Pular para o conteúdo principal

CARDÁPIO >> Carla Dias >>


Hoje tem silêncio. Uma penca deles a se embaraçar às curiosidades sazonais. Tem roupa lavada, casa varrida, comida engolida, verdade berrada. Hoje tem desaforo. Uma leva deles a desfilar nas passarelas do fim de tarde.

Hoje tem música repetida à exaustão. Mentira repetida à exaustão. Ilusões vividas à exaustão. E jardins suspensos imaginados por conta de desejos de se criar jardins suspensos legítimos. A insistência em permanecermos em modo “talvez amanhã...”.

Hoje tem colecionadores se desapegando de seus badulaques e de umas e outras obsessões. Como a de seguir alguém com o olhar e se sentir morrendo quando esse alguém se mistura à multidão. Perde-se da vista.

Hoje tem humor negro bebericando da boca entreaberta da leveza, simplesmente porque deseja um desafogo. Antagonistas enchendo os salões de baile para valsarem aos pares. Hoje tem trégua, bebidas exóticas, amarração e bênçãos. Tem liberdade com data de validade, livros de arte servindo de mesa de centro para xícaras de café morno. Perfumes diversos que se misturam quando os personagens nos quais se hospedam se negam a se misturar.

Hoje tem saudade sendo iludida por estancamento com impecável treinamento. Trava-língua, línguas baralhadas, palavra desdita para enfatizar o dito, orações murmuradas aos santos que em nada se importam. Discussões por insignificâncias, lágrimas escapadas de severo controle. Sabores novos, mistura de ontem, flor morta dentro de livro agindo feito marcador. Encontros às cegas, descobertas deslumbrantes. Desvelamento capaz de escancarar com as portas das prisões.

Hoje tem prazer e dor e incapacidade de resolver problema e feira livre onde se vende companhia em quarteirões de bairros. Chá de boldo, incenso, o putrefaciente desejo de um vencer à custa da miséria do outro. Morte de uns e vida de outros e o meio-termo, aka morte em vida, que na verdade soa feito o quinto dos infernos.

Hoje tem tempo destinado ao fazer nada, vagabundear pelos sentimentos contidos e permitir que eles gritem. Bilhetes lançados do décimo terceiro andar para desejar aos transeuntes que os pegarem um tanto mais de alegria.

Porque hoje tem vida.

Imagem © Pablo Picasso

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Hoje tem gente babando nessas palavras-escritas. Hoje Tem gente se arrepiando de emoção. Hoje tem gente se apegando nessas leituras. Hoje tem gente surtando de alegria (por ter o prazer de se impregnar com seus textos, Carla Dias) Hoje tem, Viva!!!


abraços
Enio

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …