertou os outros comensais de sua exaltação etílica. Fez-se silêncio no salão. O dono da casa preparou-se para passar uma descompostura humilhante no imbecil que ousara queimar logo a irmã de seu advogado. Só não teve tempo. 

O garçom de fisionomia iracunda entrava trazendo o corpo inerte – por morto - da cerimonialista, cujo peito fora perfurado por um enorme garfo de trinchar, jogando-o em cima da mesa. Tomado por um frenesi, o garçom da roupa rasgada ligou o maçarico no máximo, ameaçando tostar os convidados, a defunta, o colega, tudo. Atracaram-se, ele e o outro, numa luta mortal, finalmente tendo a atenção dos 13 à mesa, que olhavam, aparvalhados e atônitos, ora para o corpo morto, ora para a dança macabra protagonizada pelos garçons.

O jantar pode ser elegante.
Convidados, anfitriões
 e demais envolvidos, não necessariamente.
Na cozinha, o chef, segurando as entranhas abertas, dizia a si mesmo que 13 à mesa dá azar, alguém sempre morre, algo sempre dá errado. E pensou que, realmente, ele não deveria ter contado ao marido da cerimonialista que ela e o outro garçom tinham um caso. Pior, pensou, eles não deveriam ter servido meu bucho, o fígado cairia melhor com o molho e... 









foto: Annie Sprat in Unsplash | Free HD Photo


Partilhar

6 comentários:

Ana Luzia disse...

Essa me chocou! Anyta ficou parecendo uma colegial, nem traiu o marido, nem matou a ex...

é por isso que prefiro festas com picolés, são muito mais divertidas, rsrs...

beijos!

Clarisse Amador disse...

Amei, Zô! Maior climão de Walking Dead, rsrsrs

Marcio disse...

Acho que li muito rápido, e perdi alguma coisa.
O chef contou para o marido da cerimonialista que ela e o garçom tinham um caso.
E é o chef que tem o bucho arrancado?
Outra coisa: o morto não seria um dos treze sentados à mesa?
Cristo não estava à mesa na última ceia, com seus 12 apóstolos?

Carla Dias disse...

Zoraya, de um jeito meio assim-assim, seu impecável texto me fez lembrar do filme Delicatessen. Havia o extremo do cotidiano - e seus probleminhas preferidos - e a alegoria dos seus mortos que acabavam na mesa.
Adorei!

Anônimo disse...

No final das contas a Anyta nem matou nem morreu. Cadê a lição de moral da história? Kkk

albir silva disse...

Zoraya, teus sustos estão me trazendo preocupações que eu não tinha. Vou ficar atento sempre ao número de convidados.