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Mostrando postagens de Novembro, 2007

OS CRIMINOSOS >> Leonardo Marona

Aquilo que nos impele. Somos as palavras difíceis no fim de frases vagas. Somos aquilo que deu errado em nós. É preciso disso para se continuar vivendo. Saber ser o que se é, mesmo sabendo que aquilo que se é não passa do que somos e não deveríamos ter sido. Pobres os que são o que sempre quiseram ser. Estão mortos, os mortos sorriem constantemente, os mortos contam trajetórias. Porque morte é alívio. Morte é, por assim dizer, o início da vida contemplativa a que tanto aspiram hipócritas e gênios, um o tipo mais avançado do outro. Mas viver sangra. O sangue são pedaços de carne lambidos pela alma. Por isso o sangue é amor, sacrifício e, finalmente, despedida. Sobre o que deu certo nós apenas falamos. E fazemos em silêncio o desesperado jogo de tecer pedras com os próprios dedos.

Por exemplo, eu certamente sei que não deveria continuar a escrever este texto. Primeiro sei que o motivo pelo qual comecei a escrevê-lo já não é mais o meu motivo. É o de outra pessoa, outro qualquer coisa, at…

OS DIAS >> Carla Dias >>

Encaro minha humanidade como desafio, pois nem sempre me sinto capaz de exercê-la. Às vezes, encosto no tempo e fico a galantear vazios. Sou assim: meio lá, quase acolá.

Tem dias em que a felicidade me embriaga, e em outros, peço licença à tristeza para trafegar em seus campos, a melancolia a tiracolo. Não há regra, não domino a linguagem dos significados das jornadas. Mas sei que no final de cada uma delas há um réquiem à espera, pois como mencionam os oráculos, é preciso morrer para renascer; benfeitorias no aguardo.

E tem dias em que me sinto repleta, sem motivos ou expectativas. Trata-se somente de uma sensação boa que se levanta comigo; abro os olhos e percebo a vida mais mansa. Dias assim são preciosos, porque a identidade deles vem justamente do efêmero. E o que eterniza esse começo que se agarra fervorosamente ao fim, é a nossa capacidade de mantê-lo vivo na memória; mas não como um cemitério de lembranças, de onde tiramos uma nostalgia truculenta, que recorre às cobranças sobre…

BELEZA PRÓPRIA -- Paula Pimenta

My mistress' eyes are nothing like the sun; Coral is far more red than her lips' red; If snow be white, why then her breasts are dun; If hairs be wires, black wires grow on her head. I have seen roses damasked, red and white, But no such roses see I in her cheeks; And in some perfumes is there more delight Than in the breath that from my mistress reeks. I love to hear her speak, yet well I know That music hath a far more pleasing sound; I grant I never saw a goddess go; My mistress when she walks treads on the ground. And yet, by heaven, I think my love as rare As any she belied with false compare.
(Soneto 130 - William Shakespeare)
Meu namorado reclamou porque eu disse que prefiro o seu corpo um pouco mais 'cheinho'. Ele disse que eu quero o seu mal, que não gosto de vê-lo em forma, que eu desejo que ele ande feio por aí.

O que ele não entendeu é que é exatamente o contrário: eu o considero mais bonito com 'recheio' do que sem. Sei que a referência que temos de beleza, atualm…

AMOR POR ESCRITO >> Eduardo Loureiro Jr.

As analfabetas que me perdoem, mas a escrita é fundamental. As que escrevem mal que me relevem, mas a grafia correta é imprescindível. As que escrevem só o necessário que me dêem um desconto, mas a desnecessária inspiração é indispensável.

O amor me chegou por escrito, como sempre me chegou: em bilhetes, cartões, cartas, e-mails, mensagens de celular.

O amor por escrito é o amor paciente de que fala O Livro: não exige o momento nem se esgota nele; está ali desde sempre até que se queira conhecê-lo e, uma vez conhecido, estará sempre ali para ser relido como se fosse a primeira vez.

As bonitas que me desculpem, o amor por escrito só vê o invisível essencial. As malhadas que me escusem, o amor por escrito é lânguido, frouxo. As maquiadas que me tolerem, o amor por escrito é sem máscaras.

O amor por escrito fala de si sem dizer o próprio nome: tem uma intimidade anterior aos batismos. O amor por escrito pede silêncio e inspira música.

O amor por escrito é prosa prosaica de mar que se afoga em…

UMA MULHER SEM SAPATOS [Ana Coutinho]

Márcia é uma mulher interessante, bonita, inteligente e, claro, independente. Dizer que é independente nos dias de hoje é quase sinônimo de solteira. Quando falamos de mulheres lindas e bem-sucedidas, é como se fosse um texto para ser completado com “sozinha”.

Com Márcia não era diferente. Ela sabia que era parte das estatísticas, uma matéria de revista, sabia que o mundo era assim mesmo, que a vida tinha dessas coisas e tal. Márcia sabia, sobretudo, que ser sozinha, linda e inteligente, dava a ela um ar ainda mais interessante. Não aos homens unicamente, mas às amigas, aos tios, aos senhores que a olhavam na rua, quando ela saía do salão com o cabelo longo e liso que tinha. Era como se ela fosse parte de uma reportagem da “Claudia”, era como se as casadas a invejassem e os solteiros a desejassem, ainda que com tempo limitado. Os seus relacionamentos existiam, eram ótimos, mas tinham, sem exceção, uma data de validade – tal como um pote de requeijão.

Ainda assim, ainda causadora de inve…

SURPRESAS TRISTES [Débora Böttcher]

Foi quinta-feira: pela manhã chegou a notícia de que o marido de uma amiga/parceira profissional tinha falecido. Não me pegou de surpresa propriamente dita - ele enfrentava um câncer de estômago há pouco menos de um ano. Mas sempre me surpreendo com a Morte...

Quando saí da garagem subterrânea do prédio onde moro em destino ao local da cerimônia de despedida, deparei-me com um dia especialmente azul - que contrastava totalmente com meu traje preto e minha alma sombria. Ventava um pouco, como sempre parece acontecer nessas ocasiões - naturalmente, uma coincidência sem real associação.

Isso também me surpreende sempre: como a vida continua, alheia às terríveis dores e perdas individuais.

Acho que posso dispensar comentários sobre a tristeza do fato: ele era um homem jovem - 51 anos -, bonito - de brilhantes olhos azuis e pele clara -, educado, gentil, divertido, muito alegre. Amante da natureza, de animais, da vida sofisticadamente simples, ele construiu uma casa grande num condomínio fe…

O MOMENTO MÁGICO << Leonardo Marona

Sim, apenas pela sensação fugaz das linhas se fazendo. Sim, por uma bobagem, pelo espaço preenchido por qualquer bobagem. Por cataratas de bocas se abrindo e se fechando. Pela bobagem singela de um sorriso sem razão. Pela loucura liquefeita nos espaços entre as folhas de um eterno clima outonal. Sim, pela emoção fragmentada de gritos enxertados. Aquele espaço sempre quase mudo, a ponto de se realizar, se afastando. Aquele ranço entre o silêncio idealista e a solidão tácita. Existe talvez quem sabe um “não basta”, não basta apenas garantir uma sabedoria, porque no fim se perde e se nega, mas quem saberá realmente o que um dia chamou-se ingenuidade ou força de espírito? E onde estará em mim o amor de que preciso? Porque é preciso achar, sim, talvez apenas para ver a beleza das linhas se fazendo. Talvez apenas por uma bobagem. Sim, por uma bobagem. Só por causa de um rombo incômodo que repartimos em silêncio aos risos debaixo da fumaça dos cafés de filmes aos quais jamais assistimos, mas…

TATUAGEM [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Dia desses minha irmã chegou em casa com uma tatuagem na parte interna do pulso: um M em letra cursiva floreada e duas estrelinhas desalinhadas, uma azul e uma vermelha. Meu irmão também tem uma tatuagem, mas na parte interna do braço. São três cabeças de dragão formando um círculo. Consideravelmente maior do que a dela, mas também em local de acesso mais difícil aos olhos alheios.

Tatuagens me causam um misto de espanto e incompreensão: fazer de livre e espontânea vontade um desenho no seu corpo que, por princípio, deverá existir para sempre? Engraçado. Estranho. Como assim? E se eu cansar dessa marca, dessas cores, desse modelo? Você pode tirar com laser, dizem eles. Sim, respondo eu, mas e se eu cansar disso já na semana que vem? Aí a incompreensão é deles: por que alguém faria uma tatuagem se fosse para não querer mais tê-la na semana que vem? Pois é. Por que? Agora sou a única irmã não tatuada, para alívio do meu pai.

Eu confesso que não consigo me imaginar fazendo uma tatuagem. Já…

HIPOPÓTAMO, MUNDO E LOBOS >> Carla Dias

Minha sobrinha me ligou e disse: “ontem foi seu aniversário, né?” e respondi “né”. Então, ela me deu os parabéns e começamos nossa conversa de doidivanas que somos. Apesar de ter ficado com ela na quinta-feira, com direito a dengos, colo de tia e afago de sobrinha, não a vi na sexta passada, dia em que completei meus trinta e sete anos, porque passei parte deste dia na casa de uma tia. Depois, voltei pra casa… Pra tevê a cabo e pipoca.

Batemos altos papos, porque somos moças descoladas. Apesar de meus trinta anos aquém dos sete dela, nos entendemos muito bem. Já conversamos seriamente sobre a idade, porque ela pensa em se tornar muitas coisas, inclusive bailarina e professora, mas se nega a crescer e a envelhecer. Hoje, ela já aceita que será mais alta do que é agora, o que, acreditem, é um avanço e tanto.

Ouvissem alguns políticos o jeitinho que ela diz “não pode fazer maldade!”; pudessem ver a seriedade na carinha dela, a verdade na sua declaração, quem sabe se envergonhariam de enfia…

O CHAMADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Nada acontece sem um aviso. Desde as histórias que Vó Izolda contava, tudo acontece depois de um anúncio. Minha amiga Juliana dizia "aqui, quando chove forte, de relâmpago e trovão, venta forte antes e a gente sente, ouve a chuva chegando". Tinha uma luz no meio do caminho: uma chama, um chama, um chamado.

A gente resiste, claro, faz charme, faz de conta que não é com a gente. Peixe que carrega pra longe a isca que já mordeu. E o pescador dando corda: "Vai, foge, curte a liberdade, o mar é todo teu..." E zás! O fio do destino puxa o peixe pela boca. E se o peixe morre pela boca, o poeta vive pela palavra.

Na saída do Labirinto, eu, Dédalo, falei para o Minotauro e para Teseu: "Tantos anos e vocês aqui, dentro de uma idéia minha. Tantos anos a se perder e a se encontrar. Tantos anos de pedra, de couro, de espada. Inventem agora vocês alguma coisa na qual eu possa entrar."

Vocês foram lá e inventaram. Teseu no céu tecendo seu fio. Minotauro na terra cavando a …

DESCONTA LÁ! >> Felipe Holder

Quando eu era criança costumava brincar com os amigos de um jogo chamado desconta-lá. Quer dizer... na verdade não era bem um jogo, era uma brincadeira - normalmente de mau gosto, por sinal.

O negócio era o seguinte: você estava distraído, pensando na morte da bezerra, vinha alguém e tebei! dava-lhe um peteleco na orelha. Ou um catiripapo no toitiço. Quando você se virava, pronto pra retribuir a gentileza, o engraçadinho corria e gritava "desconta lá!" Se você reclamasse, ignorasse a "brincadeira" ou se corresse atrás do cara pra revidar, era logo hostilizado pelos outros. Era um tal de "donzelo", "não sabe brincar", "deixa de ser menino" (e o que é que a gente era?) e outras coisas mais. Pra ser "aceito no grupo", tinha que entrar no clima e passar adiante o peteleco, catiripapo, bolacha ou o que quer que fosse. E assim era o tal desconta-lá. Para uns, uma brincadeira inocente; para outros, como eu, uma coisa pra lá de sem gr…

PALAVRAS-CHAVE [Mariana Monici]

Não sou uma pessoa racional - fato admirado por alguns e totalmente condenado por outros. Reparo que algumas pessoas vivem exatamente de forma calculada, feito uma planilha no excel: cada novo dado inserido já prevê um resultado. Admiro e, se houvesse este tipo de consultoria, pensaria em contratar o consultor que aplicasse conceitos matemáticos e prevesse resultados mais sensatos pra minha vida emocional em tudo que lhe diz respeito. Mas tudo bem, procuro aceitar a coisa como ela é.

Alguns tentam me dizer palavras-chave que suscitem sensatez (porque um tanto eu tenho, claro!), como, por exemplo, “calma!”, “tempo ao tempo”, “um passo de cada vez”, e vou confessar que ouvi-las me dá um certo tipo de aflição que sinto as bochechas esquentarem, uma descarga de adrenalina do tipo ruim. Pois pessoas guiadas pelo emocional não gostam muito de ouvir isso - preferem ouvir palavras que demonstrem apoio, efusivamente proferidas.

Isto é sim um tipo de confissão e não um pedido. O melhor seria que …

FERIADO PARTICULAR [Ana Coutinho]

Quando era ainda criança e ainda completamente tonta, tinha uma amiga que se chamava Clara e que fazia aniversário em 21 de Abril. Um dia, talvez perto do feriado, lembro-me de ter perguntado pra ela porque, afinal, era feriado nesse dia. Ela me olhou marota, e disse com alegria: “Porque é meu aniversário, oras!”

Eu fiquei ali, paralisada, pensando o que ela tinha feito para merecer um feriado só dela, o quanto talvez ela fosse importante e eu nem sabia e, depois, em casa, cheguei a pensar se eu também não poderia fazer alguma coisa tão grandiosa quanto a Clara deveria ter feito (apesar de eu não saber) para que eu tivesse um feriado no dia 21 de Março - parece que ninguém que nasceu nesse dia tinha feito nada de muito especial até aquele momento (já que meu aniversário não era feriado), e eu poderia tentar transformá-lo.

Não deve ter demorado muito até que eu percebesse que a Clara não tinha feito nada de especial - a não ser ter nascido no dia que Tiradentes morreu, anos e anos depoi…

EU QUERO SER BOCÓ >> Cristina Carneiro

Já passaram dias, inteiros
Janeiros, calendário que nunca chega ao fim
Início sim e só recomeçar.
(Pedro Luís e Roberta Sá)

Principiou no Cariri, quentura braba. Essa coisa nascida no Cariri, no Crato, lá no sul do estado, renasceu em mim nesses derradeiros dias. Quente cá na cidade nova. Nem vento faz. Calor medonho. Saudade medonha do calor daquele novembro, 2005, lá no Cariri.

Sala barulhenta. No cantinho da sala, estava eu. Perto da janela fechada, mas era janela, e eu gostava de ficar no canto. As pessoas eram ignorantes do que me acontecia naquele cantinho abafado. “Dilúvios...”

Daqueles dias, lembro também da praça e do meu aniversário: numa churrascaria varandão: sete cervejas divididas com um amigo e muitos olhares para o relógio eletrônico da praça: “19/11/05, 22:00", "19/11/05, 22:00", "19/11/05, 23:15”, "19/11/05, 23:15”, “20/11/05, 00:02”. Garçom, traz a conta. Saimos cambaleando. Meu coração explodia de alegria e de vontade de voltar pra casa, na cidad…

A MORTE DE BORIS YELTSIN >> Leonardo Marona

A morte de Boris Yeltsin foi para o protagonista desta história, a quem chamarei de ele, não confundir portanto com Boris, cuja morte foi muito mais, como eu dizia, que a morte de um simpático bêbado incoerente. Mais coisa morreu com Boris naquele dia escuro, quando os mosquitos estavam mais sanguinários.

Ele não sabia de nada – e parecia fazer muito tempo que ele não sabia de nada. Mas não se sentia tão mal porque ainda podia sentir que estava perto das pessoas de alguma forma: elas não pareciam saber de nada também, embora falassem demais.

Ele estava no ônibus, passando pela Glória, indo para o trabalho. No geral, estava infeliz. Mas ainda um pouco atordoado por uma melancolia boa, fugaz, dessas que se tem ao ler Manuel Bandeira. Ao seu lado no ônibus havia algumas pessoas e todos juntos pareciam ter menos cor do que as coisas tinham, mesmo que as coisas não tivessem muita também. Era uma estranha sensação de entorpecimento das próprias cores. Ele coçava os olhos e olhava pela janela,…

RECONSTRUÇÃO >> Carla Dias >>

Dia desses, eu gastei horas a observar minhas mãos sobre o papel em branco. Meus dedos não estavam ágeis, mas sim repousavam sob a vigília das pausas de semínimas preguiçosas.

Lembrei-me da canção, do poema, da festa na qual não estive presente. E também dos feriados prolongados, em que passei ruminando quais seriam as decisões, reflexões e anseios dos personagens aos quais eu dera a luz. Meus filhos impacientes, envolvidos em tramas inventadas que misturei com algumas das minhas próprias experiências.

O escritor que rouba a história da moça; que se apaixona por ela de um jeito que para ele é novo, por isso foge, até perceber que correu em círculos, e cai de vez no abraço dela que para ele foi único. A moça que sente não caber no mundo, apodera-se de uma câmera que é para fisgar a verdade na encenação do outro. Que tem medo do que sente pelo escritor e foge dele... Até perceber que andou em círculos, e se depara com um olhar que põe seu mundo do avesso.

A moça magoada que só, aquela que …

Carta a um futuro namorado -- Paula Pimenta

Se você quer ser minha namorada, Ah, que linda namorada você poderia ser...

(Vinícius de Moraes/Carlos Lyra)



Meu querido amigo,

Sei que nossa amizade é recente, apesar dos muitos anos de conhecimento superficial que já temos. Mas, somente agora, nos sentimos à vontade para dividirmos nossas esperanças e anseios. E é exatamente este o motivo desta carta.

Em nosso último encontro, você me solicitou uma namorada. Explicou a sua vontade de passar horas na companhia de alguém, simplesmente pelo prazer de estar; e também contou da saudade de se ter intimidade com alguém a ponto de poder se mostrar tal e qual é, sem máscaras ou pudores.

Meu amigo, sei que tentei te ajudar naquele momento, catalogando mentalmente as minhas amigas solteiras que poderiam vir a lhe fazer feliz, e te perguntando sobre o seu tipo ideal, para cruzar as informações e tentar atender à sua solicitação. Mas, depois de nos despedirmos, me pus a pensar sobre essa sua vontade e resolvi te falar mais sobre o “produto namorada”, …

Aniversário de um amigo >> Felipe Holder

"Amigos a gente encontra
o mundo não é só aqui
repare naquela estrada
que distância nos levará..."
(Manduka)

Oi, meu amigo!

Amigo de dez anos, amigo de longas datas e de longa distância. Mais de 800 quilômetros nos separam. Quer dizer... separam não é bem o termo; eu diria 800 quilômetros nos unem. Oitocentos que em breve vão virar mais de seis mil - mas que não vão fazer muita diferença. Nossa amizade é imune a quilômetros. :)

Não fosse a internet, não teríamos nos conhecido. Nem conversaríamos tanto. Viva a tecnologia, então! Encontros "ao vivo" são raros, mas nem por isso a amizade diminui. Nossa amizade é imune a ausências. :)

Hoje é seu aniversário. Não estou aí para lhe dar um abraço, mas estou aqui para dizer que me lembrei do seu dia. Presente também não vai ter - exceto o "presente!" na chamada do Crônica do Dia. Um presente inesperado, depois de duas faltas seguidas. Ainda bem que nossa amizade também é imune a chamadas. ;)

Parabéns, meu amigo! Vida long…

PRA VOCÊ >> Eduardo Loureiro Jr.

Um milagre está acontecendo. Uma voz sussurra em meu ouvido. Eu a ouço e escrevo. Você olha e a escuta. Uma voz sussurra em seu ouvido. Um milagre está acontecendo.




Um milagre está acontecendo. Eu pergunto de quem é a voz. "Eu sou", diz a voz. Eu digo: Sou eu? Você pergunta de quem é a voz. Um milagre está acontecendo.



Um milagre está acontecendo. O que é que está acontecendo? Está acontecendo um milagre. E o que vem a ser um milagre? É o que acontece sempre. Eu e você, desatentos. Um milagre está acontecendo.



Um milagre está acontecendo. Eu lhe escrevo sem saber a quem. Quem é você? "Quem é ele?" Você lê sem saber quem. Um milagre está acontecendo.



Um milagre está acontecendo. Eu quero continuar a escrever. Você quer continuar comigo. Eu quero continuar com você. Você quer continuar a ler. Um milagre está acontecendo.



Um milagre está acontecendo. A voz sussurra em nosso ouvido. Eu ouço o que ela lhe fala. Estou só alucinando? Você ouve o que ela me diz. "Será que …

QUEM PILOTA SEU AVIÃO? [Maria Rita Lemos]

A pergunta pode parecer sem significado, mas tem - e muito. Ouvi muitas vezes, em diferentes lugares, a famosa frase tipicamente feminina: “meu marido não deixa”. Eu ouço e me assusto, quando tento mergulhar fundo no significado disso. A afirmativa diz, sem qualquer dúvida, que o homem (ou pai, ou companheiro) é quem estabelece o que a mulher deve fazer ou deixar de fazer, onde deve ir e de onde deve voltar...

Enfim, tem o homem dessa mulher que proferiu a frase acima o direito total - não de voto, mas de veto. O pior de tudo é que a recíproca não é verdadeira. Mulher alguma proíbe. No máximo ela esperneia, grita, protesta. Mas não lhe é dado o direito de “deixar ou deixar de deixar”. Meus leitores e minhas leitoras devem estar perguntando: “mas o que é que esse marido hipotético não deixa?” Ouso responder: Ele não deixa viver em plenitude. Ele se coloca contra tudo aquilo que poderia representar liberdade de pensamento e ação para a mulher. Ele não permite que ela cresça, que deixe d…

AJUSTES DE FABRICAÇÃO [Ana Coutinho]

E se você pudesse voltar no tempo, na época em que Deus (ou o diabo) estava construindo o seu marido/namorado e pudesse fazer alguns ajustes? Melhor, e se você pudesse fazer apenas um, um único ajuste?

Veja bem, Deus (ou o diabo) está construindo seu marido com todas as características: ele vai ser calmo, vai ser calado, falar pouco, vai ser preguiçoso, vai odiar lavar louça, vai preferir tênis a futebol, não vai ser muito de ler, mas, em compensação, vai ser ótimo pra eventuais consertos domésticos. Vai ter olhos escuros, cabelo ruim, mas, provavelmente, vai gostar de cortá-lo curto e, cedo, cedo vai ganhar uns fios brancos pela vasta cabeleira.

Ele vai ser calorento, vai ter insônia, vai sofrer de ansiedade, e vai ser nervosinho no trânsito também. Vai ser magro, desses com barriguinha, mas vai gostar
de esportes e, em algumas fases da vida, vai até ficar saradão. Ele vai ser peludo. Peludíssimo inclusive, se der tempo, diz Deus, vou caprichar até mais que no Tony Ramos (se bem, que,…

Menino apaixonado tropeça e cai de costas no asfalto << Leonardo Marona

“Entre os olhos e a coisa
cai a sombra,
e essa sombra
é a palavra pré-gravada”
(William S. Burroughs)
...e você não está ali quando mente de costas, dentro da noite e minha reticência beatificada no caos urbano, em gritos e olhos cheios de incompreensão e mãos pegajosas que tremem facas sem fio, mas ouço o teu trabalho alheio, ouço teu barulho falho, essa espécie de ronronar dos infernos, um estalo no desapego do desassossego do sexo que bateu asas, como se o som fosse da fricção da coisa vindo, como se o declínio estivesse próximo do corpo inchado, adormecido de meios-fios, meas culpas, comedores cabisbaixos de paralelepípedos, em tom surdo e seco, devastador como a flor que não passa de plástico em olhos abertos de vidro, como nós, como um saco de ossos que se pulverizaram dentro do amor assusta-dor, quem me assusta é o som do que sai de dentro como meteoro explícito na carne sudorípara do teu desamparo repentinamente próximo, dedicado a mim este ruído, um som de tropeço e absinto, um so…

ELA [Anna Christina Saeta de Aguiar]

Ela, que queria tanto da vida. Ela, que queria porque acreditava que, de algum modo, as coisas chegam se você as quiser de verdade. E ela queria muito, queria tudo, queria de verdade. Queria amar - e isso não era difícil - e queria, principalmente, ser amada. Ela que sempre sonhou com o dia em que alguém olharia fundo nos seus olhos e diria, sem riso nem fuga, "eu te amo".

Ela, que tinha tantas esperanças e planos e motivações. Ela que viu em sonhos imensos as pequenas mãos do filho que teria. Ela que imaginava o choro de seu bebê, e até mesmo sentia o corpo miúdo e macio dele aconchegado em seu seio. Logo ela, que acreditava tanto no mérito da sobrevivência e no milagre da vida que todos os anos celebrava seu próprio aniversário com bolo, velas e risos.

Justo ela, que acreditava tanto na verdade. Ela que pensava não existir nada mais correto do que dizer a verdade, mesmo que a verdade pudesse causar algum desconforto. Porque ela realmente cria que a verdade liberta. Ela não t…