quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

CARDÁPIO >> Carla Dias >>


Hoje tem silêncio. Uma penca deles a se embaraçar às curiosidades sazonais. Tem roupa lavada, casa varrida, comida engolida, verdade berrada. Hoje tem desaforo. Uma leva deles a desfilar nas passarelas do fim de tarde.

Hoje tem música repetida à exaustão. Mentira repetida à exaustão. Ilusões vividas à exaustão. E jardins suspensos imaginados por conta de desejos de se criar jardins suspensos legítimos. A insistência em permanecermos em modo “talvez amanhã...”.

Hoje tem colecionadores se desapegando de seus badulaques e de umas e outras obsessões. Como a de seguir alguém com o olhar e se sentir morrendo quando esse alguém se mistura à multidão. Perde-se da vista.

Hoje tem humor negro bebericando da boca entreaberta da leveza, simplesmente porque deseja um desafogo. Antagonistas enchendo os salões de baile para valsarem aos pares. Hoje tem trégua, bebidas exóticas, amarração e bênçãos. Tem liberdade com data de validade, livros de arte servindo de mesa de centro para xícaras de café morno. Perfumes diversos que se misturam quando os personagens nos quais se hospedam se negam a se misturar.

Hoje tem saudade sendo iludida por estancamento com impecável treinamento. Trava-língua, línguas baralhadas, palavra desdita para enfatizar o dito, orações murmuradas aos santos que em nada se importam. Discussões por insignificâncias, lágrimas escapadas de severo controle. Sabores novos, mistura de ontem, flor morta dentro de livro agindo feito marcador. Encontros às cegas, descobertas deslumbrantes. Desvelamento capaz de escancarar com as portas das prisões.

Hoje tem prazer e dor e incapacidade de resolver problema e feira livre onde se vende companhia em quarteirões de bairros. Chá de boldo, incenso, o putrefaciente desejo de um vencer à custa da miséria do outro. Morte de uns e vida de outros e o meio-termo, aka morte em vida, que na verdade soa feito o quinto dos infernos.

Hoje tem tempo destinado ao fazer nada, vagabundear pelos sentimentos contidos e permitir que eles gritem. Bilhetes lançados do décimo terceiro andar para desejar aos transeuntes que os pegarem um tanto mais de alegria.

Porque hoje tem vida.

Imagem © Pablo Picasso

carladias.com



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